Antes que eu possa começar qualquer análise sobre o filme japonês Kokuho – que estreia nos cinemas brasileiros dia 05 de março – é essencial compreender a base cultural sobre a qual ele se constrói: o teatrokabuki.
Surgido no início do século XVII, o kabuki é uma das formas mais emblemáticas do teatro japonês, uma tradição que atravessou gerações sem nunca perder sua força ritualística. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, ele combina música, dança e atuação de forma altamente estilizada em um espetáculo onde cada gesto, cada pausa e cada olhar carregam significado na narrativa.
Preciso também informar que nokabuki, nada busca o naturalismo. Os movimentos são coreografados com uma precisão quase matemática e minuciosa, os figurinos são exuberantes, e a maquiagem — aplicada em camadas espessas, com uma representação gráfica característica muito simbólica do estilo — transforma o rosto humano em uma máscara dramática. Tradicionalmente, o teatrokabuki era interpretado apenas por homens, algo que aparentemente era também a regra no teatro ocidental, como no grande teatro de Shakespeare.
Os papéis femininos eram vividos pelos chamados onnagata (traduzida, a palavra significa “papel feminino” ou “maneira feminina”), exigindo uma dedicação absoluta do corpo e da identidade do ator. O palco se estende à plateia através do hanamichi (passagem das flores ou caminho florido), verdadeiras passarelas que atuam dissolvendo as fronteiras entre público e atores, e lembrando que ali não se encena apenas uma história: estamos diante da preservação de uma herança.
E é dessa herança que nasce o longa metragem Kokuho. O título traduzido significa literalmente a expressão “tesouro nacional”. No Japão, o termo, como fica meio evidente, designa bens culturais de importância excepcional, como é o caso de templos, esculturas, pinturas ou artefatos históricos. Quando aplicado a pessoas, aproxima-se do conceito de ningen kokuhō, os chamados “tesouros nacionais vivos”: artistas cuja maestria preserva técnicas essenciais à identidade cultural japonesa. E cuja presença nobre é festejada e respeitada em diversas esferas sociais da sociedade japonesa.
O título do filme também já nos antecipa seu questionamento central: o que acontece quando uma vida inteira é dedicada a se tornar patrimônio? Qual é o peso da desumanização e da idolatria de símbolos nacionais? Portanto, Kokuho não vive só de sua exuberante beleza e da estética kabuki.
Um épico sobre arte e rivalidade
Dirigido pelo japonês Lee Sang-il e adaptado do romance homônimo do autor Shuichi Yoshida, o longa acompanha cinquenta anos na vida do artista fictício Kikuo Tachibana (Ryō Yoshizawa). Após o assassinato do pai, que mantinha laços com a yakuza, o jovem é acolhido por um lendário ator dekabuki e passa a ser moldado – incluindo todos os rituais e modo de vida – dentro dessa tradição rigorosa. O ator veterano Ken Watanabe (The Last Samurai/2003) interpreta esse ator — o famoso mestre Hanjiro — e o incorpora com uma autoridade contida, representando a permanência da tradição e o peso que ela impõe sobre seus indivíduos.
Ao lado de Shunsuke (Ryusei Yokohama), filho biológico do mestre Hanjiro, Kikuo constrói uma relação que oscila constantemente entre fraternidade e rivalidade. O ator Ryō Yoshizawa constrói Kikuo como alguém que lentamente se funde e, por vezes, se confunde com a arte que pratica. Sua transformação é gradativa e lenta, mas é bastante física e emocional. Já Ryusei Yokohama dá ao personagem Shunsuke uma tensão interna constante, marcada pela disputa entre herança e mérito. O tempo todo vemos na tela ambos os jovens desejando algo que ultrapassa fama ou reconhecimento momentâneo: eles buscam a permanência. O objetivo de vida dos atores é deixar sua marca na história do teatro japonês.
O diretor Lee Sang-il sempre se interessou por personagens em tensão com seu contexto social e emocional. Podemos ver isso claramente em outros de seus filmes como Hula Girls (2006), Villain (2010) ou Rage (2016), onde Sang-il já tinha demonstrado sua predileção pela exploração de conflitos íntimos e dilemas morais dentro da sociedade japonesa. Em Kokuho, ele explora essa temática de forma mais sóbria e, digamos assim, comportada, em comparação a outros trabalhos. A tensão que vai sendo construída lentamente assume uma dimensão quase espiritual: o embate entre identidade individual e responsabilidade cultural, sendo dilemas muito presentes entre japoneses. Sua direção equilibra espetáculo e a vida privada de seus personagens, permitindo assim que o filme respire tanto nos palcos iluminados quanto nos bastidores silenciosos.
Imagem, figurino e a estética como narrativa
Kokuho é, sem sombra de dúvida, um filme para ser “comido com os olhos” e um deleite especial para fãs da cultura do kabuki. Porém, sua exuberância atrai mesmo os espectadores mais desconectados das tradições representadas na tela. A fotografia de Sofian El Fani (Azul é a Cor mais Quente/2013) reforça o contraste entre o brilho no palco e a exaustão de uma dedicação intensa e completa. A câmera captura todo o esplendor coreografado das apresentações e, logo depois, a fragilidade do ator longe dos aplausos.
O figurino de Kumiko Ogawa, bastante conhecido em filmes de grande alcance como os épicos de Tarantino Kill Bill vol. 1 e 2, recria com um admirável rigor histórico os extremamente elaborados quimonos do kabuki, cuja estrutura e peso impõem disciplina extrema ao corpo. Cada camada de tecido molda o gesto e a postura dos personagens. Assim como o cabelo e a maquiagem de Naomi Hibino, Tadashi Nishimatsu e Kyôko Toyokawa buscam extrema fidelidade e reverenciam a arte com respeito, mas sem tirar toda sua opulência. O show de cores misturado às peças representadas no palco – e sobreamente descritas para nós, leigos — torna a experiência sensorial incomparável.
Portanto, não estamos aqui diante de um acaso quando o filme recebeu a indicação ao Oscar 2026 na categoria Best Makeup and Hairstyling (Melhor Maquiagem e Penteados). Em Kokuho, maquiagem e penteado são muito mais do que técnica: são identidade visual e herança cultural. Vemos o rosto pintado não como máscara sobre o ator — a maquiagem o transforma em um tesouro nacional, um Kokuho.
Quando a arte exige tudo
O que conclui depois da sessão é que Kokuho não é apenas um filme sobre uma forma de teatro folclórico. É uma reflexão — mesmo quando silenciosa — sobre o custo da excelência e sobre o que se sacrifica para que a arte sobreviva além do corpo físico do indivíduo. O longa nos questiona até que ponto uma vida pode se tornar uma forma de patrimônio, desprendida de sua individualidade, desejos ou sentimentos pessoais.
Entre o silêncio – o ritmo do filme é realmente lento – e o aplauso, entre o rosto nu e o rosto completamente pintado, o filme nos fala da essência da arte que exige do artista uma entrega absoluta. E é nesse gesto de entrega que reside a maior força de Kokuho, o público é convidado a mergulhar não apenas em um drama histórico, mas em uma experiência sensorial sobre tradição, permanência e transformação.
