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“Alucinação”: uma minissérie cartográfica do cantor Belchior

"Alucinação": uma minissérie cartográfica do cantor Belchior 1

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi, literalmente, um dos maiores nomes da nossa música, exercendo com excelência as funções de compositor, letrista e intérprete. Foto: divulgação.

Ele quase foi padre. Ele quase foi médico. Mas seguiu outros rumos. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi, literalmente, um dos principais nomes da nossa música, exercendo com excelência as funções de compositor, letrista e intérprete. E um dia, ele sumiu.

Um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior, que conquistou o país inteiro. Em 2012, foi eleito uma das 100 Maiores Vozes da Música Popular Brasileira pela revista Rolling Stone. Clamaram por sua volta, nunca deixaram de cantar suas canções. Escrevo na terceira pessoa, mas me incluo entre quem ouve Belchior. E, para nós, fãs, foi feita sob medida a minissérie “Alucinação” do Canal Brasil.

O papel principal é dividido entre Caian Zattar e Luiz Carlos Vasconcelos, que também alternam entre si as cenas que acontecem a partir dos anos 60 para o jovem Belchior e nos anos 2000 para o Belchior maduro.

Em cenas fictícias, o jovem Belchior conhece seus ídolos e parceiros de criação, entre eles Luiz Gonzaga, que lhe conta um causo de família, Carlos Drummond de Andrade, que lhe recita um poema, Vinicius de Moraes, que lhe faz de confidente, e Elis Regina, que se tornou intérprete de um par de seus sucessos.

A minissérie foi baseada na biografia escrita por Jotabê Medeiros e recebeu o nome “Alucinação” em alusão ao álbum de 1976 que consolidou Belchior na cena musical brasileira. Eduardo Albergaria ficou responsável pela produção, roteiro, montagem e direção da minissérie. Albergaria e o produtor Leonardo Edde estiveram por trás da cinebiografia de Claudinho e Buchecha, o filme “Nosso Sonho” de 2023.

Desvendando um enigma


Cada episódio começa com trechos de entrevistas de Belchior, deixando-o falar sobre si mesmo e sua arte, para depois surgir uma cartela de texto declarando que o Brasil não entendeu quando o artista escolheu se calar e se isolar. A verdade é que, se tivesse tido uma carreira comum, cheia de altos e baixos, Belchior já estaria entre os grandes da nossa música. Mas sua reclusão nos últimos anos o alçou ao status de lenda. E uma lenda gera interesse.

Belchior e Edna (Isabela Garcia) fogem para o Uruguai, numa imitação de fuga de Bonnie e Clyde, dupla de assaltantes cuja cinebiografia de 1967 eles veem num quarto de hotel. Ele dirige tratores, debulha milho e vai passando de hotel em hotel, mas o simples dedilhar de um violão o leva às lágrimas, não se sabe se saudoso ou arrependido de sua vida pregressa.

Algumas situações fictícias se alongam e pouco acrescentam. No último episódio, por exemplo, quando se esperava que as narrativas estivessem sendo amarradas, há duas meditações da infância de Belchior, uma sobre a morte e uma sobre a relação entre física e música, que não fazem avançar a trama. Mas isso se explica: o objetivo da minissérie nunca foi montar uma linha do tempo, mas sim um mosaico. É, pois, não uma minissérie biográfica, mas cartográfica: constrói um mapa, mas deixa lacunas para nós, exploradores.

Outras cenas, e mesmo estas supracitadas, servem como “easter eggs”, aquelas referências marotas salpicadas aqui e ali em filmes e séries para agradar ao fandom e que, quando percebidas e compreendidas, geram um sorriso satisfeito. Os “easter eggs” da minissérie de Belchior dizem respeito às letras de músicas, porque curiosamente nenhum dos atores que interpretam o músico canta em cena.

Em 2022 foi feito o documentário “Belchior: Apenas um Coração Selvagem”, um amálgama de entrevistas que deixam o próprio objeto de interesse falar sobre si, sem se ater a uma cronologia engessada. É um complemento perfeito para a minissérie.

Em entrevista, Belchior disse que não buscava a fama, mas sim a glória, no sentido de ter feito algo que impactou a arte. Disse também que o Brasil não deve temer seus ídolos. Hoje, ídolo que deixou um legado glorioso, continua sendo assunto de interesse generalizado. Já não podemos pedir mais “volta, Belchior”. Talvez porque, como sua música, ele nunca tenha ido embora.

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