Confesso que tenho uma falha na minha formação como historiadora: conheço muito pouco dos grandes nomes da Sociologia. Por exemplo: foi apenas no ano passado que fui apresentada, durante um curso livre, a Frantz Fanon. De cara, o que me impressionou foi a brevidade de sua vida: morreu com apenas 36 anos. Na ocasião de seu centenário de nascimento, em 2025, estreou na França um filme sobre sua breve mas impactante jornada como humanista e pensador, intitulado simples e sucintamente Fanon.
Argélia, 1953. O doutor Frantz Fanon (Alexandre Bouyer) chega num hospital psiquiátrico para gerir a ala dos doentes locais, onde medo e respeito se confundem. De cara, faz uma pequena revolução, mandando soltar os homens acorrentados e os presos em camisas-de-força. Ele consegue um intérprete para se comunicar com os internos, e pede a ajuda deles para deixar o ambiente mais acolhedor.
Concomitante ao seu trabalho como médico, Fanon desenvolve suas ideias sobre colonialismo observando o mundo a seu redor, e também a partir de sua própria experiência. São pensamentos cortantes, como este sobre as raízes do racismo: “Não é possível escravizar seres humanos sem, logicamente, inferiorizá-los por completo”.
Assim, pensando na relação entre colonizador e colonizado, Fanon se envolve na luta pela independência da Argélia. Ele conhece rebeldes como Ramdane (Salem Kali), o líder, e a jovem Farida (Sfaya Mbarki), que se alistou por causa do pai e que odeia os franceses – reação que Fanon considera normal para quem testemunhou muitos atos de brutalidade.
Dizendo precisar de tratamento, o sargento Rolland (Stanislas Merhar) reclama pois quer ser tratado por um “médico normal”, recusando assim o auxílio de Fanon, um homem negro, e da brilhante psiquiatra convidada Alice (Salomé Partouche), uma mulher. Por muito tempo pessoas que não eram homens brancos foram impedidas de estudar medicina e assim aprender a profissão. No Brasil, uma pioneira da medicina foi Madame Durocher, homenageada no filme homônimo de 2024.
Memórias e impactos do colonialismo
A Argélia foi colônia francesa entre 1830, quando foi tomada com o objetivo de tornar o rei francês Carlos X mais popular, e 1962, um ano após a morte de Fanon. A Guerra de Independência da Argélia durou de 1954 a 1962 e foi uma das guerras coloniais mais violentas do século. Entre desentendimentos e aproximações, a relação entre França e Argélia pós-independência vem sendo uma de estreita ligação – afinal, os dois países ainda são grandes parceiros econômicos e, se na colonização havia os pied-noirs, europeus morando na Argélia, hoje vivem milhões de argelinos na ex-metrópole.
Fanon era da Martinica, também uma colônia francesa desde 1848, e descendente de escravos. Ainda hoje a Martinica é um departamento ultramarino e região administrativa da França, ou seja, por lá ainda existe um tipo de colonialismo. O diretor de Fanon, Jean-Claude Barny, nasceu em Guadalupe, outra região ultramarina francesa.
A colonização envolve violência. A lógica da maioria dos hospitais psiquiátricos também. Fanon acreditava que os doentes melhoravam se integrados à família e à comunidade, e não encerrados em cubículos ou prostrados em camas, entupidos de remédios. Dessa maneira, podemos dizer que Fanon se envolveu na luta anticolonial, mas também se alinhava com as ideias da luta antimanicomial, que vem ganhando muito espaço nos últimos anos.
Frantz Fanon passou para a Sociologia – e para a História – como um dos principais pensadores do pós-colonialismo e também foi abraçado pelos estudos decoloniais. Terminamos com o que a divulgação do filme, que estreia em 14 de maio nos cinemas brasileiros, tem a dizer sobre a urgência do pensamento de Fanon:
“Fanon defendeu que a descolonização não é apenas um processo político, mas também cultural e subjetivo — uma libertação integral dos corpos e das consciências. No Brasil, seu pensamento segue ecoando nos debates sobre raça, cultura e emancipação, reforçando a urgência de novas formas de resistência e de imaginação política.”
