Após o sucesso da adaptação de “Frankenstein” para o cinema em 1931 — que não foi de maneira nenhuma a primeira adaptação — os estúdios Universal resolveram explorar os monstros e todos os aspectos de sua vida pessoal. Assim surgiu “A Noiva de Frankenstein”. Depois de adaptar com sucesso o livro de Elena Ferrante para as telas, Maggie Gyllenhaal decidiu que seu novo projeto seria sobre a noiva de Frankenstein, mas nada de remakes: era hora de um novo olhar para a história de alguém que um dia foi só uma companheira silenciosa.
Em 1936, a Criatura do Dr. Frankenstein (Christian Bale), já com mais de um século de vida, vai a Chicago pedir ao Dr. Euphronious para ressuscitar uma companheira para que ele possa experimentar prazeres carnais. Lá, Frank descobre que o doutor é uma doutora, Cornelia Euphronious (Annette Bening), que de início não está a fim de bancar a cientista maluca. Mas ela acaba mudando de ideia.
O cadáver que a dupla desenterra é o de Ida (Jessica Buckley), uma mulher assombrada pelo fantasma de Mary Shelley, jovem escritora que, aos 18 anos, escreveu “Frankenstein” para pagar uma aposta. Mas eles não sabem sobre essa assombração. E também não poderiam vislumbrar que a Noiva ressuscitada seria bem mais assertiva e independente que a maioria das mulheres da época — “sassy” é a palavra exata aqui, mas difícil de traduzir.
Após um encontro romântico no cinema, Frank e sua noiva vão a uma festa. Na saída, dois homens tentam violentar a noiva e Frank os mata em legítima defesa. Fugitivos e com pelo menos dois mortos em suas costas, Frank e a Noiva passam a ser caçados pela detetive, ou melhor, secretária do detetive Jake, Myrna Malloy (Penélope Cruz).
A rebeldia da noiva inspira outras mulheres, que se maquiam como ela para fazer justiça com as próprias mãos. É a revolução feminista cujo estopim Mary Shelley não conseguiu dar. Mais que isso: é a revolução feminista cujo estopim a mãe de Mary Shelley, a pensadora Mary Wollstonecraft, não conseguiu dar porque morreu de complicações no parto da única filha.
Por todo o filme paira uma pergunta: a quem pertence o corpo da noiva? A quem prefere que ela esteja morta? A Frank, cuja demanda a ressuscitou? A resposta feminista nós já sabemos: o corpo de uma mulher, mesmo morta-viva, pertence única e exclusivamente a ela, para fazer o que quiser com ele.
Ecos dos anos 30
A maior diversão de Frank, que acaba sendo adotada pela Noiva, é ir ao cinema ver musicais de um artista fictício, Ronnie Reed, interpretado por Jake Gyllenhaal, irmão da diretora. É uma clara alusão aos musicais de Fred Astaire, superastro nos anos 1930, e há ainda uma sequência que faz referência aos balés acrobáticos do coreógrafo Busby Berkeley. O nome da detetive, Myrna Malloy, pode ser uma menção a Myrna Loy, que naquela época fazia parte do casal de detetives do cinema Nick e Nora Charles. Além disso, os nomes de algumas estrelas do período são citados, como Marlene Dietrich e Ginger Rogers.
Na sequência de abertura, quando Ida é possuída pelo espírito de Mary Shelley, ela se indispõe com um homem chamado Lupino. Junte nome e sobrenome e você tem Ida Lupino, atriz de origem britânica que se tornou a única mulher diretora na Hollywood dos anos 50.
A sequência com a cabeça da noiva presa numa cúpula de vidro é retirada do filme de 1935, que conta com apenas 71 minutos de duração e efeitos especiais excelentes, principalmente ao lidar com miniaturas. Neste filme, apesar de feita com os mesmos elementos, a Noiva, interpretada por Elsa Lanchester, repudia a Criatura por achá-la grotesca demais.
Muito do que aparece em “A Noiva!” jamais poderia ser mostrado num filme de 1935, e não é porque o cinema era mais rudimentar. O problema era a censura. Desde 1934, o chamado Código Hays estava em vigor, proibindo diversas manifestações no cinema, incluindo personagens abertamente LGBT, cenas de sexo e parto e casais multirraciais. Uma cabeça destroçada e dois mortos-vivos transando jamais teriam passado pela censura. Mesmo assim, a Noiva do filme de 1935 pode ser considerada um ícone queer e há muitas teorias sobre um subtexto LGBT no clássico.
Por fim, as sequências de dança de “A Noiva!”, muito bem coreografadas, pretendem ser uma homenagem a uma Era de Ouro dos musicais, mas ao explorar o cinema de horror e fantasia, esses momentos se aproximam mais das sequências dançantes do seriado “Wandinha” da Netflix ou, pior, do filme “Coringa 2”. Bem, não se pode ganhar todas, não é?
Voltando ao cinema contemporâneo, vale a pena lembrar que Guillermo del Toro realizou seu sonho de adaptar “Frankenstein” para o cinema no ano passado, num filme da Netflix que ganhou três Oscars em categorias técnicas, de Maquiagem, Desenho de Produção e Figurino. A história de Mary Shelley e seus desdobramentos continuam interessando aos cineastas, mais de dois séculos após sua publicação. Como a Criatura, quando menos esperamos, o interesse pela história renasce das cinzas.
