Publicado em 2016 e disponível gratuitamente online, o livro Escravidão, doenças e práticas de cura: enfermidades e tratamentos no Brasil escravista reúne uma série de estudos fundamentais para compreender a relação entre saúde, corpo e resistência na experiência de africanos escravizados no Brasil. Organizado pelos historiadores Flávio Gomes (UFRJ) e Tania Salgado Pimenta (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz), a coletânea é fruto do projeto de pesquisa Etnicidade, africanos e doenças no Atlântico: padrões sócio-demográficos e assistência no Rio de Janeiro (1810-1888), financiado pelo CNPq/Fiocruz. Clique aqui para baixar.
A publicação reúne ensaios e artigos de diversos pesquisadores brasileiros que vêm, nos últimos anos, investigando as interseções entre escravidão, saúde e cultura. Mais do que estudar os corpos adoecidos da população cativa, o livro propõe uma leitura que leva em conta o modo como africanos e seus descendentes compreendiam a saúde e os tratamentos — muitas vezes em choque com a medicina oficial do Império. Essas visões, vinculadas a sistemas cosmológicos trazidos da África e adaptados no contexto brasileiro, são essenciais para entender o cotidiano da escravidão para além do trabalho forçado.
“No Brasil, os estudos sobre doenças e saúde da população escravizada começaram a despontar a partir dos anos 2000. Alguns dialogaram diretamente com a historiografia da escravidão, outros se inseriram no debate acerca da história da saúde. Embora não seja possível identificar uma agenda em comum, várias investigações mais recentes têm indicado a importância de mais pesquisas sobre doenças e saúde das populações coloniais e pós-coloniais, especialmente nas sociedades escravistas, sendo fundamental verificar elementos que compuseram o quadro nosológico dos escravos, indicando doenças, curas, condições de vida e morte”, escrevem os organizadores na apresentação da obra.
Entre os principais temas da coletânea, está a análise das concepções africanas e afro-brasileiras sobre as causas das doenças. Em muitas culturas de origem bantu e iorubá, por exemplo, acreditava-se que o adoecimento podia ser provocado por espíritos malévolos ou por ações humanas intencionais, como feitiçaria e bruxaria. Essas concepções explicam, em parte, a ampla aceitação que curandeiros e terapeutas populares — e não os médicos formados pela ciência acadêmica — tinham entre cativos e libertos ao longo do século XIX.
Além de mapear essas práticas e crenças, os capítulos da coletânea se debruçam sobre padrões de morbidade e mortalidade entre populações escravizadas no Brasil. Ainda são raros os estudos que se dedicam a verificar, com profundidade, as variações regionais e demográficas desses indicadores. O livro traz importantes tentativas de cruzar dados sobre procedência africana, clima, regimes de trabalho, idade, taxas de natalidade e mortalidade infantil, estrutura dos plantéis (grandes ou pequenos) e o impacto do tráfico atlântico sobre até três gerações. Essa abordagem revela o quanto as condições de vida — e de morte — dos escravizados estavam diretamente ligadas à lógica do lucro, da disciplina e do controle social.
Outro mérito da obra é valorizar pesquisas que nasceram de dissertações e teses de pós-graduação, oferecendo espaço para jovens pesquisadores e para uma renovação nos estudos sobre escravidão. Com uma abordagem interdisciplinar, que dialoga com a história da saúde, da demografia, da cultura e das relações raciais, Escravidão, doenças e práticas de cura mostra como o corpo do escravizado era, ao mesmo tempo, campo de sofrimento e de resistência simbólica.
Escravidão, doenças e práticas de cura está disponível gratuitamente para download no repositório institucional da Fiocruz, aqui.
