A arqueóloga Niède Guidon faleceu na madrugada desta quarta-feira (4), aos 92 anos. Reconhecida internacionalmente, dedicou mais de cinco décadas ao estudo da pré-história brasileira, especialmente na região do Parque Nacional da Serra da Capivara, que ajudou a transformar em um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo.
Nascida em Jaú (SP), em 1933, Guidon formou-se em História Natural pela USP e concluiu doutorado em arqueologia pré-histórica na Sorbonne, em Paris. A partir da década de 1970, liderou escavações no Piauí que desafiaram paradigmas científicos ao apresentar evidências de presença humana nas Américas há mais de 50 mil anos, muito antes do que indicavam as teorias tradicionais.
Incansável defensora da preservação ambiental e da proteção do patrimônio histórico e arqueológico brasileiro, Guidon recebeu prêmios e homenagens por onde passou. Fundadora da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), Niède também foi responsável por iniciativas de desenvolvimento social na região, promovendo educação, saúde e geração de renda para as comunidades locais. Seu trabalho foi fundamental para que a Serra da Capivara fosse reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1991.
Durante os anos da ditadura militar, uma denúncia obrigou a arqueóloga a partir para o exílio da França. Sobre o episódio, ela falou:
– Eu era da Universidade de São Paulo. E tinha uma tia que tinha um amigo que era general. Um dia, ele telefonou para ela e disse: ‘A Niède tem que ir embora hoje porque ela vai ser presa’. Minha tia foi ao meu apartamento, me botou no avião e eu fui embora. Não foi só comigo que aconteceu. Na época, pessoas que não tinham passado no concurso para professor da USP, que tinham ficado em segundo ou terceiro lugar, denunciaram os colegas que tinham sido aprovados para ficar com o lugar deles. Foi isso que aconteceu.
Em longa reportagem de 2008, Marcos Pivetta, na Revista Fapesp destacou as dificuldades de acesso à Serra da Capivara e os entraves históricos ao desenvolvimento do turismo na região. A cidade com aeroporto mais próximo é Petrolina, a 300 quilômetros do parque, o que dificulta a visitação. Embora um estudo internacional já apontasse, há mais de uma década, que o turismo seria a principal vocação econômica da área, projetos de infraestrutura foram marcados por corrupção e abandono. Niède ironizou o episódio do aeroporto: “O governo federal criou por lei um aeroporto internacional e, em 1998, foram liberados US$ 15 milhões para a construção da obra. Como em Teresina faz muito calor, o dinheiro chegou de Brasília e derreteu todinho.” A construção só foi retomada muitos anos depois.
Ainda assim, a reportagem mostra que o parque possui boa estrutura interna, com 400 quilômetros de estradas e passarelas que facilitam a visita a pinturas rupestres. A Fumdham, fundação dirigida por Niède, mantém no local um museu com mais de 1 milhão de peças arqueológicas e paleontológicas, entre elas uma rara flauta de madeira de 1.300 anos. Há também centros de documentação, geoprocessamento e laboratórios especializados.
A revista também abordou as ideias inovadoras da arqueóloga, que defendeu, por exemplo, que os seres humanos, em diferentes partes do mundo, passaram a desenvolver tecnologias semelhantes de forma simultânea. Segundo ela, “não podemos esquecer que o Homo sapiens apareceu na África por volta de 130 mil anos”, e a seca extrema que atingiu o continente nesse período impulsionou migrações, possivelmente por via marítima.
Despedida de Niède Guidon
Em sua conta no Instagram, a historiadora Lilia Schwarcz, lamentou a morte da arqueóloga brasileira. “Niéde foi uma das primeiras a defender, com base em evidências arqueológicas, que o povoamento das Américas teria ocorrido há mais de 50 mil anos — muito antes do que se acreditava na época. Suas descobertas provocaram intensos debates na comunidade científica e colocaram o Brasil em destaque nas discussões sobre a pré-história do continente”.
