É lugar-comum afirmar que o cinema de época costuma olhar para o passado como se ele estivesse muito distante de nós. Mas Rose, dirigido pelo austríaco Markus Schleinzer, faz exatamente o contrário. Ao acompanhar uma mulher que, em pleno século XVII, assume o nome de um soldado morto para sobreviver em um mundo dominado pelos homens, a trama acaba falando muito mais sobre o presente do que nos poderia parecer à primeira vista.
A história se passa em uma Alemanha devastada pelas consequências da Guerra dos Trinta Anos — conflito esse que, de religioso, passou a político e se espalhou na época pelo Império Romano-Germânico. Nesse contexto, Rose chega a uma pequena comunidade protestante em busca de construir uma nova existência com sua identidade falsa. O que poderia ser apenas uma história de disfarce e sobrevivência ganha outra dimensão quando essa nova presença gera mudanças que alteram imediatamente a maneira como os moradores passam a se comportar.
E aqui precisamos ponderar como é impossível ignorar o quanto nossa percepção de gênero continua ligada a códigos sociais, em sua maioria, fortemente patriarcais. A roupa, a postura, a voz, o comportamento e até a maneira de ocupar um espaço determinam aquilo que os outros enxergam em nós. Rose descobre isso da forma mais radical possível. Como mulher, existem limites, mas sob uma aparência masculina muitos deles simplesmente desaparecem. E o diretor Markus Schleinzer nem precisa transformar essa constatação em discurso. A própria situação já é suficientemente contundente.
Schleinzer, conhecido por trabalhos como Michael (2011) e Angelo (2018), conduz a narrativa com o mesmo recorrente interesse por personagens deslocados e rejeitados em situações moralmente desconfortáveis que já marca sua filmografia. Visualmente, a obra acompanha essa contenção. A fotografia em preto e branco de Gerald Kerkletz cria uma Alemanha áspera, marcada pela pobreza, pela guerra e pela ausência de qualquer romantização do passado. Existe beleza nas imagens, mas é uma beleza seca, quase desconfortável.
A extraordinária Sandra Hüller ocupa o centro da história como Rose, enquanto Caro Braun interpreta a sua esposa Suzanna e acrescenta uma importante dimensão afetiva à trama. O elenco ainda conta com outras presenças interessantes que ajudam a construir uma comunidade aparentemente rígida, mas cheia de contradições e ressentimentos.
Sandra Hüller transforma silêncio em personagem
Sandra Hüller é, sem sombra de dúvida, o coração de Rose. Mais uma vez, a atriz demonstra uma capacidade impressionante de construir figuras que parecem esconder alguma coisa mesmo nos momentos de maior silêncio. Seu rosto marcado e expressivo nos oferece uma riqueza de tons na atuação. Depois de Anatomia de uma Queda (2023), Zona de Interesse (2023)e Devoradores de Estrelas (2026), ela encontra aqui um papel completamente diferente, mas preserva talvez sua maior qualidade como atriz: a capacidade de dizer muito sem precisar explicar quase nada. A intensidade de sua atuação mora sempre nas pausas e nos silêncios, no olhar e em microexpressões. Então Rose fala pouco. Hüller também não exagera nos gestos. Ela observa, calcula e mede até onde pode avançar sem colocar sua falsa identidade em risco. O medo aparece claramente na melancolia de seus olhos, enquanto o corpo precisa transmitir a segurança de alguém que não pode demonstrar nenhum traço de fragilidade ou feminilidade.
Essa escolha evita um dos principais perigos da premissa: Hüller jamais transforma Rose em uma caricatura de mulher tentando parecer um homem. Ela interpreta alguém que percebe rapidamente como as regras funcionam, se adapta e aprende a utilizá-las a seu favor. A autoridade a ela concedida não nasce de uma mudança interior, mas daquilo que os outros acreditam estar diante deles.
Já Caro Braun, como Suzanna, esposa de Rose, acrescenta uma delicadeza importante à trama. A relação entre as duas introduz uma dimensão emocional que impede a história de se resumir à própria farsa, mas ao mesmo tempo, passa longe de um drama romântico. A naturalidade do relacionamento reflete o pragmatismo das relações da época.
O passado de olho no presente
O que mais gosto em Rose, e no cinema alemão de uma forma geral, é que não existe uma resposta confortável nem um final bonitinho e pré-moldado. Rose mente. Sua nova vida nasce de uma fraude. Mas, ao mesmo tempo, essa escolha lhe proporciona uma liberdade que dificilmente teria alcançado de outra maneira na época.
Para mim, é essa contradição que sustenta boa parte da força da história. Não estamos aqui diante de alguém que simplesmente deseja ser outra pessoa. Estamos diante de alguém que percebe que precisa assumir um papel diferente para ter acesso a direitos básicos, para sobreviver.
Markus Schleinzer também evita transformar sua protagonista em um símbolo perfeito de uma causa. Ela não é uma Joana D’Arc. Ela é contraditória, às vezes egoísta, vulnerável e sempre objetiva. Sua prioridade é sobreviver. E eu acho que talvez seja justamente essa imperfeição que a torne tão convincente.
Em uma época em que ainda, infelizmente, discutimos quem pode ocupar determinados espaços, como uma mulher deve se comportar e quais características definem o masculino e o feminino, Rose encontra no século XVII uma maneira de falar sobre questões absolutamente contemporâneas sem parecer uma deturpação de tradições históricas.
Porém, preciso dizer que nem tudo funciona com a mesma força. O ritmo é lento e a distância emocional — outra característica do cinema alemão, principalmente o de época — pode afastar parte do público. Em alguns momentos, o diretor parece confiar demais na própria austeridade. A narração feita em off também interfere um pouco em uma história que poderia confiar ainda mais em suas imagens e silêncios.
Ainda assim, Sandra Hüller, definitivamente, impede que a experiência desapareça depois dos créditos. Ela transforma Rose em uma presença inquietante, alguém que descobriu que determinadas portas só se abrem quando o mundo acredita que você pertence ao lado certo delas. Um pensamento inquietante e que gruda muito na mente de nós, mulheres.
E certamente essa é a provocação mais forte de Rose. A protagonista não precisa mudar quem é; ela precisa apenas mudar a maneira como os outros a enxergam e a percebem.
O filme, que deu a Sandra Hüller o Urso de Prata de melhor atuação no Festival de Berlim em fevereiro, ainda não tem uma data de lançamento marcada nos cinemas brasileiros, mas a expectativa é que surja na programação de alguma das mostras de cinema no Brasil que ainda ocorrem esse ano.
