Kathryn Bigelow já garantiu seu lugar cativo na História do Cinema ao se tornar a primeira mulher vencedora do Oscar de Melhor Direção, surpreendentes 80 anos após a origem da premiação. Alguém poderia dizer, com boa margem de acerto, que ela se destaca por fazer filmes que não condizem com o que o senso comum pensa que são filmes feitos por mulheres. Em geral, Bigelow gosta de colocar o dedo na ferida das fraquezas do imperialismo norte-americano e seu mais novo filme mais uma vez faz isso em grande estilo.
Contrastando com o frio que faz lá fora, o clima do lado de dentro de uma base de detecção de mísseis no Alasca é ameno e agradável. Tudo tranquilo também na Sala de Crise da Casa Branca, apesar dos muitos protocolos de segurança que, para quem trabalha lá, já é algo corriqueiro. Mas a tranquilidade não durará muito.
De repente, aparece nos monitores um míssil de origem não identificada. Em dezenove minutos, ele com certeza atingirá Chicago, massacrando a população da cidade. A primeira tentativa de neutralizar o míssil falha e a partir de então os nervos de todos os envolvidos, autoridades ou não, ficam à flor da pele. É uma situação de pânico generalizado.
Para além de suas funções na linha de frente da segurança, os personagens têm vida privada. Olivia Walker (Rebecca Ferguson) é uma funcionária durona, mas está com o filho doente em casa sendo levado pelo marido, alheio ao perigo, para uma consulta médica. Billy Davis (Malachi Beasley), trabalhando ao lado de Olivia, planeja pedir a namorada em casamento naquela noite. No Alasca, Danny Gonzalez (Anthony Ramos) se desespera com o contra-ataque que falhou. Em Washington, Cathy Rogers (Moses Ingram) é uma das poucas pessoas designadas para evacuação. No meio de todos eles, funcionários e familiares confusos, embasbacados e cheios de perguntas.
Poderia acontecer de o filme seguir a linha temporal exata, como acontece em outros filmes como o clássico “Matar ou Morrer”, de 1952. Seria então um míssil com impacto previsto dentro de uma hora e cinquenta minutos, mas não é isso que ocorre. Quando o míssil está prestes a atingir Chicago, temos um corte e somos apresentados a novos personagens, também presentes na chamada de vídeo de emergência e que serão muito mais que simples “background”. A partir dali, as narrativas concêntricas apresentam pontos de tangência e frases se repetem, com menor efeito de gerar ansiedade.
Questão de escolha(s)
É uma decisão diplomática do roteiro o míssil ser de origem desconhecida, para não apontar inimigos e, pior, se indispor com algum país. Sim, citam Teerã no Irã, Pyongyang na Coreia do Norte, Vladivostok na Rússia, Tel Aviv em Israel, até mesmo a sigla da República Popular da China. Na vida real, como diz um militar no filme, um ataque anônimo causaria o caos. No audiovisual, é um floreio acertado.
Também é uma escolha não mostrar por mais da metade do filme o rosto do presidente dos Estados Unidos, porque o impacto é maior quando ele finalmente aparece. E ele é Idris Elba, um homem negro como Barack Obama, e um homem como todos os outros presidentes na História dos EUA. Um ator ultracarismárico, Elba impõe respeito, abre sorrisos e já foi até cotado para viver James Bond.
Os termos técnicos, que são muitos, são explicados na tela com a expansão das siglas. De qualquer modo, exigiram pesquisa dos tradutores e aparecem em abundância apenas no primeiro terço do filme. Dividido em três atos, mas não nos três atos comuns na narrativa audiovisual, em determinado momento o truque cansa, pois como já dito, cada nova repetição causa menos emoção que a anterior.
Um tema para debate levantado pela narrativa seria como escolher quem deve ser evacuado e deixar para trás quem pode morrer. Um personagem garante que prefere encarar dez milhões de mortes se isso significar que não haverá uma guerra em seguida. São decisões muito difíceis, e nunca se sabe quando – ou o mais importante, por quem – terão de ser tomadas.
É curioso que a especialista em crise Ana Park (Greta Lee) esteja em seu dia de folga quando tudo acontece vendo com o filho exatamente uma reconstituição da Batalha de Gettysburg, uma das mais mortais da Guerra Civil Americana. O filme fala sobre “parar uma bala com outra bala”, algo muito improvável, mas que, reza a lenda, aconteceu em Gettysburg. A obsessão com sangue e morte está no DNA dos Estados Unidos como nação, haja vista a popularidade destas reconstituições.
Com maestria e foco certeiro, Kathryn Bigelow sempre questionou o status quo e fez filmes diversos mas sempre contundentes. “Casa de Dinamite” é mais um de seus acertos. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades – e talvez os Estados Unidos já não estejam mais à altura do poder que detêm.
