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“Dope Girls”: gangsters, cocaína e mulheres perigosas no coração de Londres

"Dope Girls": gangsters, cocaína e mulheres perigosas no coração de Londres 2

Dope Grils estreou no streaming no dia 28 de julho. Foto: divulgação,

A primeira temporada da nova série da BBC que está disponível na plataforma HBO Max no Brasil é ambientada eu uma caótica Londres do pós-Primeira Guerra Mundial – uma cidade paralisada pelo luto das perdas humanas e agitada pela comemoração aparentemente interminável do retorno à vida dos que ficaram. Dope Girls revive, portanto, uma parte pouco explorada da história britânica: a ascensão do crime (mais ou menos organizado) comandado por mulheres em meio ao caos social, à efervescência dos clubes noturnos e à disseminação do consumo de drogas como a cocaína.  A obra é inspirada no livro homônimo Dope Girls: The

Birth of the British Drug Underground (1992), do autor Marek Kohn, nos arrasta direto para o submundo do Soho dos anos 1920, onde mães, dançarinas e criminosas compartilham o mesmo palco — literal e figurativamente — da modernidade britânica em precária (re)construção.

O império do vício e da sobrevivência

Kate Galloway (Julianne Nicholson) é uma viúva das sequelas da guerra tentando sobreviver em uma Londres devastada pelo luto e pela fome. Sem dinheiro, sem perspectivas e com uma filha adolescente chamada Eve, interpretada por Eilidh Fisher, ela transforma uma simples loja abandonada em uma espécie de cabaré ilegal, que quase imediatamente se transforma em um ponto de encontro para soldados traumatizados, dançarinas ousadas, jovens viciados e figuras do submundo londrino. Sua personagem é livremente inspirada em Kate Meyrick, uma figura real conhecida como a “Rainha da Noite” do Soho da época. Mas Dope Girls não se interessa apenas pelo glamour ou pelo crime: seu foco é o que uma mulher precisa sacrificar para sobreviver e proteger os seus em um mundo onde tudo é hostil (e mortal) ao feminino.

Billie (Umi Myers), é a filha mais velha – e abandonada em um orfanato na infância – de Kate, que com as circunstâncias de uma reaproximação forçada com a mãe se torna vítima e cúmplice dessa nova vida e seus percalços. Jovem, bela, talentosa e inquieta, ela dança e canta nos clubes, mas também flerta perigosamente com o lado mais sombrio da noite personificado pela cocaína. Eliza Scanlen completa o trio central de protagonistas femininas como Violet, uma policial sem muita ética que disfarçada de dançarina se infiltra no cabaré com a intenção de desmantelar o novo grupo e que, no final, acaba por encontrar mais espelhos do que prisões em seu caminho. Com personagens femininas ricas em nuances, a série se diferencia de outros dramas históricos ao colocar as mulheres complexas como agentes centrais do enredo e não apenas como meras coadjuvantes ou interesses amorosos dos personagens masculinos.

A Londres sob névoa e neon

Dirigida por Shannon Murphy de Killing Eve (2018) e Miranda Bowen de Women in Love (2011), Dope Girls tem produção da Bad Wolf, responsável por sucessos como His Dark Materials (2019). Filmada em estúdios no País de Gales e com um orçamento de 20 milhões de libras, a série entrega uma estética refinada que combina o realismo sujo e insalubre dos becos londrinos com uma linguagem visual moderna cheia de sobreposições gráficas que informam o espectador sobre crimes, assassinatos e vícios; cenas oníricas e recursos estilizados — como asas de anjo sujas de sangue — que marcam a série com um tom quase lisérgico e inebriante.

Essa abordagem visual nos lembra mais a série juvenil Euphoria (2019) do que a requintada Downton Abbey (2010), e posiciona Dope Girls como uma narrativa semi-histórica que se recusa a ser contemplativa e inofensiva. Tudo aqui é imediato, pulsante, instável — como deveria ser ao retratar um período de colapso social e reinvenção moral. A paleta de cores brinca com o dourado e o brilho dos salões e o cinza sujo do concreto, enquanto a trilha sonora mescla jazz com batidas modernas, criando uma sensação de tempo embaralhado, como se os anos 1920 fossem hoje – uma tendência já não tão nova na sonorização atual.

Entre Peaky Blinders e A Thousand Blows

É impossível assistir a Dope Girls sem lembrar de outras produções históricas britânicas recentes. Comparada a Peaky Blinders (2013), a série da BBC tem menos testosterona e mais tragédia íntima. Se Tommy Shelby constrói um império com base na guerra e no poder masculino, Kate Galloway tenta montar um lar num ambiente que não lhe oferece nada além de abandono e da misoginia. A violência aqui é mais emocional e psicológica do que física — embora não faltem armas, mortes e ameaças. Já com a mais recente A Thousand Blows (2025) – série ambientada na Londres vitoriana e centrada em imigrantes e boxeadores de rua – Dope Girls compartilha o olhar marginal, a crítica social e o interesse pelas contradições entre luta e pertencimento.

Mas o que torna Dope Girls especial, a meu ver, é sua disposição em desromantizar a figura da mulher “forte”. As personagens não são heroínas nem mártires. São sobreviventes e não meros agentes passivos das atitudes masculinas. São mães, filhas, policiais, traficantes, prostitutas e artistas. E às vezes são tudo isso ao mesmo tempo, sem o mínimo interesse em angariar nossa simpatia ou buscar redenção. A série nos mostra como o empoderamento feminino pode vir por vias tortas — especialmente quando as vias retas estão todas bloqueadas pelas circunstâncias históricas do momento.

Escolhas narrativas

Recebida com entusiasmo moderado pela crítica, Dope Girls não escapa de questionamentos. Alguns apontam que a série, apesar da estética ousada, hesita em levar seus conflitos até as últimas consequências. Outros notam o ritmo irregular e uma certa superficialidade em figuras secundárias — especialmente os antagonistas masculinos, que soam às vezes caricatos.  Porém, ainda que com falhas, o trio de protagonistas femininas sustenta de forma consistente a narrativa, entregando uma força emocional e uma presença de tela inquestionáveis.

Dope Girls também se permite mais liberdade ficcional do que outras adaptações históricas. Seu objetivo não é documentar, mas evocar um sentimento de época: a instabilidade, o desespero e a libertação possível (ainda que breve) para aquelas que decidiram viver à margem dos preceitos sociais considerados aceitáveis pelos cidadãos “de bem”.

Uma memória que brilha e sangra

Ao final dos seis episódios, a sensação que nos fica é ambígua — e esse é exatamente o objetivo. Não há uma redenção plena dos personagens. Não há vitória total do bem sobre o mal. Há sobrevivência e resiliência. Dope Girls é uma série sobre perdas: de inocência, de moral e principalmente de controle. Mas também é uma série sobre conquistas — ainda que pequenas, ainda que subterrâneas. Uma mulher dançando com sangue nos sapatos também é uma forma de resistência ao status quo.

Com uma direção segura, atuações consistentes e uma proposta estética inovadora, Dope Girls se impõe como um dos dramas históricos mais interessantes da TV britânica atualmente.  A obra pode não ter o peso político de Say Nothing (2024) ou o culto popular desencadeado por Peaky Blinders (ainda), mas tem algo ainda mais raro: coragem para contar a história do crime pelas vozes que normalmente eram silenciadas e apagadas dos registros históricos.

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