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Jacques Le Goff foi questionado sobre o sucesso da História entre o público — sua resposta foi reveladora

Jacques Le Goff foi questionado sobre o sucesso da História entre o público — sua resposta foi reveladora 2

Jacques Le Goff, historiador francês, referência na historiografia da História Média. Foto: reprodução.

Em 1982, o historiador francês Jacques Le Goff concedeu uma entrevista a Francesco Maiello. Publicada posteriormente no livro Jacques Le Goff: Reflexões sobre a história, lançado em maio de 2009 pela Edições 70, a conversa aborda diferentes aspectos do ofício dos historiadores e do lugar da História na sociedade.

Em determinado momento, os dois discutem uma questão particularmente interessante: a relação entre a História e o grande público.

Le Goff começa com uma constatação que, passadas mais de quatro décadas, continua bastante pertinente. Segundo ele, era possível observar, sem necessidade de grandes palavras, aquilo que chamou de “o triunfo da história” junto ao “grande público”. O historiador se referia ao crescente interesse das pessoas pelo passado, perceptível tanto na imprensa quanto em diferentes manifestações da cultura de massa.

De fato, a História havia conquistado um espaço expressivo para além das universidades. Livros, revistas, jornais, programas de televisão e outras produções culturais demonstravam que o interesse pelo passado não estava restrito aos especialistas.

Mas Maiello introduz uma ponderação. Se os historiadores não gozavam, aos olhos de quem os governava, de tanto prestígio, o mesmo não parecia valer para a maneira como eram recebidos pelo grande público.

A resposta de Le Goff é reveladora. E contém uma observação importante para todos aqueles que trabalham com História Pública, divulgação científica e circulação do conhecimento histórico:

“Desejaria fazer-lhe notar que, quando falei de êxito e de triunfo, falei da História e não do historiador. Além disso, a difusão e o prestígio nem sempre caminham conjuntamente.”

A distinção merece atenção. Para Le Goff, o sucesso da História como assunto de interesse social não significava, necessariamente, que os historiadores também desfrutassem de reconhecimento e prestígio equivalentes. Em outras palavras, uma sociedade pode consumir História, demonstrar curiosidade pelo passado e valorizar narrativas históricas sem que isso se traduza automaticamente em valorização dos profissionais responsáveis pela produção do conhecimento histórico.

O sucesso da História significa o reconhecimento dos historiadores?

A observação de Le Goff oferece uma boa oportunidade para pensar sobre os desafios contemporâneos da História Pública e da divulgação científica.

Hoje, o passado está presente em diferentes espaços de comunicação e entretenimento. Documentários, podcasts, filmes, séries, jogos digitais, redes sociais e canais especializados mobilizam milhões de pessoas em torno de assuntos históricos.

Esse interesse representa uma oportunidade importante para aproximar a produção acadêmica de públicos mais amplos. Mas também levanta uma questão: como transformar o interesse pela História em maior reconhecimento do trabalho dos historiadores? E mais: é importante mobilizar os historiadores com as formas diversas de popularização da história.

Afinal, a circulação de conteúdos históricos não garante, por si só, que o público compreenda como o conhecimento histórico é produzido, quais métodos orientam a investigação ou por que a pesquisa especializada é importante.

A reflexão de Le Goff continua, portanto, bastante atual. Ela nos lembra que popularidade, circulação e prestígio são fenômenos diferentes. E que pensar a presença da História na sociedade exige também refletir sobre o lugar ocupado por aqueles que a pesquisam, ensinam e divulgam.

Curso on-line discute a relação entre História e público

Essas questões estarão entre os temas do curso on-line Fundamentos do Pensamento Histórico, que acontece nos dias 9, 10 e 11 de novembro de 2026.

No terceiro e último encontro, em 11 de novembro, Bruno Leal, professor da Universidade de Brasília (UnB) e criador do Café História, abordará as relações entre História e público.

A aula discutirá diferentes formas de circulação do conhecimento histórico para além dos espaços acadêmicos, incluindo a divulgação científica, a História Pública, as mídias digitais e as redes sociais.

O curso também contará com encontros sobre História e imagem, com Rafael Verdasca (História Pirata), e História e pensamento, com Daniel Gomes de Carvalho (USP / História Pirata).

As aulas serão transmitidas ao vivo pelo YouTube, das 19h30 às 21h, com espaço para perguntas dos participantes. As gravações ficarão disponíveis por 60 dias, mediante link restrito.

A formação é aberta ao público, não exige pré-requisitos e oferece certificado de 4h30.

Serviço

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