Agora, após o primeiro turno das eleições brasileiras de 2026, acho que talvez seja um bom momento para olhar para algumas histórias que, de maneiras muito diferentes, imaginam sociedades nas quais escolhas, desejos e pensamentos podem deixar de ser realmente livres.
Cinema e plataformas de streaming criaram algumas das distopias mais inquietantes justamente para imaginarmos o que acontece quando muitas liberdades começam a desaparecer. As obras que selecionei apresentam mundos dominados pelo medo, pela censura, pelo conformismo ou pela necessidade de seguir regras que ninguém mais se importa em questionar.
Na sua maioria, são histórias de ficção — infelizmente, algumas são reais — que carregam perguntas bastante relevantes sobre nossas escolhas, nossa capacidade de discordar e o valor de poder decidir nossos próprios caminhos. Em tempos não tão iluminados, talvez seja interessante revisitar essas obras para lembrar algo que nos parece muito simples: que o direito de escolher, pensar diferente e participar das decisões que afetam nossas vidas não deve ser tratado como algo banal e descartável. Vamos a elas.
1. O Conto da Aia (2017) — Hulu / Disney+
A série Conto da Aia talvez seja uma das representações mais perturbadoras de como direitos femininos e humanos básicos podem desaparecer gradualmente. Em resumo, na série vemos um regime teocrático que transforma mulheres em propriedades do Estado, restringe sua autonomia e utiliza a religião como instrumento de dominação e medo. O mais assustador aqui não me parece estar apenas na violência, mas na maneira como o absurdo passa a ser banalizado e incorporado à rotina. A obra, baseada no livro homônimo de Margaret Atwood, nos alerta para o perigo da normalização da opressão e para a facilidade com que conquistas sociais podem ser desmontadas quando deixamos de questioná-las.
2. Narcos (2015) — Netflix
Já a série Narcos nos apresenta uma ameaça um pouco diferente: a corrupção das instituições pelo poder econômico e pela violência. A série, que teve nosso querido Wagner Moura como protagonista em algumas temporadas, mostra como o narcotráfico consegue penetrar na política, comprar autoridades, intimidar cidadãos e transformar o medo em instrumento de poder. Com base na história real do crime organizado colombiano, Narcos é mais do que apenas uma história policial sobre drogas — a produção revela o impacto devastador que ocorre quando interesses criminosos passam a disputar espaço com as instituições públicas reconhecidas e legais. A mensagem é a de que, quando a lei perde força e o dinheiro compra influência, toda a sociedade acaba pagando o preço.
3. Fahrenheit 451 (2018) — HBO Max
Nessa versão cinematográfica de Ramin Bahrani do clássico da literatura distópica, os livros são proibidos porque representam a memória, o conhecimento, a capacidade de questionamento e crítica humana. O Estado evolui para uma situação em que não precisa apenas controlar comportamentos: precisa limitar aquilo que as pessoas podem conhecer e imaginar para proteger sua função dominadora. Vemos a destruição dos livros simbolizar, portanto, o apagamento da memória coletiva e do conhecimento livre. A obra, baseada no livro de Ray Bradbury, também provoca uma reflexão incômoda: a de que uma sociedade pode perder o pensamento crítico não somente pela censura, mas quando seus próprios cidadãos deixam de ter interesse em compreender o mundo ao seu redor.
4. 1984 (1984) — Apple TV / Prime Video / Claro TV
Acho que o filme 1984 — aquele lançado em 1984 mesmo, do diretor Michael Radford – talvez seja uma das representações mais completas do poder absoluto. O Estado vigia os cidadãos, manipula informações, altera a linguagem e interfere até mesmo na percepção da realidade. O conceito de duplipensar mostra como um regime absolutista pode obrigar as pessoas a aceitarem simultaneamente ideias que são claramente contraditórias. A obra prima de George Orwell nos mostra que controlar o passado significa controlar também a maneira como o presente é compreendido. Em 1984, memória, informação e pensamento independente tornam-se formas essenciais da resistência humana contra um regime totalitário.
5. Nuremberg (2025) — Prime Video / Google Play / Apple TV / Claro TV
Aqui indico o filme, relativamente novo, de 2025, do diretor James Vanderbilt. Trata-se de um drama histórico e suspense psicológico que se propõe a nos mostrar os bastidores do julgamento mais famoso da história moderna. Diante da necessidade de responsabilizar aqueles que utilizaram o poder para cometer crimes contra a humanidade, a comunidade internacional colocou em julgamento na cidade de Nuremberg, na Alemanha, os principais líderes nazistas e os cabeças de operação do regime capturados com vida. Nesse contexto, um psicólogo é incumbido da tarefa ingrata de analisar a saúde mental e a personalidade desses indivíduos. Apesar de se concentrar mais em embates com o líder do partido nazista Göring, o filme nos passa a mensagem de como o mal pode ser banalizado e naturalizado, e que frequentemente a maldade não está atrelada à loucura, mas ao poder de manipulação e distorção dos fatos.
6. Silo (2023) — Apple TV
A série Silo — que ainda está em andamento na plataforma Apple TV+ – nos apresenta uma sociedade construída sobre o segredo. Seus habitantes vivem isolados do mundo exterior e recebem apenas as informações consideradas convenientes pelas autoridades. A segurança é apresentada como justificativa para inúmeras restrições, enquanto a curiosidade se transforma em ameaça. Podemos até dizer que a obra é uma espécie de releitura moderna da Alegoria da Caverna de Platão. Com isso, a série levanta uma questão extremamente atual: o quanto estamos dispostos a renunciar de nossa autonomia quando alguém promete nos proteger? Temos aqui a ignorância como sendo condição primordial para se obter felicidade e harmonia. A ausência uniforme de informação e o fomento do medo podem ser tão poderosos quanto a força física para manter uma população obediente.
7 – A Onda (2008) — Claro TV
Já o filme alemão A Onda, do diretor Dennis Gansel, nos demonstra como o autoritarismo pode surgir de maneira surpreendentemente rápida dentro de um grupo aparentemente comum. Em uma escola, um experimento, guiado por um professor, começa fomentando disciplina e organização, mas rapidamente evolui para uniformidade, exclusão e intolerância. Aqui a obra desmonta a ideia confortável de que sociedades modernas estariam naturalmente imunes ao fascismo e suas consequências na sociedade. Ele nos mostra que a necessidade de pertencimento pode levar indivíduos a abandonar o pensamento crítico em troca da sensação de fazer parte de algo maior ou de ser acolhido por uma comunidade.
8. Brave New World (2020) — Peacock
Baseada no livro clássico de Aldous Huxley, “Brave New World”, essa série nos apresenta um mecanismo de dominação diferente: em vez de recorrer constantemente à violência, o sistema vigente seduz oferecendo prazer, consumo e satisfação permanente. Desde o nascimento, os indivíduos são condicionados a aceitar seu lugar social e a se alienar daquilo que está fora dos seus limites estabelecidos. A obra apresenta uma pergunta que considero particularmente inquietante: e se as pessoas não precisassem ser obrigadas porque já foram ensinadas a não desejar outra realidade? Aqui acho a mensagem uma das mais perigosas e silenciosas: a liberdade perdida não apenas via sofrimento e violência, mas também pelo excesso de conformismo da maioria.
9. Brazil (1985) — Prime Video / Claro TV
O filme Brazil, uma obra cult de Terry Gilliam, transforma a burocracia em um pesadelo surreal. Vemos formulários, departamentos, máquinas e procedimentos criando uma verdadeira estrutura kafkaesca que, de tão complexa, torna o indivíduo praticamente invisível diante dela. Por trás de um humor absurdo existe uma crítica clara à desumanização causada por instituições que deixam de servir às pessoas e existem somente para satisfazer e preservar a si mesmas. Aqui o filme nos lembra que regras e sistemas, quando não são acompanhados de responsabilidade e humanidade, acabam produzindo injustiças tão absurdas quanto perigosas.
10. A Lagosta (2015) — Amazon / Google Play / Apple TV
No longa-metragem A Lagosta, somos induzidos à ideia de conformidade social ao extremo. Em sua realidade distópica, pessoas solteiras são obrigadas a encontrar um parceiro dentro de um determinado prazo, sob pena de uma punição extrema. Como em “Brazil”, o filme do excêntrico Yorgos Lanthimos utiliza o absurdo como instrumento lúdico para questionar a pressão social pela padronização dos comportamentos e das escolhas pessoais. Aqui a pergunta que permanece parece simples, mas é profunda: até onde estamos dispostos a renunciar à nossa individualidade para sermos aceitos?
Imagino que, vistas em conjunto, essas dez obras apresentem diferentes caminhos para a perda da autonomia, liberdade e democracia: a censura, a manipulação da informação, a corrupção, o medo, a violência, o conformismo, a burocracia e até mesmo o conforto e a abundância. Para mim, nenhuma delas fala apenas sobre um futuro distante ou sobre sociedades completamente diferentes da nossa.
Todas partem de comportamentos humanos reconhecíveis e mostram como pequenas concessões podem abrir espaço para consequências muito maiores — o que infelizmente já vemos e vivemos. É justamente por isso que penso que preservar instituições, manter uma memória histórica, fomentar a liberdade de pensamento, a diversidade de povos e opiniões, direitos individuais e responsabilização do poder nunca podem ser tratados como algo sempre garantido. A história demonstra que conquistas podem ser perdidas. Lembrar disso é, talvez, uma das formas mais importantes de pelo menos tentar impedir que os mesmos erros se repitam.
