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“A Garota Canhota”: imersão numa cultura e numa família

"A Garota Canhota": imersão numa cultura e numa família 1

I-Jing (Nina Ye), 'A Garota Canhota' (Netflix).

Uma das categorias que vêm sendo, nos últimos anos, mais recompensadoras de se acompanhar no Oscar é a de Melhor Filme Internacional. Não apenas os cinco indicados são grandes filmes, mas os pré-selecionados, presentes numa “shortlist” divulgada em dezembro, em geral também são filmes da maior qualidade. A lista veio com ótimas recomendações novamente em 2026, como o filme taiwanês “A Garota Canhota”.

Uma família formada por três mulheres está prestes a começar uma vida nova em Taipei. A mãe, Shu-Fen (Janel Tsai), aluga uma barraca de macarrão num mercado noturno de variedades. A filha mais velha, I-Ann (Shih Yuan Ma), largou os estudos e trabalha numa loja de nozes-de-areca. A menina I-Jing (Nina Ye) começa numa escola nova e apavora o avô por comer com a mão esquerda. Outro vendedor no mercado noturno que faz amizade com as três mulheres é Johnny (Brando Huang), que vende todo tipo de bugiganga.

Quando descobre que o pai de I-Ann está internado em estado grave num hospital local, Shu-Fen vai visitá-lo. I-Ann repete a visita, mas só para se assegurar de que ele está realmente mal. Logo depois, ele falece e elas herdam a única coisa que ele deixou: um suricato.

Um vislumbre de uma terra “exótica”

Filmes servem para muitas coisas, e também para aprender. Um filme como “A Garota Canhota” nos fornece um vislumbre de como funciona a cultura taiwanesa, que pode ser considerada “exótica” – com muitas aspas – para nossa mente colonizada por um viés eurocêntrico. Mas vejamos o que aprendemos com o filme.

Com dificuldades financeiras, Shu-Fen pede ajuda para a mãe, que a nega porque a filha já casou e com o casamento virou problema de outrem. A irmã relembra que o próprio apartamento onde os pais moram é do irmão delas, a quem a mãe com certeza ajudaria independente das circunstâncias, dispara Shu-Fen. A lei taiwanesa sempre beneficiou o patriarcado, mas desde finais dos anos 90 novas leis vêm garantindo mais igualdade entre homens e mulheres.

Deixada sob os cuidados do avô, I-Jing ouve dele que a mão esquerda é do diabo e que ela não deve mais usá-la. Diz ainda que no passado canhotos eram espancados e enforcados. No passado, vírgula: um estudo de 2007 da Universidade de Taiwan revelou que quase 60% das crianças canhotas no país foram “adestradas” para agir como destras.

Hoje, com objetos de design diferenciado como as tesouras específicas, os canhotos não sofrem tanto, mas têm sua desvantagem: conforme sempre gostei de mencionar para meu melhor amigo canhoto, eles vivem em média nove anos a menos que os destros.
Quando falamos no curioso animal chamado suricato, logo nos lembramos de sua versão animada: o personagem Timão de “O Rei Leão”. O pequeno mangusto é encontrado no sudoeste da África e pode ser facilmente domesticado e mantido como mascote para controle de pragas como roedores. Mas tê-lo como bicho de estimação não é o ideal: impedido de cumprir com as obrigações enquanto um animal que vive em bando pode levar o bichinho a sofrimento e stress profundos.

As nozes-de-areca são psicoativos naturais muito consumidos em Taiwan, apesar dos efeitos colaterais. Levando seu usuário da euforia ao relaxamento, alguns problemas relacionados ao seu consumo por humanos incluem diminuição do ritmo cardíaco e aumento do volume de líquido no pulmão. Na veterinária, as nozes têm efeitos sobre os intestinos dos animais, aliviando cólicas e eliminando tênias. Pesquisas encontraram resíduos de noz-de-areca nas arcadas dentárias de humanos que viveram há quatro mil anos.

“A Garota Canhota” foi co-escrito e editado por Sean Baker, que fez uma limpa no último Oscar com seu filme “Anora”, também vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Ele ganhou notoriedade no cenário do cinema independente com “Tangerine” (2015), filmado num iPhone, técnica que se repete aqui. Ancorada pela experiência de Baker, a diretora Shih-Ching Tsou faz aqui sua estreia solo na direção.

O filme chega a um clímax muito bem construído na festa de aniversário da matriarca, quando um segredo chocante é revelado. Mesmo assim, temos um final feliz. Prova de que os segredos são melhores revelados, doa a quem doer? Talvez.

Mesmo que nunca tenhamos pisado em Taiwan ou frequentado um mercado noturno, mergulhamos no drama familiar e nos surpreendemos junto àqueles personagens. É a magia do cinema em sua mais pura forma.

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