O que você faria se soubesse que o final da sua vida tem data marcada? Essa é a primeira questão a ser tratada logo no primeiro episódio de “Dying for Sex”, a série produzida pelo canal FX em parceria com o Hulu e o Star+ – aba do streaming Disney+ direcionada para conteúdos adultos.
A obra é uma adaptação documental baseada no aclamado podcast homônimo de seis episódios lançado em 2020 pela plataforma Wondery criado por duas amigas inseparáveis: Nikki Boyer e Molly Kochan. Kochan ainda escreveu um memoir antes de sua morte em 2019 chamado “Screw Cancer: Becoming Whole” produzido enquanto ela passava seus últimos meses no hospital em tratamento paliativo.
Com Michelle Williams no papel principal de Molly e Jenny Slate como sua melhor amiga Nikki, a série mistura humor, sexualidade e vulnerabilidade para contar a história real de uma mulher que, ao receber um diagnóstico terminal de câncer de mama, decide explorar sua sexualidade como forma de reconexão com a vida. Recebemos uma complexa mistura de humor, emoção e reflexões profundas, e uma narrativa impactante sobre amizade, sexualidade e a urgência de viver plenamente quando confrontado com uma sentença de morte. Sob direção sensível de Shannon Murphy (“Killing Eve”), a produção busca capturar a essência crua e honesta do podcast original, transformando em imagens aquilo que antes ficava apenas na forma de som e imaginação.
Amizade, sexo e autodescoberta
A obra – em oito episódios curtos de pouco mais de meia hora – conta a história real de Molly Kochan, diagnosticada em 2015 com um câncer de mama metastático. Ao receber a notícia de que sua doença é terminal, Molly decide abandonar seu casamento agonizante de 15 anos com Steve (Jay Duplass) e embarcar em uma jornada de autodescoberta sexual e emocional. Ao lado de sua melhor amiga, Nikki Boyer – que atua como narradora e co-criadora do podcast original, assim como produtora executiva da série -, ela compartilha suas aventuras, encontros e reflexões sobre o que significa viver, amar e sentir prazer, mesmo sabendo que a vida tem prazo curto.
A minissérie documental segue fielmente os principais momentos do podcast original, que recebeu aclamação internacional. A força da obra reside não apenas nas histórias picantes e divertidas que Molly compartilha conosco, mas principalmente na intimidade emocional construída entre as duas amigas. Nikki é o alicerce emocional da narrativa: seu olhar, suas perguntas e seu amor incondicional por Molly tornam a história não apenas sobre sexo, mas sobre vulnerabilidade, aceitação, despedida e, principalmente, nos questionam sobre o significado “alma gêmea”. Seria esse fenômeno possível apenas com uma parceria romântica ou uma amizade também pode ser o grande amor de nossas vidas, assim como o relacionamento mais duradouro?
Elenco, direção e criadores afinados
O roteiro foi adaptado e escrito pelas amigas e parceiras de profissão Elizabeth Meriwether e Kim Rosenstock. Elisabeth e Kim trabalharam juntas em “New Girl” (2011-2018) e “Dying For Sex” é o primeiro trabalho de criação da dupla. A leitura das duas da obra original recebeu o apoio e a “benção” de Nikki Boyer. Já Shannon Murphy, que dirige 6 dos 8 episódios, conduz o projeto com mãos firmes e delicadas, evitando pieguices e sentimentalismo barato, o que deu espaço para que Michelle (Molly) e Jenny (Nikki) contem suas próprias histórias sem filtros.
Michelle Williams é parte da constelação de primeira linha de Hollywood, nomeada para 5 Oscars assim com Emmys e todas as outras grandes premiações do cinema norte-americano, sua Molly evoca personagens de sua carreira como a Jen Lindley de “Dawson’s Creek” (1998-2003) e outras protagonistas com desfechos trágicos e dramáticos, não raros em seu portifólio.
Williams é uma escolha acertada, o papel é feito sob medida para seus talentos. Já Jenny Slate é uma estrela em franca ascensão, mais famosa por emprestar sua voz para personagens como a Tammy da animação adulta “Bob’s Burguers” (2011-), a atriz – que também é escritora – brilha em “Dying for Sex”. Jenny captou perfeitamente a essência alegre, espevitada e, ao mesmo tempo, maternal e leal de Nikki.
Mas o resto do elenco não deixa nada a desejar, temos a veterana Sissy Spacek como Gail, a mãe de Molly, Rob Delaney deliciosamente complexo no papel do “vizinho”, Jay Duplass como Steve, o insuportável (ex)marido de Molly e a atriz trans Esco Jouley que atua de forma sensível e comovente como Sonya a assistente social que apoia Molly em sua jornada.
Estética que abraça a dor e a alegria
Visualmente, “Dying for Sex” aposta em uma fotografia suave, com tons pastel e iluminação difusa, criando uma estética que não dramatiza excessivamente a doença, mas também não a romantiza. As cenas de sexo (e não são poucas) nos impactam mais pela simbologia do que pelo apelo explícito. Vale aqui lembrar que a classificação etária da série é 18 anos.
A produção transita de forma natural entre o melodramático e o sensível ao mais escrachado humor ácido e nos assusta com a falta de “maquiagem” de problemas reais que fazem parte da vida tanto de uma pessoa com câncer terminal quanto de fantasias sexuais que passeiam até mesmo pelo BDSM.
Um fator aqui a ser sublinhado, o choque, foi a técnica utilizada para criar situações cômicas, bizarras e absurdas, em alguns momentos se sobrepondo ao material original. Meriwether e Rosenstock incluíram elementos fictícios, como, por exemplo, o papel do “vizinho” que é, na verdade, um apanhado de vários homens com quem a verdadeira Molly teve encontros, ou alguns “acidentes” que ocorrem com Molly. Paro por aqui para não dar spoilers, mas vale muito ouvir o Podcast original após assistir à série e traçar paralelos e divergências.
“Dying for Sex” traz reflexões sem maquiagem
“Dying for Sex” não é apenas uma série sobre sexo ou sobre câncer. Ao final dos oito episódios, percebemos que é uma história de um grande amor, no caso, entre duas amigas e companheiras de vida. É também o retrabalho de um trauma de infância e da relação com a mãe, o que justifica a escolha de Molly por aventuras sexuais como último objetivo. O sexo nesse contexto é uma simbologia para aquilo que nunca tivemos coragem de fazer e que, quando a vida nos dá um ultimato, resolvemos ir atrás.
É uma obra sobre escolhas, sobre buscar prazer e significado mesmo quando a vida está em contagem regressiva. O que mais impressiona é a autenticidade: não há maquiagem, nem narrativa edificante obrigatória. Molly não busca redenção nem piedade — ela quer rir, amar, curtir e acima de tudo, sentir-se viva até o último momento. Nikki, por sua vez, oferece um contraponto amoroso, uma presença que segura o espaço emocional e nos lembra do valor das amizades verdadeiras.
A estreia no Disney+ marca uma expansão interessante do catálogo da plataforma, que tradicionalmente investe em conteúdo mais familiar. “Dying for Sex” é uma adição ousada e necessária, que oferece ao público uma narrativa real, tocante e profundamente humana.
Por fim, preciso mencionar que “Dying for Sex” é uma minissérie que levanta muitos questionamentos – vida, sexo, feminismo, clichês, tabus e o significado verdadeiro do amor. Não é uma obra de fácil digestão, pois lida com temas que, mesmo em 2025, a grande maioria das pessoas – e principalmente os homens – evita explorar.
O título em si é um jogo com os tabus mais óbvios da sociedade – morte e sexo – já o conteúdo é um manifesto pela vida, pela igualdade nas relações, pela honestidade e pela lealdade. Em 2025, já deveríamos estar um passo adiante disso tudo, mas infelizmente não estamos. A mistificação da nossa natureza e de nossas necessidades – mesmo que fisiológicas – ainda impera. E a função social de “Dying for Sex” está dada: não empurre para o futuro as coisas que precisam ser lidadas hoje. Viva e seja feliz.
