Enea tem 30 anos, é belo e rico. Com seu amigo Valentino – piloto recém-licenciado que passa seus dias sobrevoando uma Roma decadente -, vive de festas, tráfico de cocaína e participa de um submundo que gira em torno de ostentação, beleza e juventude. Atrás dessa máscara social, Enea e seus amigos enfrentam a melancolia familiar e uma busca insana por significado em suas vidas. A ruptura desse mundo ilusório e brilhante acaba por dar início a um desfecho de consequências reais para os protagonistas e suas famílias.
Direção, roteiro e produção
Pietro Castellitto é um novo prodígio do cinema independente italiano, atuando como diretor, roteirista, criador, produtor e ator. Ele ataca em todos os fronts. A ideia da criação independente continua firme no meio cinematográfico, e se fortifica cada vez mais ao encontrar em produtoras de diretores famosos o apoio necessário para tirar o projeto do papel. No caso de Pietro, esse patrono é ninguém menos que o festejado Luca Guadagnino famoso por obras como Call Me by Your Name (2017), Suspiria (2018), Challengers (2024) e mais recentemente o filme Queer (2024) com Daniel Craig no papel principal.
Após ter seu debut na direção com o longa I predatori (2020), Pietro, que atua como ator desde menino, seguindo a profissão de seu pai, o consagrado Sergio Castellitto, se aventurou de novo na tarefa complexa de assumir o roteiro, atuar e dirigir em Enea. O título em português A Odisséia de Enéias que faz apologia a duas grandes obras, uma grega (A Odisséia de Homer) e outra romana (Eneida de Virgílio) não revela necessariamente a trajetória do personagem criado por Castellitto, além de colocar uma pressão no conteúdo que não foi sugerida pelo título original.
A narrativa é simples, mas complexa, sem grandes atos de coragem ou uma trajetória modelo do herói. O roteiro é recheado de momentos em que personagens abastados demonstram suas fraquezas e suas frustrações de forma bastante direta e desprovida de emoção. A futilidade tem um papel central em diversos momentos.
Os personagens
Começamos a lista pelo protagonista Enea (Pietro Castellitto), um filho jovem e entediado de família rica que busca intensidade e perigo para sentir o mundo. Se por um lado ele nos passa angústia por meio de silêncios e monólogos, por outro carece de profundidade emocional e tem um excesso de segredo em torno de seus objetivos.
A ideia é observarmos a passagem de um jovem privilegiado e entediado a alguém envolvido em crimes e conflitos familiares, revelando seu vazio emocional e contradições. Já seu melhor amigo e companheiro de desventuras Valentino (Giorgio Quarzo Guarascio) aparenta ser muito seguro de si – o que seus vários números cantando no filme e os vôos como piloto reforçam– e emocionalmente contido. Valentino seria uma espécie de contraponto silencioso a Enea.
A amizade deles é o eixo do filme. Valentino e Enea compartilham risco e juventude, mas enquanto Enea busca a sensação, Valentino parece reprimir sentimentos — o que parece ser o cerne das atuações. O pai de Enea (e de Pietro na realidade) Sergio Castellitto interpreta um psicanalista melancólico e chefe de família. Ele lida com uma atividade oculta que o leva periodicamente a um hotel e tem claramente um profundo tédio existencial. Sua frieza parece ser compatível com a de Enea. A atuação de Sérgio merece destaque no núcleo das famílias.
Já os papeis femininos são muito mais periféricos e parecem trazer muito pouco para o enredo, por exemplo, a mãe de Enea, vivida por Chiara Noschese, parece habitar um mundo descolado da realidade de seus filhos, e a namorada Eve, interpretada pela extremamente bela atriz Benedetta Porcaroli, parece existir apenas como um arm candy de Enea, reforçando a participação meramente decorativa das mulheres no roteiro de Pietro.
Estilo, estética e narrativa
A cinematografia de Radek Ladczuk conhecido por The Babadook (2014) cria uma atmosfera visualmente cara com profusão de luzes fortes, longos planos-sequência e ângulos extremos, buscando representar um suposto turbilhão emocional dos personagens. Somos bombardeados com frequentes quadros da riqueza romana, como festas em castelos e clubes exclusivos. O filme já foi descrito como sendo um “gangster movie sem gangsters”, isso é, o crime aqui é mais uma “atividade” no cotidiano dos protagonistas do que o foco principal da narrativa.
A estética representando a sociedade romana lembra em momentos a do diretor Paolo Sorrentino como em Il Divo (2008) ou na série The Young Pope (2016), mas o risco de A Odisséia de Enéias não é em nenhum momento a falta de poesia ou a monotonia estética, mas sim a apatia que habita seus personagens o que muitas vezes atrapalha o entendimento de suas intenções e ações.
Sem sombra de dúvida, o envolvimento de Guadagnino dá uma necessária importância ao projeto. Por meio de sua produtora Frenesy Film Company, Luca apoiou incondicionalmente a visão ousada de Pietro Castellitto e garantiu o interesse internacional, a qualidade técnica e o destaque em festivais. Nisso, que poderia ser taxado de vaidade estética, encontra sua função nos silêncios. A perda do ritmo da narrativa na segunda parte do filme também é amenizada pelo conjunto e sua essência. Algumas cenas desnecessárias ou entrecortadas também passam sem grandes incômodos.
Em um somatório geral, A Odisséia de Enéias é um longa que vale ser visto, apesar de ser uma obra híbrida – ora visualmente impactante com boas performances, ora alienada por sua estética inflamada e narrativa dispersa. No final, recebemos um reflexo cru e estilizado da juventude privilegiada italiana, escrito, dirigido e protagonizado pelo jovem Pietro Castellitto e certamente beneficiado pelo selo curador de Luca Guadagnino.
A Odisséia de Enéias estreia nas salas de cinema brasileiras em 19 de junho. Leia mais críticas do Café História aqui.
