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A Idade Média que as mulheres viveram

A Idade Média que as mulheres viveram 1

"Mudando a letra", José Southall (1861–1944). Imagem: Birmingham Museums Trust.

“Não estou reescrevendo a história. Uso os mesmos fatos, números, eventos e evidências aos quais sempre tivemos acesso, combinados com avanços e descobertas recentes. A diferença é que estou mudando o foco. Agora são os personagens femininos, em vez dos masculinos, que estão enquadrados. Ambos atuam nas narrativas, e só podemos compreender verdadeiramente uns em relação aos outros. […] Abordar o passado por meio das vidas e histórias de mulheres nos oferece um prisma único, através do qual é possível encontrar perspectivas inovadoras e ignoradas.”

Quem fala é a historiadora Janina Ramirez, que acaba de publicar no Brasil, pelo Crítica, da editora Planeta, o livro “Feminina”, que revisita o período medieval europeu para resgatar relevantes figuras femininas que moldaram o período e foram apagadas. Segundo Peter Frankopan, autor do livro “O coração do mundo”, “Femina é uma história revolucionária da Idade Média”.

O livro combina investigação histórica com descobertas recentes para mostrar que o período medieval não foi tão uniforme e patriarcal como se costuma imaginar. O livro mostra como, ao longo dos séculos, copistas, cronistas e guardiões da memória oficial adulteraram ou eliminaram documentos, anotando “femina” ao lado de nomes femininos que deveriam desaparecer da narrativa dominante. Ramirez defende que essa escolha moldou como entendemos o passado — e que recuperar essas vozes pode trazer perspectivas mais ricas para o presente.

Ramirez, especialista em História da Arte pela Universidade de Oxford e com longa carreira na TV britânica, mergulhou em manuscritos, lendas e ossadas reexaminadas para trazer de volta à luz personagens como Jadwiga, a única rainha mulher da Europa; Hildegarda de Bingen, polímata e grande sábia medieval; Margery Kempe, que usou a própria imagem para ganhar notoriedade; e até uma guerreira viking de Birka, cujo esqueleto foi durante anos erroneamente classificado como masculino.

Primeiro lançamento de Janina Ramirez pelo selo Crítica, o livro reforça a proposta da marca: unir rigor acadêmico e escrita acessível. Lançado na Espanha em 1976 e presente no Brasil desde 2016, o Crítica publica nomes como Mary Beard, Niall Ferguson e Carlos Fico. Femina soma-se a esse catálogo como uma obra que instiga leitores e leitoras a imaginar uma Idade Média mais complexa — e, acima de tudo, mais justa com suas protagonistas esquecidas.

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