Lá estava ela no Globo de Ouro quando nossa Fernanda Torres fez História. Na ocasião, Kate Winslet – que uma câmera flagrou dizendo sobre Torres “she’s incredible” – era duplamente indicada: na categoria de Atriz de Minissérie por “O Regime” e Atriz em Filme Dramático por “Lee”. A minissérie é uma sátira aos desmandos de ditadores, enquanto o filme pode ser taxado por muitos de “Oscar bait”, isso é, uma produção feita pensando em ganhar Oscars. De fato, é uma cinebiografia bastante protocolar, mas não deixa de ser de interesse para quem gosta de conhecer a História da Segunda Guerra Mundial.
Em 1938, Lee Miller já era uma ex-modelo norte-americana de passagem pela França, fazendo as três coisas que sabia fazer: tirar fotos, beber e transar. Ela já diz que gosta mais de fotografar do que ser fotografada. É agente, não objeto da imagem. Lá conhece o artista Roland (Alexander Skarsgård), que se torna seu companheiro e com quem divide uma casa em Londres quando chega a guerra, que para eles parecia tão distante.
Em 1940, Lee está trabalhando como fotógrafa para a revista Vogue, e a ela compete a missão de registrar como as mulheres podem fazer sua parte no esforço de guerra. Lee já sabe qual é “sua parte”: quer ser enviada para o front. Ela se voluntaria como correspondente de guerra norte-americana e realiza seu intento.
No elenco capitaneado por Winslet, temos também a oscarizada Marion Cotillard como uma amiga francesa de Lee e Noémie Merlant, famosa pelo sensível “Retrato de uma Jovem em Chamas”, como outra amiga que, saindo dos esconderijos após Paris ser libertada, narra para Lee os horrores da política de extermínio nazista. Também vale destacar Andy Samberg, num papel dramático, raro em sua carreira, como um correspondente norte-americano.
Ecos da vida real
Numa sequência ambientada em 1938, o grupo de amigos vê a festa de aniversário de Hitler num cinejornal. Roland comenta que “são uns idiotas, mas são perigosos”. Lee não acredita que todos na multidão estão cegos de idolatria. Chegam à conclusão de que a única resposta possível para a tirania é criar arte.
Na sede da revista Vogue, Lee encontra um velho conhecido: Cecil Beaton, interpretado por Samuel Barnett. O britânico acumulava talentos: era escritor, pintor, figurinista e cenógrafo para teatro e cinema e, claro, fotógrafo. Aprendeu a fotografar usando a câmera de sua babá e a família como modelos, até chamar a atenção de revistas. Sua produção durante a guerra, que ajudou a inflamar os nervos dos norte-americanos para pegar em armas, é, entretanto, eclipsada pelas suas fotografias da realeza britânica e das estrelas de Hollywood.
A revista Vogue é comandada por uma mulher: Audrey Withers, interpretada por Andrea Riseborough. Decidida, dedicada e sem filhos, assim como Lee, Audrey escolheu para a Vogue do período da guerra um olhar progressista, político e poderoso. Sem cobrir pautas de moda, que delegava para terceiros, mas dando espaço a artigos de intelectuais como Simone de Beauvoir, Withers permaneceu na Vogue até 1960.
O filme trata da nudez com naturalidade. Durante décadas, proibida graças ao severo Código Hays de conduta nas telas, a nudez ainda é tabu em algumas culturas, apesar da flexibilização das regras no cinema. A cena meio borrada de amputação ou a dos mortos empilhados nos campos de concentração deveriam chocar mais que a nudez.
Kate Winslet é também produtora de “Lee”, e passou nove anos se esforçando para angariar patrocínios para fazer este filme. A ideia veio de um livro que a então diretora de fotografia Ellen Kuras viu numa livraria, observando naquele momento uma semelhança física entre a fotógrafa Lee Miller e a atriz Kate Winslet. Com acesso total ao acervo da fotógrafa, Winslet e o time por trás do filme escolheram focar em uma década fundamental da História do mundo e também da história de vida dessa figura múltipla que foi Lee Miller.
Filmes sobre o papel das mulheres na Segunda Guerra começaram a ser feitos durante o conflito. Deste momento vale mencionar o vencedor de seis Oscars, incluindo Melhor Filme, “Rosa de Esperança” (1942), sobre o chamado homefront. Hoje, mesmo com o distanciamento temporal, narrativas assim continuam poderosas, estando presentes em filmes como “Três Mulheres: Uma Esperança” (2022), sobre a condição feminina nas adversidades, e “O Batalhão 6888” (2024), sobre um grupo de mulheres negras enviadas para cuidar do serviço postal na Europa beligerante. O que destaca “Lee” das obras supracitadas é que este é um filme sobre mulheres na guerra dirigido por uma mulher.
O que chocou Lee Miller na Alemanha também teve impacto profundo no cineasta George Stevens. Ele foi um dos cinco diretores de Hollywood – junto a Frank Capra, John Huston, William Wyler e John Ford – encarregados de fazer documentários sobre o conflito. A trajetória deles, enquanto cumpriam a missão, foi assunto da série documental “Five Came Back”.
Como seguir em frente após testemunhar o horror? George Stevens nunca mais dirigiu uma comédia. Lee Miller ouviu de Audrey que suas fotos poderiam perturbar as pessoas, que por sua vez tinham que “seguir em frente”. Isso mostra o que já sabíamos: o poder da imagem no século XX.
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