Ícone do site Café História

“A Longa Marcha”: quando a distopia encontra a brutalidade adolescente e o espetáculo

"A Longa Marcha": quando a distopia encontra a brutalidade adolescente e o espetáculo 2

"A Longa Marcha": O elenco é um ponto forte. Foto: divulgação.

The Long Walk, em português, A Longa Marcha, chega em 2025 como um soco na nossa cara. O romance escrito por Stephen King em 1979 (ainda sob o pseudônimo Richard Bachman) ganha pela primeira vez uma versão cinematográfica e mantém o tom bastante sombrio: cinquenta adolescentes marcham sem parar, vigiados por militares, até que reste apenas um vencedor. Não há volta, não há piedade. Cada erro pode significar a morte.

O filme, que estreou nos cinemas brasileiros no dia 18 de setembro, tem orçamento de “apenas” 20 milhões de dólares e não é mero entretenimento: é tensão, é desgaste, é um espetáculo sangrento e não raramente escatológico.

E aqui, pessoalmente, já adianto: considero esse o maior mérito da obra. Ela não tenta suavizar nem romantizar a violência que se propõe. Mas também mora aí seu risco: quem não estiver preparado para acompanhar duas horas de degradação física e psicológica pode simplesmente desistir antes do final.

Do livro para a tela

O livro homônimo de King é marcado pelo ritmo obsessivo da caminhada e pelo mergulho na mente do protagonista Ray Garraty. No cinema, Lawrence e o roteirista J.T. Mollner precisaram transformar introspecção em ação e acho que conseguiram: a monotonia vira suspense e a espera vira angústia. Mas também mudam coisas essenciais. Por exemplo, no livro, são cem competidores percorrendo as estradas do Estado norte-americano do Maine, com velocidade mínima de 4 milhas por hora (6,4 km/h).

No filme, são cinquenta rapazes, em uma paisagem árida filmada no Canadá, a um ritmo de 3 milhas por hora (4,8km/h). Mais do que detalhes técnicos, isso foi feito de forma consciente e balizada por King – que teve papel central na produção e palavra final na edição e cortes. As alterações serviram para aumentar a credibilidade das ações e buscar conhecer melhor os personagens no limitado tempo de um longa-metragem. E a maior diferença está no desfecho, mas não trarei esse spoiler aqui, é preciso passar por essa experiência em uma sala de cinema.

Personagens sob a sombra do Major

O elenco é um ponto forte. Cooper Hoffman – filho do falecido ator Philip Seymour Hoffman e já conhecido pelo seu trabalho em Licorice Pizza (2021) – carrega Garraty com sutileza: não é um herói clássico, é um garoto em desmoronamento constante, cheio de dúvidas, mágoas, medos e incertezas. David Jonsson (Alien: Romulus/2024), como McVries, injeta energia, esperança e teimosia, tornando o vínculo entre os dois a coluna emocional durante toda a narrativa.

Mas o filme é cheio de atores jovens e talentosos nos papéis coadjuvantes dos companheiros de caminhada, como Garrett Wareing (Stebbins), Tut Nyuot (Art Baker), Ben Wang (Olsen) e Charlie Plummer (Barkovitch). O veterano Mark Hamill – nosso eterno Luke Skywalker – no papel do Major, é o retrato do poder impessoal e cruel: ele não grita o tempo todo e não surta — apenas observa, instiga com discursos pseudopatriotas e ordena mortes como quem trata de burocracias.

Há ainda a atriz Judy Greer (Eric LaRue/2023), em participação breve, mas memorável, como a mãe de Garraty, reforçando o drama familiar que o roteiro decidiu explorar em vez de usar a namorada Jan, bem presente no livro.

Estética, roteiro e escolhas de direção

Francis Lawrence, já veterano em distopias graças à franquia Jogos Vorazes, encara The Long Walk/A Longa Marcha como aquilo que é: uma maratona de horror a céu aberto. Não há concessões, não há filtros, a crueza da direção nos choca com o realismo. Em entrevistas, o diretor foi categórico: o filme precisava ser violento, intenso e triste — só assim seria fiel ao espírito do romance de Stephen King. E essa escolha se reflete em cada cena.

Já o roteirista J.T. Mollner, por sua vez, assume riscos maiores. Ele não se limita a traduzir o texto original, mas redesenha boa parte dele: comprime arcos, muda motivações, inventa um fio de vingança ligado ao pai de Garraty e entrega um desfecho muito mais fechado que o do livro. O desafio aqui foi transformar a lenta corrosão psicológica do romance em imagens de cinema capazes de segurar o público.

O resultado é eficaz em termos de ritmo, mas inevitavelmente renuncia à ambiguidade que marca o livro de King. Temos pelas mãos hábeis de Mollner um roteiro que amalgama todos os fatos e experiências do texto original, e, ao mesmo tempo, traz o mundo de 1979 de King – que alega ter usado a guerra no Vietnã como inspiração – para questões atuais como preconceitos, dilemas e comportamentos dos jovens de vinte (e poucos) anos.

A fotografia de Jo Willems talvez seja o segundo maior triunfo da produção após o roteiro. As estradas são infinitas, as cidades vazias e as cores dessaturadas reforçam a monotonia e o cansaço de uma lenta tortura física e emocional. Não há beleza plástica, mas uma sensação constante de isolamento, de repetição sufocante, de pura exaustão. É uma estética que gruda na pele, como o suor dos personagens. Nos aspectos técnicos, o conjunto funciona como engrenagem bem azeitada.

A montagem de Mark Yoshikawa impõe uma cadência implacável: andar, dor, aviso, tiro, morte, repetir. A trilha de Jeremiah Fraites insinua-se sem invadir, emprestando melancolia e tensão. Já o design de produção de Nicholas Lepage, aliado às locações em Manitoba, no Canadá, cria um mundo árido e hostil, onde até o horizonte parece conspirar contra os caminhantes e a neblina os sufoca.

Uma obra necessária

O filme carrega consigo uma tradição: a de adaptar um livro de King dos anos 70, marcado pela crítica à violência como entretenimento e pela obsessão com regimes autoritários. Em tempos de reality shows extremos e debates sobre espetacularização da dor e levantes autoritários, The Long Walk/ A Longa Marcha não poderia ser mais atual. É claro que existe o risco de a adaptação ser lida por parte do público como apenas mais um filme de sobrevivência, perdendo o tom mais de crise existencial da obra original. Mas Francis Lawrence, ao manter a violência seca e ao se recusar a buscar um filme para todas as idades, garante que a crítica permaneça sempre em primeiro plano.

Para mim, o grande trunfo aqui é a coragem de não suavizar. As mortes são diretas e gráficas, a jornada é cansativa e o desconforto é constante. Saímos exaustos da sessão e com a cabeça cheia de reflexões que irão perdurar por dias ou semanas.

Nesse aspecto, The Long Walk/A Longa Marcha se destaca como uma das adaptações mais sérias e densas de King. É uma ferida aberta (e infeccionada), um espetáculo cruel e denúncia de uma sociedade distópica que transforma jovens em entretenimento descartável como gladiadores num coliseu. E nos lembra: não há como fingir que esse impulso não existe — a violência como show é real, e ignorá-la também é uma forma de violência. O autoritarismo está sempre espiando pela fresta da porta, aguardando uma chance para colocá-la abaixo e tomar para si o poder. E, no momento, norte-americanos definitivamente precisam, ainda mais do que nós, brasileiros, de filmes como esse. O timing do lançamento foi perfeito.

Sair da versão mobile