Adidas e Puma são duas das marcas esportivas mais icônicas e conhecidas do mundo, mas poucos sabem que suas origens estão ligadas por uma das rivalidades familiares mais intensas da história do mundo dos negócios. Ambas as empresas nasceram na pequena cidade alemã de Herzogenaurach, no Estado da Baviera, no sul da Alemanha, sendo fundadas por dois irmãos: Adolf Dassler, criador da Adidas, e Rudolf Dassler, criador da Puma.
O que começou como um sonho compartilhado entre dois sapateiros ambiciosos transformou-se em uma disputa entre gerações que dividiu não apenas uma família, mas uma comunidade inteira — mundial — que se afirma fiel a uma ou a outra com um fervor quase religioso. O documentário Guerra dos Tênis: Adidas v Puma, que trago hoje para vocês, mergulha profundamente nessa história ao longo de três episódios, traçando a trajetória dos irmãos Dassler desde a parceria até a ruptura e, finalmente, a criação de dois impérios globais.
O início de uma rivalidade
Já no primeiro episódio intitulado A Rivalry Begins, a dupla de diretores Oliver Clark e Blair Macdonald — que acompanhou a rotina das duas empresas durante dois anos — estabelece as bases históricas de tudo que viria depois. Somos transportados, por arquivos de imagens e entrevistas, para a Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial, um período de escassez, dureza e reconstrução. Os irmãos Dassler, filhos de um sapateiro, decidiram abrir seu próprio negócio: a Fábrica de Calçados dos Irmãos Dassler (Gebrüder Dassler Schuhfabrik). Adi era o cérebro técnico, obcecado por precisão e inovação, dedicado a criar o calçado atlético perfeito. Rudi, por outro lado, era o extrovertido e o vendedor nato, responsável por divulgar e promover os produtos. E falando em produto, os irmãos começaram por ele mesmo: o tênis, o Turnschuh em alemão, sneaker em inglês. No início, a parceria funcionava bem, e na década de 1930 seus sapatos já eram usados por atletas de destaque da época.
O grande marco veio nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, quando o velocista americano Jesse Owens venceu quatro medalhas de ouro usando os calçados dos Dassler — um momento que projetou a marca no cenário mundial esportivo. No entanto, a ascensão do regime nazista e as pressões da Segunda Guerra Mundial começaram a desgastar a relação entre os irmãos. Colaborações com o partido nazista, mal-entendidos, traições, ciúmes e ambições conflitantes aprofundaram a ruptura. Após o fim da Segunda Guerra, a parceria desmoronou definitivamente.
Rudolf “Rudi” foi o primeiro a abandonar o negócio para fundar sua própria empresa, que inicialmente chamou de “Ruda”, mas que depois foi rebatizada de Puma e ganhou o famoso felino pulando no logotipo. A princípio, a intenção de Rudi era clara: fazer calçados que melhorassem a performance de atletas. Já a marca Adidas — pronunciada “Ádidas” — tem um significado que justifica sua entonação: é a junção de Adi, apelido de Adolf, e Das do seu sobrenome, Dassler. O grande “culpado” pela pronúncia que temos nas Américas da marca é o duo de HipHop Run/DMC e seu clássico rap “My aDIdas”. E graças também a essa parceria inusitada e bem-sucedida com o mundo da música, a marca — com sua coleção de clássicos como o Superstar — recebeu um grande impulso na cultura popular global.
Como resultado dessa separação, o pequeno vilarejo de Herzogenaurach, durante os anos 50, dividiu-se por completo: quem trabalhava, comprava ou socializava com uma marca dificilmente se misturava com os simpatizantes da outra. O que antes era uma parceria familiar transformou-se em uma guerra silenciosa de décadas.
Das Quadras às Ruas
O segundo episódio, From the Courts to the Streets, vai além do conflito pessoal e mostra como ambas as empresas se transformaram em potências globais e suas variadas técnicas de fazer negócios (que nem sempre transcorriam da forma mais honesta). No pós-guerra, o esporte tornou-se um palco de orgulho nacional e de rivalidade corporativa entre os irmãos que dominavam o mercado dos calçados esportivos. Adi Dassler manteve o foco nos atletas, aperfeiçoando os calçados e desenvolvendo modelos que melhoravam o desempenho esportivo. A Adidas ganhou destaque internacional quando a seleção da Alemanha Ocidental venceu a Copa do Mundo de 1954 utilizando chuteiras com travas removíveis — uma inovação criada e patenteada por Adi. Rudi, como estratégia, respondeu agressivamente, investindo em marketing e em patrocínios de grandes estrelas do futebol e do atletismo, algo inédito na época, inaugurando o apoio financeiro de marcas a esportistas de ponta.
Nas décadas seguintes, a competição entre as duas marcas — encabeçada pela Adidas – ultrapassou o âmbito dos esportes, a busca era por calçados que se tornassem símbolos de estilo, moda e identidade. O documentário mostra como Adidas e Puma acompanharam essa mudança, buscando a conexão a novos públicos por meio da música, da cultura urbana e da streetwear. Adidas firmou parcerias com celebridades, enquanto a Puma tentava encontrar espaço na cultura pop. No fim do século XX, as duas marcas acabaram deixando de ser apenas rivais no esporte — tornaram-se representações de diferentes estilos de vida, influenciando o comportamento e o modo de vestir de gerações inteiras. Quem de nós sneakerheads não tem seu favorito? Os meus estão bem guardados no armário, alguns, inclusive, com décadas de longas caminhadas por esse mundão no currículo.
Vencer a Qualquer Custo
O terceiro episódio, chamado Win at All Costs, traz a narrativa para os tempos atuais e mostra como o legado da rivalidade entre os Dassler ainda molda a cultura em torno das duas empresas hoje. Mesmo após a morte de Adi e Rudi, elas continuaram competindo ferozmente, ainda com sede na mesma pequena cidade, mas agora comandando operações globais. As mudanças de liderança trouxeram novos desafios — e algumas são dignas de roteiros de novela — mas o espírito competitivo permaneceu. O documentário também analisa como ambas as marcas enfrentaram a era da globalização, do marketing digital e da fusão entre moda e esporte. A Adidas se associou a artistas como Kanye West e Pharrell Williams, enquanto a Puma colaborou com Rihanna e outros ícones culturais, mostrando que a competição evoluiu, mas nunca desapareceu. Mas lá estão ainda os Dassler de Herzogenaurach, que permanecem como um lembrete vivo de como os conflitos pessoais podem atravessar gerações e moldar indústrias inteiras.
Vistos em conjunto, os três episódios de Sneaker Wars: Adidas v Puma compõem um retrato marcante de como uma disputa familiar redefiniu não apenas o mercado de calçados esportivos, mas também a cultura jovem contemporânea. A história de Adi e Rudi Dassler é, antes de tudo, uma reflexão sobre a natureza ambígua da competição: ela pode impulsionar a criatividade e a excelência, mas também gerar divisão e ressentimento. A rivalidade entre os irmãos forçou ambos os lados a buscar constantemente inovação — seja em tecnologia, marketing ou design — e dessa tensão nasceu o modelo de negócio moderno do esporte e da moda.
O sucesso global de Adidas e Puma transformou Herzogenaurach no berço da indústria mundial de tênis, mas o preço emocional dessa conquista é um tema recorrente no documentário, inclusive com inúmeros depoimentos e registros históricos. Em uma entrevista, Adi fala que não odiava Rudi, não se davam bem, eram competidores, mas acima de tudo eram irmãos. Quem já foi a um almoço em família de alemães sabe muito bem o que isso significa: ambos no mesmo ambiente, trocando cumprimentos e gentilezas exigidas pela educação, mas fora desse âmbito não é medido esforço para bater o outro na concorrência e no lucro.
Sneaker Wars é, sim, um documentário primordialmente feito para fãs — me senti representada, os episódios vão além da narrativa empresarial: é uma história sobre família, orgulho e legado. Por meio de imagens de arquivo — muitas vezes cedidas pelas próprias empresas — entrevistas e análises contemporâneas, o documentário captura o poder duradouro dos vínculos pessoais — e das feridas que eles podem deixar. Adidas e Puma podem hoje coexistir como marcas globais, com logotipos que estampam campos de futebol, passarelas e ruas do mundo todo, mas sua origem comum continua sendo um lembrete poderoso de que criação e conflito muitas vezes andam lado a lado. A história dos irmãos Dassler mostra que as batalhas mais intensas nem sempre acontecem nos mercados ou nos estádios — às vezes, elas começam em casa mesmo.
O documentário produzido pelo canal Hulu está disponível na Disney+.
