Café História https://www.cafehistoria.com.br Desde 2008 Mon, 07 Oct 2019 22:40:28 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=5.2.3 https://www.cafehistoria.com.br/wp-content/uploads/2017/01/cropped-Mini-icone-1-32x32.jpg Café História https://www.cafehistoria.com.br 32 32 121430900 A Revolução Francesa dos historiadores: os trabalhos que formaram o nosso conhecimento sobre o tema https://www.cafehistoria.com.br/historiografia-da-revolucao-francesa/ https://www.cafehistoria.com.br/historiografia-da-revolucao-francesa/#comments Mon, 07 Oct 2019 18:04:36 +0000 https://www.cafehistoria.com.br/?p=8610 A historiografia da Revolução Francesa é tão antiga quanto a própria revolução. As abordagens ao longo da história foram profundamente marcadas por contextos sociais, econômicos e políticos. Confira o artigo do historiador Daniel Gomes de Carvalho, professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB) e do canal do YouTube "Se liga nessa História".

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A historiografia da Revolução Francesa é tão antiga quanto a própria revolução. As abordagens ao longo da história foram profundamente marcadas por contextos sociais, econômicos e políticos.

Por Daniel Gomes de Carvalho

A Revolução Francesa foi um processo revolucionário que, na interpretação clássica, entende-se de 1789 a 1799, e foi caracterizado por suas várias reviravoltas, golpes de Estado e períodos distintos. Assim como o próprio movimento revolucionário, também são díspares e controversas as avaliações que são feitas sobre a Revolução, que recebeu diversas alcunhas: “esplêndida aurora” (Georg Wilhelm Friedrich Hegel), “equivalente aos mitos e epopeias da Grécia antiga” (Thomas Carlyle), “a maior catástrofe que caiu sobre a raça humana” (Goldwin Smith), “mãe de todos nós” (Albert Soboul) ou “centro estratégico da história moderna” (Alfred Cobban).

François Furet diz que os trabalhos dos historiadores (historiografia) são tão conflitivos e complexos quanto os próprios acontecimentos que marcaram a Revolução: “seu desenvolvimento é comparável ao desenvolvimento da própria Revolução: atravessada de contradições e de batalhas espetaculares, como se o caráter teatral do evento tivesse sido legado a seus historiadores, única parte não dividida de uma herança conflituosa.”[1]

Ocorre que a Revolução Francesa teve a sorte de possuir grandes historiadores, que foram capazes de imputar aos acontecimentos interpretações que perduraram por décadas. Contudo, apesar das divergências, parece existir um consenso, ainda que tácito, entre os estudiosos da Revolução: ela foi um “caos político”. Mas entenda-se caos não como desordem, mas no sentido que a mitologia grega atribuiu à palavra: um caos criador e criativo, que reformulou a linguagem política e deu o tom, com fortes doses de ineditismo, ao debate político contemporâneo. Conservadorismo e progressismo, ditadura revolucionária e império das leis, partilha da propriedade e imposto progressivo, liberalismo conservador e democrático, moderação e moderantismo, dentre várias outras categorias do debate político contemporâneo, estavam presentes no calor dos acontecimentos franceses.

Assassinato de Marat - Revolução Francesa.
O assassinato de Jean-Paul Marat por um simpatizante dos girondinos,  Charlotte Corday, no dia 13 de julho de 1793. Tela de Jean-Joseph Weerts (1847-1927). Wikipédia.

Essa fertilidade dos fatos revolucionários fez a Revolução Francesa ter sido especialmente permeável aos acontecimentos políticos dos últimos séculos: ora para o bem, ora para o mal, os acontecimentos revolucionários têm sido frequentemente revistos à luz das grandes guerras, do stalinismo, da crise do socialismo real e, mais recentemente, das novas demandas igualitárias, das propostas de uma historia “global” e mesmo dos direitos dos animais[2].

Neste artigo, meu objetivo é mapear e explicar o desenvolvimento da chamada “historiografia clássica “da Revolução Francesa, isto é, os principais autores e obras que marcaram o nosso conhecimento sobre o tema. Para isso, o artigo será divido em cinco fases: 1) A Revolução por seus testemunhos (1790-1820); 2) Hegemonia Democrático-Liberal e Socialista (1820-1856); 3) Hegemonia Conservadora (1856-1885); 4) A Institucionalização da Revolução e a Hegemonia Jacobina (1885-1964); 5) Hegemonia Revisionista-Liberal (1964 -1989).[3]

Da década de 1990 até hoje, a historiografia da Revolução Francesa tem vivido uma nova “fase”, marcada por novos objetos, novos autores, novas abordagens e novas interpretações. Mas essa sexta fase historiográfica será objeto de uma bibliografia comentada, a ser publicada em breve aqui no Café História.

A Revolução por seus testemunhos (1790-1820)

A Revolução Francesa foi um movimento que, de forma impressionante, historiou-se a si mesma. No mundo britânico, foram feitas as primeiras reflexões de impacto sobre os processos revolucionários. Dentre os vários testemunhos e intérpretes da Revolução, é preciso destacar a obra-prima do irlandês Edmund Burke (1729-1797), Reflexões sobre a Revolução em França, publicada em 1790.

Burke pretendeu mostrar que entre a Revolução Inglesa e a Revolução Francesa havia não uma diferença de grau, mas de natureza: enquanto aquela resgatava os direitos tradicionais britânicos, esta fazia tábua rasa de toda as tradições gestadas com sabedoria há séculos, destruindo a comunidade humana e tornando os homens nada mais que “moscas de verão”.

Outro nome de destaque no período é o do britânico Thomas Paine (1737-1809), já célebre pelo seu Common Sense (1776), elaborou a mais conhecida resposta à Burke com o livro Os Direitos do Homem (1791-1792), uma defesa em alto tom da Revolução. Burke, para ele, criou um “Adão Político”, de modo que a defesa da tradição significaria que a comunidade dos mortos deveria governar os vivos – e os vivos, argumenta Paine, têm o direito a reinventar-se.

Hegemonia Democrático-Liberal e Socialista (1820-1856)

No século XIX, os grandes historiadores foram autodidatas ou futuros homens de política, e não historiadores formados em universidades francesas – para muitos deles, a história é, abertamente, uma arma política. Os fatos, além disso, pareciam imitar a história da Revolução, como disse o próprio Karl Marx em suas célebres passagens no 18 Brumário de Luís Bonaparte. Na França, terminada a chamada Era Napoleônica, em 1814-1815, o ciclo revolucionário se repetiu. Assim como 1789 derrubou a monarquia Bourbon de Luís XVI, a Revolução de 1830 derrubou o regime autoritário de Carlos X; assim como 1793 alçou os jacobinos e seu discurso de democracia social ao poder, a Revolução de 1848, acrescentando a “fraternidade” à “liberdade e igualdade”, derrubou o regime “burguês” de Luís Felipe de Orléans; o golpe de Estado de Luís Bonaparte, em 1851, finalmente, mimetiza o golpe do tio Napoleão.

A historiografia liberal do período apoia-se na publicação póstuma (1818) de Madame de Staël (1766-1817), Considerações sobre a Revolução Francesa. Em defesa da Revolução contra uma historiografia contrarrevolucionária, a filha de Jacques Necker, o encarregado da economia na França de Luís XVI, esforçou-se por desvincular Revolução e jacobinismo. Para ela a Revolução Francesa teve um caráter dual: os valores de 1789, análogos aos da Inglaterra livre, não poderiam ser confundidos com as “distorções jacobinas”.

Adolphe Thiers (1797-1877), Francois-Auguste-Marie-Alexis Mignet (1796-1884) e François Guizot (1787-1874), expoentes da escola histórica da Restauração, engajados em resgatar os valores revolucionários contra Carlos X, viam o Terror não como uma “falsa Revolução”, mas como uma necessidade história, gestada, infelizmente, pelos próprios excessos da monarquia e da aristocracia. Contudo, encerrado o regime de Carlos X, e instaurado o regime “burguês” de Luís Felipe de Orléans, a historiografia revolucionária conheceu um novo giro.

Em 1829, a publicação do livro de Philippe Buonarroti (1761-1837), Conspiration de Babeuf (1829), alimentou uma nova visão da Revolução Francesa, o qual capta e enfatiza seu aspecto radical e “antiburguês.” Radicais e socialistas das décadas de 1830 e 1840, assim, passaram a enxergar na igualdade defendida pelos jacobinos uma maneira de mobilizar as massas contra a burguesia – por isso, Robespierre passa a ser valorizado, por exemplo, por pelo socialista católico Philippe Joseph Benjamin Buchez (1796-1865) e pelo líder cartista Bronterre O’Brien (1804-1864),

Em 1847, apareceram duas obras que resumem o espírito de 1848: as Histórias da Revolução Francesa, do socialista moderado Louis Blanc (1811-1882), e a História dos Girondinos de Alphonse de Lamartine (1790-1869), expoentes da historiografia romântica. Nenhuma delas, contudo, é comparável à História da Revolução Francesa de Jules Michelet (1798-1874), livro mais importante de toda a historiografia da Revolução Francesa. Ele rejeita, a um só tempo, o fatalismo de Mignet, o socialismo de Blanc e Buchez e as concepções monárquicas e aristocráticas vigentes do período, da mesma forma exalta 1789 contra a violência jacobina de 1793 e não hesita em dizer: “eu não teria sido jacobino.”

Hegemonia Conservadora (1856-1885)

Após a Revolução de 1848, a ascensão de Luís Bonaparte é um golpe fatal para a historiografia romântica que esperava ver na Revolução de 1830 uma realização da liberdade. A historiografia, então, conheceu uma nova transformação.

Dentre as várias obras críticas da Revolução Francesa (Thierry, Montégut, Rémusat) gestadas nesse momento, é a de Alexis de Tocqueville (1805-1859), O Antigo Regime e a Revolução (1856), a mais original e mais significativa dentro da mentalidade liberal. A obra é verdadeiramente paradigmática, sendo a primeira a dar densidade ao conceito de Antigo Regime e ao de Pré-Revolução. Modelo ímpar de análise sociológica, Tocqueville depreende-se da ótica dos fatos e testemunhos para mostrar a centralização como herança da Revolução Francesa – entre o Antigo Regime e a Revolução, por isso, havia mais continuidades do que se poderia supor.

À desmistificação da Revolução Francesa segue-se a desmistificação de Maximilien de Robespierre, bem como a promoção de Georges Jacques Danton, feita por nomes como Eugène Despois (1818-1876) e Alfred Bougeart (1815-1882). O duplo choque da derrota na Guerra Franco-Prussiana (guerra que termina com a derrota da França e vitória da Alemanha, agora unificada) e da Comuna de Paris, em 1871, vieram a acentuar o pessimismo da historiografia liberal, como faz Ernest Renan (1823-1892), autor de La Réforme intelectuelle et morale, 1871), ao relacionar o Terror e a Comuna.

Alex de Tocqueville, um dos principais historiadores da Revolução Francesa.

O célebre filósofo liberal oerleanista, Hippolyte Taine (1823-1893), em Origines de la France contemporaine, reforçou essa crítica. Para ele, a ideia puramente “filosófica” de um homem abstrato, anterior à história, que guiaria os homens revolucionários, estaria na fonte de muitos de seus delírios. Antítese do espírito romântico, para Taine a natureza humana é má e o povo com sua escória um monstro em potência, de maneira que a arte do bom governo consiste em refrear os instintos dessa fera social.

A institucionalização da Revolução e a Hegemonia Jacobina (1885-1964)

Na década de 1880, já afastado Napoleão III e derrotada a Comuna de Paris, os republicanos assumiram a direção da França, e a historiografia da Revolução Francesa conheceu um novo giro. A chamada Terceira República (1870-1940) institucionalizou a Revolução: os novos programas escolares difundem os Direitos do Homem e a Tomada da Bastilha torna-se Dia Nacional da República Francesa.

Em 1885, criou-se a cadeira de História da Revolução Francesa na Sorbonne. Alphonse Aulard (1849-1928), jornalista e membro do partido radical, foi, por mais de 40 anos, o titular dessa cadeira. Republicano e sob impacto do pensamento positivista, exaltava a Revolução como progressista e certa, ao passo que o jacobinismo teria sido fruto das circunstâncias criadas pelo rei e pela aristocracia.

Se Aulard, assim, representava uma tentativa de institucionalização da Revolução, duas histórias erguem-se contra ele. Augustin Cochin (1876-1916), autor de a Crise de l’histoire révolutionnaire, Taine et M. Aulard, publicado em1909, utilizando-se dos métodos sociológicos modernos, mostra uma revolução que não é fruto nem de uma conspiração, nem das circunstâncias, mas da tirania impessoal das “sociedades de pensamento”, que manipulam e enganam o verdadeiro povo.

Com impacto mais efetivo que Cochin, Jean Jaurés (1859-1914), em sua História Socialista da Revolução Francesa, tornou-se o primeiro expoente do que depois será a historiografia jacobina: entre a Revolução Francesa de ontem e a revolução socialista de amanhã há uma filiação direta e positiva. Modelo de tomada de poder por uma classe, a Revolução Francesa é um ensinamento vivo para classe operária. Robespierre, volta ao centro dessa história: “estou com Robespierre e é a seu lado que vou me sentar entre os jacobinos”, diz, em oposição à Michelet. As reformas sociais dos jacobinos, nesse sentido, eram mais democráticas que o voto censitário dos grupos girondinos.

Georges Lefebvre (1874-1959) assumiu em 1937 a cátedra de Revolução Francesa e tornou-se, o principal historiador do assunto na primeira metade do século XX. Ele, a um só tempo, demonstrou a venalidade de Danton e desmentiu o “socialismo” dos robespierristas, os quais nunca se opuseram à propriedade privada. Com Lefebvre, que cunhou o termo “história vinda de baixo”, a tradição socialista enraizou-se na academia – a Revolução Francesa é como produto do conflito entre as forças de produção capitalista e as antigas relações sociais de origem feudal, em suma, entre nobreza e burguesia, nesse momento ainda aliada ao povo. Embora burguesa em seu sentido maior, dentro da Revolução Francesa estariam contidas várias outras revoluções (nobiliárquica, camponesa e das camadas urbanas).

A hegemonia desta visão jacobina sobre a Revolução Francesa foi tamanha que comemoração do sesquicentenário (150 anos) foi vista pelos mais conservadores como obra de “ateus e comunistas”. O governo de Vichy simpático ao fascismo, queimou todos os exemplares do 1789 de G. Lefebvre, e o Instituto de Internacional de História da Revolução Francesa se transferiu para os Estados Unidos durante a 2ª Guerra Mundial.

A tradição de G. Lefebvre foi perpetuada na França por Albert Soboul (1914-1982). Sua narrativa na História da Revolução Francesa[4]de 1984 , obra póstuma, é até hoje reproduzida de forma quase idêntica nos livros didáticos de ensino médio e fundamental no Brasil.  Na Inglaterra, tal visão foi sustentada por Richard Cobb (1917-1996) e George Rudé (1910-1993) e, na Itália, por Armando Saitta (1919-1991). Após a morte de Soboul, a cátedra da Sorbonne de Revolução Francesa é ocupada pelo ex-comunista Michel Vovelle (1933-2018), cuja pesquisa, original e altamente relevante, se concentrou no campo da história cultural ou das “mentalidades”.

Hegemonia Revisionista-Liberal (1964 -1989)

Na década de 1950 foi lançada uma obra que, nem revisionista, nem marxista, teria impacto imenso na historiografia em finais do século XX e início do século XXI: The Age of Democratic Revolution: A Political History of Europe and America, 1760-1800, de Robert Roswell Palmer (1909-2002), derivada de seus trabalhos com outro historiador, Jacques Godechot (1907-1989).

Para ele, as Revoluções Americana e Francesa possuem mais semelhanças do que diferenças, de modo que seus motivos centrais também estavam presentes na Grã-Bretanha, Irlanda, Holanda, Bélgica, Suíça, Alemanha, Hungria, Polônia, Itália, Espanha e Rússia.

A obra opunha-se tanto a uma historiografia nacionalista, que negava o caráter revolucionário da Independência das Treze Colônias (futuro Estados Unidos), quanto a uma historiografia marxista que reduzia o período revolucionário a uma “etapa” burguesa. Trata-se de um levante internacional fundamental para a construção das sociedades democráticas, e não mera antessala do socialismo. Por muito tempo, Palmer foi visto como um apologista da OTAN. Contudo, terminada a Guerra Fria, as noções de uma Revolução Transatlântica foram retomadas, de forma que as ideias essenciais da pesquisa de Palmer nunca foram tão estudadas quanto na atualidade.

Mas o debate na segunda metade do século XX foi dominado pela disputa entre marxistas e revisionistas, e a visão de Palmer – seu livro, infelizmente, não foi traduzido para o português ou para o francês – levaria mais algumas décadas para se impor. Duas obras, lançadas pouco depois do primeiro volume de Palmer, representam o tom do debate do período.

Em primeiro lugar, On Revolution (1961), de Hannah Arendt (1906-1975), exemplo mais radical de separação entre as Revoluções Norte-americana e Francesa. Para a autora, na Revolução Norte-americana, buscava-se a liberdade, isto é, participação nas coisas públicas, ao passo que na Revolução Francesa surgiu a noção de libertação, isto é, de que a Revolução e o Estado devem nos alforriar da necessidade. Segundo ela, quando a política é regida pela necessidade abre-se caminho para a tirania: “pode ser mais obsoleto do que a tentativa de libertar a humanidade da pobreza por meios políticos; nada pode ser mais inútil e perigoso”[5].

Em segundo lugar, Eric Hobsbawm (1917-2012) lançou o clássico A Era das Revoluções (1962), no qual, embora em perspectiva distinta à Arendt, enfatizava também a excepcionalidade da Revolução Francesa, vista por ele de forma muito semelhante a Lefebvre. Sem negar a importância fundamental do livro, é notória a desqualificação do levante das 13 Colônias (atuais Estados Unidos), completamente excluído de seu clássico conceito de “dupla revolução”, qual seja, de que a Revolução Francesa teria sido determinante para moldar a política contemporânea, ao passo que a Revolução Industrial inglesa teria sido sua base econômica.

François Furet: historiador referência entre os chamados “revisionistas” da Revolução Francesa.

Mas, não obstante a força da obra de Arendt, a alcunha de “pai do revisionismo” deve-se ao historiador britânico Alfred Cobban (1901-1968), The social interpretation of French Revolution, de 1964, seguido, principalmente, por Denis Richet (1927-1989) e François Furet (1927-1997), autor de A Revolução Francesa.

O revisionismo critica essencialmente a ideia de que a Revolução Francesa foi uma revolução social necessária ou “burguesa”, um passo inevitável no desenvolvimento histórico da sociedade moderna e a transferência de poder de uma classe para outra. A Revolução é, sobretudo, um fenômeno político-ideológico, um discurso a ser desconstruído.

O argumento revisionista é baseado em quaro pilares: 1. A teoria da elite: no final do Antigo Regime francês, mais do que luta de classes entre burguesia e nobreza, o que predominava era uma integração crescente entre ambas, a ponto de constituírem uma única elite de notáveis ilustrados. O conflito não era de classes, mas entre sociedade e Estado; 2. A derrapagem da Revolução: dada a crescente disfuncionalidade do Estado e sua incapacidade em se reformar, a elite recorre à Revolução (política, que é a primeira Revolução), mas com a entrada em cena das massas, a revolução vai sofrer uma derrapagem, um acidente de percurso, isto é, vai escapar ao controle dos notáveis. 3. O arcaísmo e o inconsciente sexual dos sans-culottes: as massas populares urbanas trouxeram à cena política sentimentos e comportamentos arcaicos, passadistas e violentos, alguns de origem sexual. 4. Não há unidade do processo revolucionário mas três revoluções, de forma que só a primeira (liberal e democrática) anuncia a sociedade do amanhã[6].

No contexto de crise do “socialismo real”, entre os anos 1970 e 1990, o revisionismo ganhou espaço. No segundo centenário da Revolução Francesa, foram escritos mais textos contra a Revolução do que a seu favor. Furet tornou-se nas palavras do, The Economist (24/12/88), o “rei do bicentenário”.                                            

A vivacidade da revolução francesa

Walter Benjamin nos disse que “a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de ‘agoras’.” A historiografia da Revolução Francesa, de forma bastante peculiar, sempre serviu aos mais diversos “agoras”, e também, claro, soube servir-se deles. Nos últimos trinta anos, como veremos na parte II deste artigo, não foi diferente. Tocqueville, por isso, continua tendo razão quando diz: “As grandes revoluções que são bem sucedidas (…) chegam a ser incompreensíveis justamente pelo seu sucesso.”

Notas

[1] FURET, François La gauche et la révolution au milieu du XIX siècle. Edgar Quinet et la question du Jacobinisme 1865-1870. Editora Hachette, Paris, 1986, p.7.

[2] Por exemplo, SERNA, Pierre, Comme des bêtes. Histoire politique de l’animal en Révolution (1750-1840), Paris, Fayard, 2017.

[3] Quando é utilizado o termo hegemonia (de hégémon, que designa liderança), não se pretende falar em totalidade, mas tão somente de predominância, levando em conta a circulação dos textos nos meios acadêmicos e educacionais. Cada uma dessas fases serão explicadas do ponto de vista histórico.

[4] SOBOUL, Albert.A Revolução Francesa. São Paulo: Difel, 2003.

[5] ARENDT, Hannah. Da Revolução.Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988, p. 90.

[6] FLORENZANO, M. ; Os Pes-De-Barro do Revisionismo. Novos Estudos, v. 47, p. 211-217, 1997.

Referências Bibliográficas

ARENDT, Hannah. Da Revolução.Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988.

FLORENZANO, M. ; Os Pes-De-Barro do Revisionismo. Novos Estudos, v. 47, p. 211-217, 1997.

FURET, François La gauche et la révolution au milieu du XIX siècle. Edgar Quinet et la question du Jacobinisme 1865-1870. Editora Hachette, Paris, 1986.

SERNA, Pierre, Comme des bêtes. Histoire politique de l’animal en Révolution (1750-1840), Paris, Fayard, 2017.

SOBOUL, Albert.A Revolução Francesa. São Paulo: Difel, 2003.

Daniel Gomes de Carvalho é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Professor do departamento de História da Universidade de Brasília (UnB) e atua na divulgação do conhecimento de humanidades para o grande público no canal Se Liga Nessa História.

Como citar este artigo

CARVALHO, Daniel Gomes de. A Revolução Francesa dos historiadores: os trabalhos que formaram o nosso conhecimento sobre o tema (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/historiografia-da-revolucao-francesa/. Publicado em: 6 out. 2019.

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Uma das justificativas das forças aliadas era a de que a melhor estratégia para salvar os judeus seria vencer a guerra. Auxílio aos internados em campos de concentração e guetos veio basicamente da resistência. 

Por Bruno Leal Pastor de Carvalho

Desde os primeiros momentos da Segunda Guerra Mundial, sabia-se, com mais ou menos precisão, da perseguição e morte de judeus na Alemanha e em seus territórios ocupados. Essas informações vinham de agentes secretos, testemunhas oculares, oficiais do exército, membros da resistência polonesa e até mesmo de soldados alemães que voltavam para a casa de licença e conversavam com amigos e parentes. Muito antes do fim da guerra, portanto, já se tinha notícias do desaparecimento de comunidades judaicas inteiras na Europa. O problema é que nem todos acreditavam nessas histórias. 

Os relatos eram tão bárbaros, tão inacreditáveis, que países como Inglaterra e França custaram a acreditar neles, achando que essas narrativas não passavam de propaganda de guerra ou que eram histórias exageradas que os países ocupados pelos nazistas contavam a fim de receber maior atenção. Isso só começou a mudar quando a Alemanha invadiu os territórios soviéticos, em meados de 1941. A partir daí, a escala da violência foi tão clara e tão a céu aberto, que não era mais possível ignorar que havia algo errado. 

Mesmo assim, muito pouco foi feito para aliviar o sofrimento daqueles que viviam em guetos e campos de concentração e extermínio. Há três explicações básicas para isso. Em primeiro lugar, as forças aliadas não consideravam a libertação de prisioneiros civis um objetivo de guerra. Enquanto houvesse guerra e enquanto esta ainda não fosse vencida pelos aliados, a prioridade das tropas era lutar contra o Eixo no campo de batalha, efetivo militar contra efetivo militar, devendo a ajuda aos civis ser feita por membros da resistência, o que até acabou acontecendo, mas de forma muito limitada.

Holocausto - por que não salvar os judeus
Os três campos principais no complexo de Auschwitz na fotografia de 26 de junho de 1944. A foto foi feita por uma missão de reconhecimento fotográfico aliada (Comissão nº 60PR / 522). Podemos ver também a fábrica do IG Farben, a zona industrial próxima ao Campo I, o conjunto de Oswiecim. Foto: Yad Vashem.

Em segundo lugar, muitas das autoridades aliadas temiam que ações contra guetos e campos de concentração pudessem gerar algum tipo de retaliação por parte da Alemanha, em posse da qual estavam milhares de soldados aliados presos em campos de prisioneiros de guerra. Caso algo acontecesse com esses homens, o apoio da opinião pública ao esforço de guerra poderia ser seriamente comprometido. 

Em terceiro lugar, alegava-se uma dificuldade logística: os guetos, em geral, ficavam em áreas muito populosas, próximas de grandes cidades, muito bem guardadas militarmente, ao passo que muitos campos de concentração, instalados no interior, eram também de difícil acesso e com o caminho até lá muito bem protegido, já que serviam, em vários casos, a produção industrial, por meio do fornecimento de mão-de-obra. Para chegar até esses “alvos”, os aliados teriam que empregar armamento pesado e desviar parte das tropas e recursos para locais que não eram considerados estratégicos. 

Não se deve ignorar ainda o antissemitismo presente no meio social e também na própria estrutura de Estado. Segundo a historiadora Deborah Lipstadt, “os judeus eram sempre vistos como uma ameaça ao bem-estar dos Estados Unidos maior do que a de qualquer outro grupo nacional, religioso ou racial”. Pesquisas de opinião pública realizadas na época confirmam essa percepção. Segundo sublinha Michael Marrus, “em junho de 1944, com a França prestes a ser libertada, 44% dos americanos ainda consideravam os judeus uma ameaça, ao passo que apenas 6% pensavam isso dos alemães e 9% expressavam tal opinião sobre os japoneses”. Em suma, fossem os judeus vistos com mais humanismo nesses países e talvez o seu resgate e o amparo poderia ter sido considerado um objetivo humanitário dentro do plano da guerra. 

Bombardear Auschwitz-Birkenau?

Ao examinar a possibilidade de se bombardear o complexo de extermínio Auschwitz-Birkenau, os historiadores Avraham Milgram e Robert Rozett, do Yad Vashem, o Museu do Holocausto de Israel, dizem que em junho de 1944, os aliados tinham informações detalhadas sobre Auschwitz, inclusive fotografias aéreas feitas por aviões. Por que isso, então não ocorreu? Milgram e Rozett explicam da seguinte forma a posição aliada:

“Alegaram que era tecnicamente impossível chegar ao campo. (…) Eles argumentaram que tal bombardeio não só não faria cessar o extermínio, como seria um desperdício de esforços bélicos indispensáveis para operações decisivas, além de colocar os pilotos em perigo. A única maneira de salvar os judeus, alegaram, seria vencer a guerra. Os principais argumentos eram, portanto, a ‘salvação pela vitória’ e ‘não desperdiçar energias bélicas’. Os aliados queriam evitar a impressão de estar lutando em prol dos judeus. A pergunta, se o bombardeio do campo de extermínio teria êxito ou não, é uma questão ainda aberta. No entanto, não há dúvida de que os aliados não tiveram a mesma energia e determinação para salvar os judeus como os nazistas tiveram para assassiná-los”. 

A ajuda aos judeus demorou muito. Nos casos em que esta realmente chegou durante a guerra, era proveniente dos movimentos de resistência, dos governos exilados e da comunidade judaica internacional, que procurou de todas as formas mobilizar recursos para tentar diminuir o número de mortes. No fim das contas, essa demora foi fatal para boa parte da comunidade judaica da Europa, contribuindo decisivamente para o número aproximado de seis milhões de mortos no Holocausto. 

Referências Bibliográficas

MILGRAM, Avraham; ROZETT, Robert. O Holocausto – as perguntas mais frequentes. Jerusalém: Yad Vashem, 2012. 

MARRUS, Michael R. A assustadora história do Holocausto. Prestígio: Rio de Janeiro, 2003.

LIPSTADT, Deborah. Beyond Belief: The Americans Oress and the Coming of the Holocaust, 1933-1945. Nova York, 1986. 

Bruno Leal Pastor de Carvalho é fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social (UFRJ, 2015). Mestre em Memória Social (UNIRIO, 2009), Especialista em História Contemporânea (PUCRS, 2010), Graduado em História (UERJ, 2006) e Comunicação Social (UFRJ, 2006). Foi professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra, com especial ênfase no destino dos criminosos nazistas. Foi cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, o NIEJ entre 2011 e 2018. É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais.

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CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Por que os aliados não salvaram os judeus durante o Holocausto? (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/por-que-os-aliados-nao-salvaram-os-judeus-no-holocausto/. Publicado em: 30 set. 2019.

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Por uma história social das doenças: o caso da leishmaniose https://www.cafehistoria.com.br/historia-social-da-leishmaniose/ https://www.cafehistoria.com.br/historia-social-da-leishmaniose/#comments Mon, 23 Sep 2019 18:50:25 +0000 https://www.cafehistoria.com.br/?p=8543 Jaime Benchimol, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, fala sobre a história social de uma antiga moléstia: a leishmaniose.

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Em entrevista ao Café História, Jaime Larry Benchimol, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, especialista em história das ciências e da saúde no país, fala sobre a história social de uma antiga moléstia: a leishmaniose.

Cristiane d’Avila entrevista Jaime Larry Benchimol

“A história de uma doença nunca é a história de uma só doença. Em cada conjuntura sobressaem diversas doenças e há interações entre elas. No plano das ideias, usam-se constructos ou modelos aplicáveis a uma para dar sentido a outras, quer pelo mecanismo das analogias, quer pela via experimental”.

A afirmação do historiador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) Jaime Larry Benchimol, especialista em história das ciências e da saúde no país, resulta de observações de seu mais recente objeto de estudo: a leishmaniose, ou leishmanioses, sendo três os tipos conhecidos: a visceral, a cutânea e a mucocutânea. 1

Complexo plural “construído” na virada do século XIX para o XX pela junção de moléstias que nada tinham a ver umas com as outras, segundo as palavras do pesquisador, a leishmaniose foi identificada como problema sanitário grave a partir de 1909. Pesquisadores cujos arquivos estão sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da COC, como Evandro Chagas, Leônidas Deane e Maria Paumgartten Deane, são os protagonistas de uma história de investigações que avançaram pelos séculos XX e XXI.

leishmaniose
Jaime Larry Benchimol no no evento de 25 anos da revista Manguinhos. Foto: Jeferson Mendonça dos Santos Silva / Departamento de Arquivo e Documentação/COC-Fiocruz.

Momentaneamente controlada nos anos 1950 e 1960, no Brasil e em outros países, a doença irrompeu em áreas consideradas livres da doença, em função de mudanças ambientais, migrações humanas e crescimento urbano caótico. Duplamente negligenciada, seja porque recebe pouca atenção do Estado, seja porque afeta populações negligenciadas, a leishmaniose ainda é cercada de incertezas sobre seus mecanismos de transmissão, diagnóstico, tratamento e prevenção. No entanto, segundo Benchimol, ela mobiliza uma das mais pujantes comunidades de pesquisa no Brasil. 

Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, Benchimol foi editor científico da revista História, Ciências, Saúde — Manguinhos de janeiro de 1997 a março de 2015. É professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da COC e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (Fiocruz Amazônia, Manaus). Escreveu livros sobre febre amarela e organizou, com Magali Romero Sá, a obra completa de Adolpho Lutz.

Você escreveu muitos livros sobre febre amarela. Agora prepara uma coletânea sobre leishmaniose. Como chegou a esse objeto de pesquisa?

Durante muito tempo pesquisei a história da febre amarela. Para mim, o barato estava em conhecer a história social da doença, ou seja, não apenas como ela incidiu sobre diferentes grupos sociais e como estes vivenciaram e reagiram à doença, mas também como foram socialmente produzidos os conceitos e ideias que informaram a percepção dos homens sobre a febre amarela e que balizaram suas ações contra ela.

E escrevi páginas e páginas sobre como ela foi interpretada e combatida à luz de teorias miasmáticas, depois de diversas teorias microbianas concorrentes, que tiveram enorme repercussão no último quarto do Oitocentos2, sendo estes constructos postos abaixo na virada do século XX, quando prevaleceu a teoria que norteou as campanhas de Oswaldo Cruz e de outros sanitaristas.

Segundo esta teoria [a de Oswaldo Cruz], a febre amarela era uma doença transmitida por uma única espécie de mosquito (atual Aedes aegypti), com agente causal ainda desconhecido, julgando-se provável, porém, que fosse um protozoário, por analogia com a malária. A febre amarela tinha o homem como único hospedeiro vertebrado e grassava sobretudo nas cidades portuárias populosas das zonas mais quentes do planeta.

Combater a febre amarela significou alterar o ambiente que produzia os miasmas, neutralizar a suposta bactéria que causava a doença por meio de vacinas, realizar desinfecções e promover o isolamento dos doentes; agora significava principalmente combater um mosquito nas grandes cidades litorâneas da América e da costa ocidental da África.

Isso até a nova reviravolta ocorrida na virada dos anos 1920 para os 1930, quando a febre amarela passou a ser vista como doença primariamente silvestre, causada por um vírus, tendo vários hospedeiros vertebrados além do homem e várias outras espécies de mosquitos como transmissores. Em 1934, quando era drasticamente reestruturada a campanha contra a febre amarela, outras doenças foram reveladas como graves problemas de saúde pública no Brasil. É o caso da leishmaniose visceral.

Como isso aconteceu?

Os especialistas da Fundação Rockefeller e da saúde pública brasileira implicados na campanha tinham de dimensionar a verdadeira extensão da febre amarela e uma das ferramentas usadas para isso foram as viscerotomias: com respaldo de lei promulgada por Vargas, pessoas que morressem de febre suspeitas só podiam ser enterradas se fosse extraído um fragmento de seu fígado por um dos muitos viscerotomistas contratados nos mais remotos rincões do país. Podia ser um farmacêutico, um juiz de paz, um comerciante…

Correndo muitas vezes risco de vida, dadas as reações que esse procedimento causou, o sujeito enfiava a lâmina do viscerótomo no bucho do cadáver, punha o fragmento de fígado assim extraído num vidro com conservante e mandava o material para o laboratório que ficava em Salvador, depois no Rio de Janeiro para que fosse analisado.

Em materiais negativos para febre amarela, o patologista Henrique Penna encontrou dezenas de casos de uma doença que se supunha não existir nas Américas, a leishmaniose visceral. Muitos casos de esquistossomose seriam encontrados assim também.

Leishmaniose, leishmanioses, uma palavra que pode ser usada no plural e no singular. Qual a história dessa doença?

Leishmaniose é uma palavra usada com frequência no singular, mas é um complexo plural “construído” na virada do século XIX para o XX pela junção de moléstias que nada tinham a ver umas com as outras. Por exemplo: úlceras cutâneas que afligiam europeus e nativos na Ásia e África tiveram por muito tempo dezenas de nomes que aludiam às circunstâncias de tempo e lugar em que eram adquiridas: botão de Aleppo, de Biskra, o botão da Bahia descrito por Juliano Moreira etc. Os médicos atribuíam essa doença cutânea em geral benigna, também chamada ‘botão do Oriente’, ao clima e às condições de higiene das localidades afetadas.

Na década de 1890, um investigador russo relacionou-a a um protozoário, e essa teoria ganhou maior consistência nos Estados Unidos, onde um médico classificou como Helcosoma tropicum o protozoário encontrado nas úlceras de uma imigrante armênia que havia contraído a doença em sua terra natal.

Leishmania leishmaniose
Leishmania donovani-numa, célula de medula-óssea. Foto: CDC

Por outro lado, na Índia, a partir de meados do século XIX, passou a grassar epidemicamente uma doença muito letal, que afetava as vísceras, sobretudo o fígado e o baço, conhecida como kala-azar. As autoridades coloniais britânicas promoveram inquéritos para saber que doença era aquela. Para uns era uma forma grave de malária, para outros uma manifestação anômala da ancilostomíase.

Trabalhando independentemente, Willian Boog Leishman e Charles Donovan identificaram em 1903 um protozoário como o agente etiológico do calazar. Um novo gênero – Leishmania – foi então criado para acomodar o parasito classificado como Leishmania-Donovani. E em 1906, um médico alemão mostrou que havia grande semelhança morfológica entre este protozoário e o Helcosoma tropicum, do Botão do Oriente, sendo este reclassificado como Leishmania tropica.

Assim, dois protozoários indistinguíveis, com os recursos técnicos então disponíveis, causavam doenças com quadros sintomáticos e cursos completamente diferentes. Isso representava uma anomalia para um princípio caro à medicina pasteuriana, isto é, a ideia de que a cada doença infecciosa correspondia um microrganismo específico, um agente causal único e claramente discernível. Tal anomalia é um aspecto essencial do processo subsequente de produção de conhecimentos sobre esse grupo de doenças que foi se tornando cada vez complexo e diversificado com o passar do tempo.

Como se deu esse processo de descobertas no Brasil?

Em 1909, Antonio Carini e Ulisses Paranhos, do Instituto Pasteur de São Paulo, e Adolpho Lindenberg, do Instituto Bacteriológico de São Paulo, relataram a descoberta de Leishmania nas chamadas “úlceras de Bauru”. Vinham elas acometendo muitos operários que trabalhavam na construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligaria Bauru ao Mato Grosso e à Bolívia.

Aqueles primeiros diagnósticos de leishmaniose na América Latina traziam novidades em relação ao botão do Oriente: aqui o parasita podia atacar não só a pele, mas também as mucosas; tinha curso clínico mais grave, ocasionando com frequência graves deformações e a morte. Outra singularidade: a doença não grassava em cidades, mas em zonas de florestas.

Nas primeiras décadas do século XX, centenas de casos seriam descritos principalmente por dermatologistas que atendiam doentes vindos das zonas rurais para os hospitais das cidades em busca de tratamento. Mas no tocante à leishmaniose visceral, a singularidade das Américas parecia residir na ausência dessa forma da doença cuja extensão geográfica no Velho Mundo vinha se ampliando por força de estudos que haviam diferenciado o kala-azar da Índia, China e de outras regiões; e a leishmaniose visceral que grassava na zona do Mediterrâneo, principalmente entre crianças e cães.

Houve um diagnóstico de leishmaniose visceral no continente americano em 1912, feito por um médico paraguaio num indivíduo que havia trabalhado na Noroeste do Brasil, a ferrovia que fora palco do surto de “úlcera de Bauru”, mas esse diagnóstico ficou como um evento intrigante, isolado, até a descoberta feita em 1934 por Henrique Penna, o patologista do Serviço de Febre Amarela.

A Fiocruz é protagonista importante nos estudos sobre as leishmanioses. Pode descrever como se deu esse processo histórico?

Aconteceu o seguinte. Carlos Chagas, diretor do Instituto Oswaldo Cruz, incumbiu então seu filho primogênito, Evandro Chagas, diretor do hospital que havia na instituição, de investigar aquele novo problema médico. Com as fichas dos casos diagnosticados post-mortem, ele encontrou o primeiro paciente brasileiro diagnosticado em vida com a doença, em Aracaju, Sergipe.

À frente da Comissão Encarregada do Estudo da Leishmaniose Visceral Americana, da qual fazia parte o médico argentino Cecílio Romaña, Evandro Chagas visitou outros lugares no Nordeste, mas logo concentrou sua investigação no Pará, onde outros jovens médicos foram incorporados à sua equipe.

Tendo como bússola os laudos produzidos pelos patologistas do Serviço de Febre Amarela, Evandro Chagas e seus colaboradores fariam grandes esforços para demonstrar a teoria quase apriorística da suposta autoctonia da Leishmaniose Visceral Americana. Eles procuraram repetir o feito dos que haviam logrado estabelecer o conceito da Leishmaniose Tegumentar Americana e também o do descobridor da afamada tripanossomíase americana (doença de Chagas). Certamente foram influenciados pela ebulição científica provocado pela recente descoberta da febre amarela silvestre.

A leishmaniose visceral encontrada no Norte e Nordeste do Brasil e na província do Chaco, no nordeste da Argentina, ocorria em indivíduos de diferentes idades, ao passo que a do Mediterrâneo incidia preferencialmente em crianças. A doença americana ocorria exclusivamente em áreas silvestres ou zonas rurais em estreito contato com matas, e não em cidades, como o calazar, que se manifestava sob a forma de intensas e letais epidemias na Índia.

Cães eram os principais reservatórios do agente da leishmaniose visceral mediterrânea, mas esses animais domésticos não podiam desempenhar igual papel em doença tão esparsa quanto a americana; só animais silvestres atuando como reservatórios primários podiam explicar o perfil epidemiológico da leishmaniose visceral americana. Ao incriminar uma nova espécie − Leishmania chagasi − como seu agente causal, Evandro Chagas estabelecia explícita associação com outro pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, Gaspar de Oliveira Vianna, que havia descrito a Leishmania braziliensis, então reconhecida como o agente da leishmaniose tegumentar americana.

Joaquim Eduardo Alencar, num Congresso Médico do Nordeste Brasileiro realizado em Fortaleza, em julho de 1953, declarou que a leishmaniose, quer a tegumentar, quer a visceral, constituía um problema de relevância para o Nordeste, se bem que não pelo elevado número de casos. Um dos fundadores, em 1947, da Faculdade de Medicina do Ceará, Alencar ensinava parasitologia aí. O Congresso e o tema em discussão revelam a densidade que vinha adquirindo o campo médico na região e os estudos sobre as doenças do Nordeste feitos por médicos locais, em colaboração cada vez mais frequente com investigadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

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Fêmea de flebotomíneo. Foto: CDC.

Os postos de saúde criados em zonas interioranas desempenharam papel importante no número crescente de diagnósticos da leishmaniose tegumentar, mas os casos vivos de leishmaniose visceral eram poucos, e assim se mantinha de pé a noção estabelecida por Evandro Chagas de que era doença rara e esporádica.

Em quatro décadas, 34 casos tinham sido reconhecidos, a maior parte no Pará e na Bahia. Mas em 1953 irrompeu uma epidemia no norte do Ceará que alterou drasticamente esse quadro. Em apenas cinco anos (1953 a 1957), o total de casos in vivo no Brasil saltou para 1.832. No continente americano o total subiu de 35 para 2.179 (1.840 em vida e 339 post-mortem), porém mais de 98% desse total pertenciam ao Nordeste do Brasil.

Os médicos e farmacêuticos da região há muitos anos vinham observando infecções de natureza desconhecida, como o “mal do buchão”, que só agora identificavam. A epidemia de 1953 mostrou, assim, que o pequeno número de diagnósticos feitos anteriormente, em vez de traduzir a raridade da doença, era consequência da falta de assistência à população rural e do desconhecimento dos médicos e farmacêuticos que atuavam no interior (não podemos subestimar a importância desta última categoria na prestação de assistência às populações rurais nordestinas!).

Foi então instituída uma Campanha contra a Leishmaniose Visceral no Ceará sob a chefia do já citado Joaquim Eduardo de Alencar. Samuel Pessoa esteve na região e enviou para lá dois de seus assistentes − Leônidas Deane e sua mulher, Maria Paumgartten Deane, ex-integrantes da equipe de Evandro Chagas.

Como foi combatida a doença?

Como na Índia e em outras partes do mundo, a leishmaniose visceral foi combatida por meio da dedetização domiciliária no Nordeste do Brasil. Os Phlebotomus longipalpis desapareciam das casas tratadas com este inseticida de ação residual; nos abrigos de animais domésticos sua ação era menor; e ao ar livre, nula. Seus criadouros eram na verdade mal conhecidos ainda. E as dedetizações eram feitas pelo Serviço Nacional de Malária, ficando assim a reboque da profilaxia dessa doença, ou seja, dos hábitos dos Anopheles, que não eram os mesmos dos Phlebotomus.

A Campanha contra a Leishmaniose Visceral no Ceará envolveu também a descoberta e eliminação dos casos caninos. À luz dos valores atuais da ética animal, é chocante o número de cães eliminados ao longo de oito anos de Campanha: de 279.423 animais examinados, 78.929 foram abatidos, não obstante apenas 3.712 (1,32% do total) fossem dados como positivos (as técnicas para o diagnóstico parasitológico eram consideradas incertas).

Ninguém tinha dúvidas de que a epidemia de leishmaniose visceral era em larga medida determinada pelas condições socioeconômicas dos trabalhadores rurais. Atribui-se a Alencar um comentário muito significativo: “A leishmaniose é uma doença de cães e daqueles que levam vida de cão”. Por isso a profilaxia devia incluir a melhoria das condições de vida das populações atingidas, mas, na prática, limitou-se ao tratamento com os antimoniais então disponíveis, especialmente o Glucantime, fornecidos gratuitamente a hospitais e postos de saúde.

Atualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as leishmanioses são as únicas doenças tropicais negligenciadas em crescimento, sendo o Brasil o país com o maior número de casos das três formas da doença: tegumentar ou cutânea; a mucocutânea e visceral ou calazar. Qual a situação da doença no Brasil?

A leishmaniose visceral foi controlada no Brasil, mas apenas momentaneamente. Hoje apresenta elevada incidência e vasta distribuição, adquirindo formas graves e letais quando associada à má nutrição e infecções concomitantes, como a Aids. Grandes empreendimentos no interior do país após o golpe civil-militar de 1964 contribuíram para a transformação das leishmanioses cutânea e mucocutânea num problema também mais grave, especialmente na região amazônica.

Na verdade, no final do século XX, no Brasil e em outros países, todas as formas de leishmaniose que pareciam sob controle reemergiram em zonas rurais e urbanas e irromperam em áreas consideradas livres desse complexo de doenças endemoepidêmicas devido a mudanças ambientais, migrações humanas, crescimento urbano caótico e outros processos socioeconômicos incidentes sobre largas porções dos territórios desses países.

Isso explica o notável incremento na cooperação internacional no tocante às leishmanioses e a outras doenças que passaram a ser qualificadas como “negligenciadas”. Muitas incertezas (antigas ou novas) pairam ainda sobre os mecanismos de transmissão, as técnicas diagnósticas, o tratamento e a prevenção das leishmanioses. Embora esse complexo de doenças seja de fato negligenciado pelas políticas públicas e afete populações também negligenciadas, mobiliza uma das mais pujantes comunidades de pesquisa no Brasil.

Você afirma no seu mais recente artigo que a extrema especialização dos profissionais que lidam com doenças tropicais se contrapõem, com algumas exceções, à inabilidade para perceber o problema holisticamente. Como chegou a essa percepção?

Novos paradigmas, especialmente a biologia molecular, mudaram a maneira de ver as leishmanioses, dando-lhes complexidade bem maior do que tinham na época analisada atrás, ao mesmo tempo em que aumentava o número de investigadores dedicados a esse objeto de pesquisa, oriundos dos programas de pós-graduação que vinham se multiplicando no país. Para um historiador essa é uma época dura de ‘roer”.

Para fazer história de uma ciência ou doença a gente precisa se assenhorear da linguagem dos especialistas que escreveram sobre elas. Com o tempo aprendi a lidar com a literatura produzida por clínicos, bacteriologistas, parasitologistas, zoólogos e entomólogos, mas um não iniciado tem grande dificuldade de penetrar a literatura atual, das novas gerações formadas sob a égide da biologia molecular e das tecnologias experimentais e diagnósticas derivadas dela. Tenho me valido da história oral para dar sentido aos processos contemporâneos.

A extrema especialização dos profissionais que lidam com as leishmanioses e outras doenças parece ter como contrapartida, com exceções, é claro, uma inabilidade para perceber o problema holisticamente, como fazia a geração multivalente de Samuel Pessoa, Leônidas Deane e Joaquim Alencar, mais sensível aos determinantes sociais e ambientais das doenças. E isso acontece porque elas são também eventos culturais que dependem de categorias de pensamento e constructos verbais específicos a uma geração, os quais refletem a história do campo médico e da sociedade que o engloba.

Notas

1 Segundo definição da Fiocruz, “As leishmanioses são um conjunto de doenças causadas por protozoários do gênero Leishmania e da família Trypanosomatidae. (…) A leishmânia é transmitida ao homem (e também a outras espécies de mamíferos) por insetos vetores ou transmissores, conhecidos como flebotomíneos (…) A transmissão acontece quando uma fêmea infectada de flebotomíneo passa o protozoário a uma vítima sem a infecção, enquanto se alimenta de seu sangue.” São vários os sintomas da doença.

2 Século XIX.

Jaime Larry Benchimol possui graduação em história no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense (1976); mestrado em Planejamento Urbano e Regional pela COPPE, Universidade Federal do Rio de Janeiro (1982); especialização em restauração de monumentos históricos na Itália (1983); e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (1995). É pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. Foi editor científico de História, Ciências, Saude — Manguinhos de janeiro de 1997 a março de 2015. Desde então é membro do Conselho Editorial desta revista. É professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (Instituto Leônidas e Maria Deane, Manaus). Seus temas de pesquisa e ensino situam-se nas áreas de História das Ciências da Vida, História da Medicina Tropical e da Saúde Pública e agora, em menor medida, História Urbana.

Cristiane d’Avila é jornalista, doutora em Letras pela PUC-Rio, Tecnologista em Saúde Pública da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), onde atua no Departamento de Arquivo e Documentação. Mestre em Comunicação Social e Especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio. É organizadora do livro “Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias”, publicado pela Funarte em 2013, e autora do livro “João do Rio a caminho da Atlântida”, publicado em 2015 com apoio da Faperj. Colabora mensalmente com o Café História com textos sobre História da Ciência e da Saúde.

Como citar esta entrevista

BENCHMOL, Jaime Larrt. Por uma História Social das doenças: o caso da leishmaniose (Entrevista). Entrevista concedida a Cristiane d’Avila. In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/historia-social-da- leishmaniose/. Publicado em: 23 set. 2019. Acesso: [informar data].

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Um mosaico de passados: o Bairro Gótico de Barcelona https://www.cafehistoria.com.br/bairro-gotico-de-barcelona/ https://www.cafehistoria.com.br/bairro-gotico-de-barcelona/#respond Mon, 16 Sep 2019 03:29:35 +0000 https://www.cafehistoria.com.br/?p=8514 Como o nacionalismo catalão e o turismo histórico se encontraram na invenção arquitetônica de uma cidade medieval em pleno século XX.

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Como o nacionalismo catalão e o turismo histórico se encontraram na invenção arquitetônica de uma cidade medieval em pleno século XX.

Por Fernando Nicolazzi

Especial “Passados presentes da Espanha”

Um gosto pelo passado parece alimentar a curiosidade de muitos visitantes que caminham pela Cidade Velha,em Barcelona. Os mais interessados certamente farão uma visita ao Museu de História, inaugurado alguns anos após o fim da Guerra Civil e localizado na Praça do Rei. O prédio que hoje abriga o museu havia sido um palácio privado construído em estilo gótico e oferece ao visitante um ótimo exemplo deste passado, que se constitui como elemento central na definição da identidade catalã.

Caso sinta cansaço após a visita, uma pausa poderá ser feita ali mesmo em frente ao museu, desfrutando de algumas tapas e cañas no bar L’Antiquari, cujo nome certamente contribui para manter a ambiência do passeio. Em seguida, a rápida caminhada por uma estreita viela levará o visitante até a Rua do Bispo, permitindo-lhe contemplar a famosa ponte, onde outros tantos turistas estarão com os pescoços esticados, os olhos atentos e celulares a postos observando e fotografando a ornamentada passagem de estilo gótico que une as duas construções emoldurando a paisagem.

Alguns passos mais e logo toda a atenção será concentrada no majestoso aspecto da Catedral, um edifício erigido no coração da cidade e que presenteia o visitante com uma vista fascinante de sua fachada gótica. O olhar, então, se perderá em meio a um sem-número de detalhes que causam ao mesmo tempo uma sensação de encanto e de assombro diante da imponência daquela imagem que se abre ao turista histórico.

Bairro Gótico de Barcelona - Catedral
Catedral de Barcelona, fachada gótica construída em 1913. Foto: Catharina Rytter.

Neste breve percurso de alguns poucos metros, certamente o apetite passadista do visitante será saciado com largas doses de história catalã, particularmente aquela que diz respeito ao período definidor do estilo arquitetônico que caracteriza e que dá nome ao famoso Bairro Gótico de Barcelona. A experiência de imersão será tamanha que o turista de hoje levará para casa a sensação de ter presenciado um passado distante que, neste caso, remete diretamente às primeiras décadas do século XX.

Um gótico do século XX?   

O antigo palácio onde o passeio foi iniciado, conhecido como Casa Padellàs, só está no lugar onde hoje se encontra porque na década de 1930 ele foi trasladada, pedra por pedra, da antiga rua Mercaders, onde havia sido erigida no século XV, para a atual Praça do Rei, ela própria um produto daquele mesmo contexto. A ponte localizada na Rua do Bispo, também conhecida como Ponte Gótica, é uma construção do final da década de 1920 e não tem ainda nem 100 anos de idade. Por fim, embora o prédio da Catedral seja do século XV, sua fachada só foi efetivamente construída a partir do final do século XIX, sendo finalizada apenas em 1912, o que certamente motivou esse interesse em harmonizar todo o entorno da igreja com o mesmo estilo arquitetônico.

Um dos principais pontos turísticos da cidade, o Bairro Gótico, nesse sentido, pode ser encarado enquanto uma invenção própria do século XX e se apresenta como um dos mais bem-sucedidos exemplos de usos do passado que consegue articular o interesse econômico do turismo com o anseio coletivo pela definição de uma identidade social.

Catedral Gótica de Barcelona
A mesma Catedral de Barcelona, mas 1880. Estilo gótico é do século XX. Fonte: Wikpedia.

Para além do gosto pelo passado, portanto, caminhar por este impressionante espaço permite também refletir sobre uma forma particular de experiência de tempo, por meio da qual o passado emerge tanto como um legado ou uma permanência de outrora, contribuindo para uma memória coletiva definidora de identidades nacionais, quanto como um artefato construído para determinados fins do presente, que podem ser, inclusive, a obtenção de lucro por meio da exploração turística da cidade.

A criação do Bairro Gótico

Desde meados do século XIX, um conjunto de reformas urbanas transformou profundamente Barcelona, cujo espaço histórico cercado pelas antigas muralhas romanas não conseguia mais acompanhar o crescimento vertiginoso da população.

Entre o começo do século XVIII e a década de 1830, o número de habitantes da cidade aumentou em quase quatro vezes. Por conta dessa expansão demográfica, em 1854 foi decidido que as muralhas seriam derrubadas e importantes alterações urbanísticas seriam então realizadas. Foram elaborados planos de reforma pelo engenheiro Ildefons Cerdà (1859), voltada sobretudo para as zonas que se encontravam fora do perímetro delimitado pelas antigas muralhas, e por Ángel Baixeras, arquiteto e urbanista que duas décadas depois voltou sua atenção para melhorar as condições de circulação do chamado casco viejo da cidade antiga.

A proposta de Baixeras, que apenas começou a ser implementada parcialmente pela prefeitura na primeira década do século XX, previa a abertura de três grandes vias retas que cortariam a parte central da cidade, atravessando antigas construções e ocasionando uma profunda remodelação da paisagem do que hoje é o Bairro Gótico. O início dos trabalhos ocorreu em março de 1908, com a demolição de centenas de edifícios para a abertura da Via Laietana, uma avenida que segue entre a praça Urquinaona até a praça Antonio López, próxima à zona portuária da cidade.

Para acompanhar os trabalhos, foi nomeada pela administração local uma Delegación Investigadora y de Vigilancia de las Obras de la Reforma, composta por profissionais das áreas da arquitetura e da história. Sua função era realizar um levantamento dos prédios que seriam demolidos, determinando o que deveria ser conservado e o que viraria entulho. A empresa contratada pelo serviço, assim, tinha como incumbência desmontar as peças que requeriam conservação e trasladá-las até um armazém municipal, onde ficariam à espera de decisões para novos possíveis usos. Ao mesmo tempo, a União dos Artistas de Barcelona organizou um concurso para fotografias e desenhos que documentassem as transformações que ocorreriam em função das reformas.

Ou seja, a modificação e a destruição dos passados acumulados naquela região da cidade seguiu concomitante com um esforço bastante organizado de preservação de uma determinada memória que, inclusive, era feita por meio da conservação material de partes daquele passado.

A abertura da Via Laietana acabou por mostrar uma outra Barcelona escondida por debaixo dos prédios que foram sendo erigidos ao longo dos séculos, revelando desde ruínas romanas até restos de construções góticas oriundas de um período de crescimento econômico e apogeu político da cidade, entre os séculos XIII e XV. Com isso, um importante problema se colocava para a população: como se define que passado preservar e a partir de qual memória estabelecer o vínculo com este passado.

A enorme quantidade de material selecionada pela Delegación e conservada pela prefeitura tornou inviável que ele fosse organizado em um único museu. Começa, então, a ser esboçada a ideia de criação de um bairro onde tudo aquilo que estava sendo armazenado pudesse ser contemplado pelo público. O arquiteto Antoni Gaudí sugeria que este material pudesse ser usado para melhorar a estética da cidade e seu colega de profissão Jeroni Martorell, assinando uma petição endereçada à prefeitura, propôs a construção de um grande museu ao ar livre.

Em 1911, o escritor Ramon Rucabado publicou um artigo na revista La Cataluña intitulado justamente “Um bairro gótico em Barcelona”. Ali, escreveu que “um bairro gótico tal como idealizamos seria como uma caixa preciosa que guardaria as joias preciosas de Barcelona […] Todas as ruas deveriam ser devolvidas não ao primitivo estado da época histórica em que se terminou a edificação delas, mas ao estilo gótico catalão, intervindo pela mão especializada e sábia dos melhores arquitetos modernos da Catalunha” (La Cataluña, 20/05/1911, p. 310). Estavam dadas as linhas gerais para a criação deste importante espaço de preservação histórica que, na verdade, recriava um determinado passado escolhido estrategicamente por parte da sociedade barcelonense desde o século XIX.

A recriação do passado gótico

A ideia de um Bairro Gótico nomeando uma parte turística de Barcelona só teve difusão mais intensa a partir de meados do século XX. Certamente os preparativos para a Exposição Universal de 1929 ajudaram a concretizar a ideia que em 1911 era colocada em discussão por Rucabado. Dois anos antes da Exposição havia sido criado pela prefeitura o Servicio para la Conservación y Restauración de Monumentos, que após o fim da Guerra Civil passou a se chamar Edificios Artísticos y Arqueológicos. O papel do arquiteto Adolf Florensa nessa instituição foi decisivo para que o Bairro pudesse efetivamente existir.

Na perspectiva de Florensa, três critérios foram fundamentais para que todo o entorno da Catedral pudesse adquirir a conotação gótica desejada. Em primeiro lugar, era necessário um esforço de restauração e de dignificação dos espaços considerados segundo sua importância histórica. Em segundo lugar, seria feito o traslado para o centro histórico de construções que, em função das reformas urbanas, tivessem que ser demolidos. O deslocamento da casa Padellàs é um dos exemplos deste critério. Finalmente, terceiro ponto importante, o que ele chamava de “harmonização do insulso”, que significa modificar os edifícios já existentes, construídos em épocas posteriores ao período do gótico catalão, de modo a homogeneizar com a paisagem medievalizada que estava sendo recriada.

Havia naquele contexto das primeiras décadas do século XX dois tipos de interesses que seguiam de forma convergente. De um lado, a valorização de elementos definidores da identidade catalã que, desde a primeira metade do século XIX, passou a ser elaborada e divulgada por meio do movimento catalanista conhecido como Renaixença. De outro, a emergência de uma burguesia que enxergava na cidade e na sua exploração turística uma forma rentável de lucro, organizada administrativamente a partir da Sociedad de Atracción de Forasteros, criada em 1908.

Identidade coletiva e lucro econômico, neste caso, eram duas faces de uma mesma moeda, cujo lastro que definia seu valor vinculava-se à dimensão histórica proposta e aos usos do passado que poderiam ser feitos. A cidade se converte, assim, em um espaço onde a memória social passa a ser monumentalizada, valorizando determinados anseios políticos que instrumentalizam certas disputas (como o independentismo catalão o mostra), ao mesmo tempo em que se valoriza enquanto forma de exploração comercial a partir da transformação do passado em uma commodity a qual se agrega determinado valor.  

Turismo histórico e usos do passado

Em sua famosa conferência intitulada O culto moderno dos monumentos, de 1903, o historiador da arte austríaco Aloïs Riegl sugere um importante processo pelo qual a percepção moderna dos monumentos se transforma no século XX. Segundo Riegl, o contexto em que sua conferência foi pronunciada, o mesmo em que os esboços da construção do Bairro Gótico começaram a ser desenhados, era o momento em que o valor imputado aos monumentos do passado passava por uma mutação significativa, transitando do que ele chamou de “valor histórico” para o “valor de antiguidade”.  

Valor histórico é aquele que, para ser usufruído, implica uma atividade intelectual vinculada a um conhecimento científico específico. É o tipo de valor que ligado à unicidade do objeto, a sua dimensão documental e ao tipo de informação que ele oferece sobre os fatos do passado. A Casa Padellàs, por exemplo, permite o conhecimento de vários elementos a respeito da arquitetura e da vida doméstica catalã do século XV.

Por outro lado, o valor de antiguidade vincula-se mais ao caráter estético do objeto, à aparência de tempo transcorrido que as marcas incrustradas em sua superfície oferecem ao observador. Ao contrário da atividade intelectual exigida para se perceber o valor histórico, a antiguidade se revela por meio da experiência sensorial, pela impressão subjetiva que o monumento de outro tempo apresenta ao observador. A mesma Casa Padellàs, com suas paredes impregnadas de marcas temporais permite ao visitante a percepção concreta do passado.

Nesse sentido, como destaca Riegl, se o valor histórico se restringe a uma camada cultivada da sociedade, o valor de antiguidade se abre para que um número mais amplo de curiosos tire proveito deste tipo de valor rememorativo. O turismo de passado, portanto, é atravessado tanto por um tipo de valor quanto por outro. Seria possível mesmo sugerir que sua eficácia, seja do ponto de vista da história, seja do ponto de vista econômico, depende de uma justa medida entre ambos: nem algo excessivamente erudito e voltado para poucos, nem algo puramente estético e massificado, desprovido de lastro documental.

O Bairro Gótico de Barcelona, esse mosaico de passados e presentes interagindo entre si, oferece um exemplo significativo de uma forma de uso do passado em que a autenticidade do material e o seu potencial de consumo coexistem em uma tênue linha que separa o autêntico do falso e o possivelmente pedagógico do puramente lucrativo. Trata-se de uma linha que, em última instância, cabe àquele visitante mencionado mais acima decidir se atravessa ou não.

Referências Bibliográficas

ALBERT, Joan Roca i. “Intervención arqueológica, discurso histórico y monumentalización en Barcelona”. In: V Congreso Internacional Musealización de Yacimientos Arqueológicos, Cartagena, 2008.

GANT, Agustín Cócola. El Barrio Gótico de Barcelona. Planificación del pasado e imagen de marca. 2º. Edición. Barcelona: Ediciones Madroño, 2014.

GANAU, Joan. “Invention and authenticity in Barcelona’s Barri Gótic”. In: Future Anterior, vol. 3, n. 2, 2006.

PALMER, Catherine; TIVERS, Jacqueline (edited by). Creating heritage for tourism. London: Routledge, 2019.

RIGEL, Aloïs. El culto moderno a los monumentos. Madrid: La Balsa de la Medusa, 2008.

Fernando Nicollazi possui graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR – 2001), mestrado (2004) e doutorado (2008) em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membro dos Programas de Pós-Graduação em História e do Mestrado Profissional em Ensino da História (PROFHistória) da UFRGS. É pesquisador do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (LUPPA-UFRGS) e pesquisador-colaborador do Núcleo de Estudos em História da Historiografia e Modernidade (NEHM-UFOP). Foi coordenador do GT Teoria da História e Historiografia da ANPUH-RS (2012-2015). Tem experiência na área de História, com ênfase em Teoria da História e Historiografia, atuando principalmente nos seguintes temas: teoria da história, historiografia moderna e historiografia brasileira.

Como citar este artigo

NICOLLAZI, Fernando. Um mosaico de passados: o Bairro Gótico de Barcelona (Artigo). In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/bairro-gotico-de-barcelona/ Publicado em: 16 set. 2019. Acesso:

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A Idade Média imaginada: usos do passado medieval no tempo presente https://www.cafehistoria.com.br/usos-do-passado-medieval-idade-media/ https://www.cafehistoria.com.br/usos-do-passado-medieval-idade-media/#comments Mon, 09 Sep 2019 21:43:35 +0000 https://www.cafehistoria.com.br/?p=8491 O passado medieval ainda é descrito e representado de forma estereotipada e até preconceituosa.

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A Idade Média foi palco da criação das universidades, de formas diversas de pensar Deus e a divindade; da literatura profana, de formas de sociabilidade e de relações amorosas que se alongam no tempo e nos permitem partilhar suas reminiscências; de muita produção filosófica e de mulheres escritoras. Porém, apesar disso tudo, o passado medieval ainda é descrito e representado de forma bastante estereotipada e até mesmo preconceituosa.

Por Nilton Mullet Pereira e Marcello Paniz Giacomoni

O passado medieval tem servido, de modo sistemático e preocupante, como referência para diversos projetos políticos e sociais no presente. Observamos referências problemáticas ao medievo em discursos de autoridades públicas ou em grupos de redes sociais, que fazem referências ao período para justificar posições conservadoras, preconceituosas e discriminatórias, atingindo minorias, religiosidades e outras formas de existência e de vida que não fazem parte da sua visão do que seria a Civilização Ocidental.

O objetivo deste artigo é discutir os usos políticos do passado medieval no tempo presente, procurando mostrar que os usos (e abusos) deste passado segundo uma agenda politicamente interessada não nos faz compreender melhor o passado, mas, pelo contrário, torna esse passado caricato, preconceituoso, desvinculado do seu próprio tempo e personagens.

Românticos, humanistas e iluministas

Os usos do passado medieval não são exclusividade deste tempo presente. Durante o Romantismo, no século XIX, muitos autores imaginavam uma Idade Média glamorosa, enaltecendo a existência de reinos, destacando a vida de cavaleiros, magos, reis e damas da corte. Para os românticos, a Idade Média era uma grande referência, não raro sendo vista como o passado mítico que ajudava a explicar as origens dos Estados Nacionais. Ao mesmo tempo, a literatura romântica combatia o racionalismo frio e calculado e se posicionava pela exacerbação dos sentimentos, da religiosidade, das paixões e dos sonhos, numa conexão direta com o medievo.

Idade Média
Espadas, cavalheiros e duelos são elementos quase sempre presentes nas representações da Idade Média. Foto: Henry Hustava / Unplass.

Outras narrativas, porém, foram bem menos generosas com o período, construindo representações completamente opostas. É o caso dos artistas humanistas, que construíram nos idos dos séculos XV e XVI uma leitura da arte medieval desde os valores e padrões do novo classicismo1 do então chamado Renascimento. Rafael Sanzio (1483-1520), por exemplo, classificou a Idade Média de gótica, e ainda como sinônimo de “bárbara”, enquanto que Rabelais (1494-1553) a denominou como a “espessa noite gótica”2.

Os iluministas, por sua vez, deram um tom mais acabado ao imaginário da Idade Média das trevas, quando, no século XVIII, os movimentos revolucionários burgueses associavam o medievo apenas ao predomínio da Nobreza Feudal e da Igreja Católica, objetos da crítica dos filósofos e pensadores da época, que condenavam a religiosidade, o misticismo, a irracionalidade e a ignorância que viam naquele período, tornando a Idade Média conhecida como a Idade das Trevas3. Nesse momento, o medievo passou a ser identificado como uma era estagnada e atrasada, ou ainda, um momento da história que desvia do pretenso universalismo da razão do esclarecimento e do modo de vida fundado na ideia de progresso e evolução.

Tal imagem sobrevive: chamar alguém de “medieval” não é um elogio no senso comum. Ao contrário, permite repetir um modo pouco sofisticado de se pensar o passado e nossas relações com ele, pois cria um vínculo valorativo com o outro, produzindo a negatividade em relação a uma época ou mesmo um povo, baseado numa na temporalidade eurocêntrica e moral. É o caso, por exemplo, da música do Cazuza que diz: “Será que eu sou medieval? Baby, eu me acho um cara tão atual”.

Historiografia: novas interpretações da Idade Média

A historiografia sobre a Idade Média, nascida no século XIX, tem se renovado constantemente e produzido novas interpretações sobre o período, realizando, inclusive, a leitura séria e rigorosa dos imaginários construídos sobre o medievo ao longo do tempo. Desde a criação da ABREM, Associação Brasileira de Estudos Medievais, em 1996, até hoje, são mais de quatro décadas de pesquisa em História Medieval apenas no Brasil4, demonstrando a vivacidade e a intensidade do pensamento no campo dos estudos medievais, visto através de defesas de teses e dissertações e diversas publicações de revistas e livros.

A ideia dos usos da Idade Média tem sido bastante tematizada pela pesquisa acadêmica. Algumas publicações e eventos pensaram, ao longo das primeiras décadas do século XXI, como o cinema criou imagens, representações e tornou pública uma certa Idade Média5. O campo do Ensino tem sido, principalmente desde o final da década passada, constantemente pensado como um espaço de aprendizagem, de problematização e também de divulgação do medievo.

O espaço da escola, antes lugar de reprodução do imaginário sobre o medievo criado pelos iluministas, hoje tem se reportado à medievalística e não apenas produzido a crítica à ideia de Idade das Trevas, como também tem inserido uma série de outros sujeitos, temporalidades e temáticas nas aulas de História6. Em análise feita nos livros didáticos constantes no PNLD de 2008, apesar da manutenção do que chamamos de “dispositivo de medievalidade”7, já era possível ver abertura às “outras” Idades Médias. Tais mudanças podem ser vistas em muitos livros didáticos atuais, que têm capítulos referentes às mulheres, mentalidades, crianças, integrações e contatos, bem como problematizações do próprio conceito de Idade Média.

Discursos políticos e redes sociais: de nova a Idade Média problemática

A despeito dos avanços da historiografia e no ensino da história medieval nas escolas, um uso pouco elaborado e demasiado perigoso do medievo invade o nosso tempo, desde a política até as redes sociais. O elemento central de boa parte dessas narrativas é uma Idade Média Ocidental que seria sinônimo de um Ocidente cristão que combateu e impediu o avanço muçulmano para o interior da Europa. Desse modo, volta-se para o medievo a fim de se resgatar uma origem da civilização branca, cristã, masculina e ocidental, em oposição a tudo o que consideram ofensivo a esse estilo de vida: o islã, as mulheres, os gays, lésbicas, transsexuais, negros, indígenas, etc. De todas as Idades Médias possíveis, retorna exatamente aquela ressaltada e construída pelo renascimento e pelo iluminismo: violenta, obscurantista, intolerante. 

O medievalista Paulo Henrique de Carvalho Pachá8, por exemplo, publicou em março de 2019, um artigo de divulgação em que mostra como a expressão Deus Vult (Deus Deseja) tem sido apropriada pela extrema direita no mundo, desde a eleição de Donald Trump, nos EUA. Essa expressão consiste em um “grito de guerra” utilizado pelo povo, quando o Papa Urbano II exortou os fiéis à Cruzada contra os muçulmanos, no século XI. A apropriação de Deus Vult revela-se como uma tentativa da direita mundial de se identificar com uma origem de um mundo ainda intocado pelos desvios dos infiéis de todas as cepas. Ele remete à crença na Idade Média da Reconquista cristã, que teria enfrentado o islã com a Cavalaria templária, reordenando o mundo europeu em favor dos brancos e dos cristãos.

Em diversos grupos em redes sociais, percebe-se como os discursos têm operado, mesmo que muitas vezes através de um pretenso humor. Abundam comunidades e páginas (muitas ligadas a igrejas e grupos políticos) que fazem uso de memes que remetem ao medievo. Uma dessas comunidades está no Facebook: “Memes Nobres para Plebeus Ociosos”. Com mais de 220 mil membros, a comunidade produz memes e vídeos utilizando recortes de iluminuras medievais, sempre com um português muito formal e remetendo a um passado medieval abstrato: abundam o uso de ênclises e mesóclises, palavras em desuso, bem como a substituição da letra “u” pela letra “v”, tal como na escrita da Roma Clássica. As temáticas são variadas: desalentos de amor, castidade, trovadores, fogueiras para hereges ou bruxas, política brasileira, etc… Uma proposta de humor em muitos momentos bem-sucedida, ou seja, que consegue fazer rir.

Mas um olhar mais cuidadoso faz aparecer os discursos subjacentes, escondidos por detrás das pretensas ironias. Juntamente com a página, existe um grupo fechado chamado “Feudo Ocioso”, com mais de 36 mil membros, destinado a discussões gerais e ao envio de memes criados pelos seguidores, que podem ser postados na página oficial. Dentre muitas referências à ratos e à peste, ou a feiras e fantasias medievais, e apesar de uma das regras da comunidade proibir ataques às religiões, em nome da piada, quase tudo pode ser dito: matem os “sarracenos”, matem os “canhotos”, queimem as “bruxas”. São inúmeras postagens com memes que aludem à violência contra os diferentes, conclamando que Jerusalém seja reconquistada, ou que os verdadeiros homens cristãos que defendem a fé contra os hereges, de preferência queimando-os na fogueira. Nos comentários dessas postagens, abunda o Deus Vult.

Por uma outra Idade Média

Os estudos medievais apresentam uma Idade Média de uma longa duração, um passado que se abre para o estudo acadêmico sério e conceitual, e que permite pensar um espaço muito mais amplo do que o europeu e muito mais plural do que a religiosidade cristã. A Idade Média foi palco de criação das universidades, espaços de resistência e de inventividade; das heresias que ultrajaram o predomínio da Igreja Católica e propuseram formas diversas de pensar um conceito de Deus e de divindade; da literatura profana que, por fora dos limites impostos pela moral cristã, criou formas de sociabilidade e de relações amorosas que se alongam no tempo e nos permitem partilhar suas reminiscências; da filosofia de Abelardo que questionou os universais e deu novos contornos aos debates metafísicos no Ocidente; das mulheres escritoras, particularmente, Julian de Norwich (1342-1416) e Margery Kempe (1373-1438), estudadas na bela dissertação de Mestrado de Carolina Niedermeier Barreiro9

O passado não se constitui em monopólio do pensamento histórico ou da medievalística. O passado medieval é um campo aberto a todo o público de jogos, RPGs, filmes, séries e outras formas de acessar e de se relacionar com ele. Mas é um problema quando dessa gama incrível de imaginários, seleciona-se modos muito particulares, quase sempre sem qualquer referência ou conexão com a pesquisa acadêmica, de ver e entender o passado medieval, fazendo usos e abusos, como é o caso em questão, produzindo referências que servem como justificativas para a afirmação de discursos de ódio, de discriminação e de exclusão.

Idade Média imaginada
Eltz Castle, Wierschem, Alemanha. Foto: Sandra Ahn /Unplash.

As Cruzadas tornam-se, neste momento, um passado recuperado, agora não pela espada, mas pelo cano de uma arma de fogo, que quer fazer sucumbir a diferença. Em razão de que a diferença é vista como o que desagrega uma imaginada sociedade cristã ocidental, que teria resistido às invasões árabes e, no passado, teria permitido a construção de uma civilização branca, cristã, oposição a tudo que se desvia da moral cristã e dos modos de vida eurocêntricos. A Idade Média seria a origem mítica desse lugar que só existe na cabeça dos preconceituosos, racistas, islamofóbicos e homofóbicos. 

Esse evidente abuso que se está fazendo do passado medieval destoa do conceito de Deus criado, por exemplo, desde a “heresia” de Francisco de Assis, que nos apresentou um Deus Natureza, acontecimento efetuado em cada detalhe ou movimento da natureza, das plantas, dos animais, construído desde uma leitura ortodoxa do evangelho, que colidia diretamente aos modos de vida e de administração do Clero da época. Para Francisco, a liberdade de espírito, a defesa da natureza e a vida comunitária eram elementos centrais para se pensar uma religiosidade, desde um Deus que se poderia observar na encarnação de todas as coisas, sem distinções ou hierarquias.

A historiadora Chiara Frugoni10, estudiosa da vida de Francisco, mostra que, a propósito, se a Igreja levantava bandeira e espada para conquistar a Terra Santa e guerrear contra os muçulmanos, o propósito de Francisco era bem outro, como se pode ver na Regra 1221, Regula non bullata, o Santo aposta em um convívio entre os muçulmanos, “”sem brigas, nem disputas”. E ainda acrescenta que somente ““quando em situação de respeito mútuo poderiam tentar falar de Deus. Caso contrário, contentar-se-iam em dar bom exemplo”11.

Qual Idade Média é mais produtiva como experiência de aprendizagem para uma sociedade possível no presente, justa, solidária, igualitária e democrática? Se os resíduos medievais que temos hoje da vida, da obra, do pensamento de Francisco de Assis, que constituem um passado vivo, que insiste no tempo e que tem um uso com potencial ético para um futuro de tolerância, liberdade e democracia, ou a apropriação das Cruzadas e à referência ao Deus Vult como uso acrítico e político que enverga o passado para um lugar de opressão e de intolerância?

Notas

1 Do ponto de vista da história do Ocidente tivemos períodos muito ligados aos padrões de estilo artístico, chamados de Clássicos. O primeiro faz referência ao Classicismo greco-romano, que construiu um estilo baseado no equilíbrio e na representação simétrica e proporcional. Esse estilo greco-romano foi, no Renascimento (século XV-XVI), inspiração para a criação de um novo classicismo, desta vez como um modo de oferecer tributo ao pensamento e as artes greco-romanas, em detrimento da arte e do pensamento medieval, vistos como grosseiros e atrasados.

2 HILÁRIO, Franco Júnior. A idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001.

3 MACEDO, José Rivair (Org.). A Idade média portuguesa e o Brasil: reminiscências, transformações, ressignificações. Porto Alegre: Vidráguas, 2011. 216 p.

4 DA MOTTA BASTOS, Mário Jorge. Quatro décadas de História Medieval no Brasil: contribuições à sua crítica. Diálogos, Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História, UEM, v.20, n.3, p. 02-15, 2016.

5 Ver a publicação: MACEDO, José Rivair; MONGELLI, Lênia Márcia (Orgs.). A Idade Média no Cinema. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.

6 A primeira publicação sobre o tema abordou as representações da Idade Média nos livros didáticos de História, num período que vai do início do século XX até início do XXI: PEREIRA, Nilton Mullet; GIACOMONI, Marcello Paniz. Possíveis Passados: representações da Idade Média no Ensino de História. Porto Alegre: Editora Zouk, 2008.

7 O conceito “dispositivo de medievalidade” foi criado no âmbito da pesquisa realizada pelos dois autores deste texto, para explicar a disposição dos saberes e dos poderes que produziram modos muito particulares de se relacionar com a Idade Média, no interior da sala de aula de História. Dessa maneira, esse dispositivo constitui-se como um conjunto de práticas discursivas e não discursivas, que transitam por livros didáticos, planejamentos e currículos escolares, criando um imaginário sobre o medievo baseado no que foi produzido pelos iliministas. O elemento central consiste na criação de um outro, negativo, que serviu de base e justificativa para o universalismo pretendido pela razão do esclarecimento. 

8 Artigo disponível no site Pacific Standard pelo link:<https://psmag.com/ideas/why-the-brazilian-far-right-is-obsessed-with-the-crusades> Acesso em 22 de agosto, 2019.

9 BARREIRO, Carolina Niedermeier. Just because I am a woman… possibilidades de autoria para mulheres escritoras (Século XIV). Dissertação (Mestrado em História). PPG História (UFRGS). 174p. Disponível em: <https://lume.ufrgs.br/handle/10183/197084> Acesso em 22 de agosto, 2019.

10 FRUGONI, Chiara. A vida de um homem: Francisco de Assis. Tradução de Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

11 Uma outra face de Francisco de Assis. Entrevista especial com Chiara Frugoni. 02 Agosto 2015. IHU On line. http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/544964-a-outra-face-de-sao-francisco-de-assis-entrevista-especial-com-chiara-frugoni  Acesso em 22 de agosto, 2019.

Nilton Mullet Pereira é licenciado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992), Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1998) e Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2004). Pós-doutorado em História Medieval, na UFRGS. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da área de Ensino de História. Professor do Mestrado Profissional em ensino de História – UFRGS. Pesquisa as relações entre a imaginação e aprendizagem histórica.

Marcello Paniz Giacomoni é licenciado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2008), Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2011) e Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2018). Atualmente é Professor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisa as relações entre retórica e ensino de História e o uso de jogos no ensino de História.

Como citar este artigo

PEREIRA, Nilton Mullet; GIACOMONI, Marcello Paniz. A Idade Média imaginada: usos do passado medieval no tempo presente. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/usos-do-passado-medieval-idade-media/‎. Publicado em: 09 set. 2019.

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“Língua & Linguagem no Mundo Antigo” pode ser baixado legalmente no site da Editora Fi. Obra coletiva traz diversos artigos inéditos na área.

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A área de História Antiga no Brasil acaba de ganhar mais uma importante obra: “Língua & Linguagem no Mundo Antigo”, organizado pelos pesquisadores Anderson Zalewski Vargas, Katia M. P. Pozzer e Luis Carlos dos P. Martins está ao alcance de todos.

Publicado pela Editora Fi, o livro pode ser baixado gratuita e legalmente aqui – Todos os livros publicados pela editora Fi estão sob os direitos da Creative Commons 4.0. Também existe a edição impressa do livro, mas ela é paga, custando R$ 55,00. 

A história do livro

“Língua & Linguagem no Mundo Antigo” é composto por por dez artigos e dois textos de apresentação. O material é fruto do encontro Língua e Linguagem no Mundo Antigo, que ocorreu no final de 2015 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

História Antiga para download
Capa do livro, disponível para download gratuito.

O evento foi uma promoção do Departamento e Programa de Pós-graduação de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES),  do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/UFRGS, do Instituto de Artes – UFRGS e da Pró-Reitoria de Pesquisa (PROPESQ)-UFRGS.

Segundo os organizadores, “um dos aspectos centrais da atividade foi a homenagem à professora Loiva Otero Félix, responsável pela formação de muitos alunos no campo da História Antiga – todos os três autores desta apresentação são particulares devedores da professora Loiva. Além de nós, diversos profissionais já há tempo estabelecidos, também, são seus devedores, mesmo tendo seguido por variadas áreas do universo dos estudos, do magistério e de práticas profissionais de licenciados ou de bacharéis em História”.

Como citar esta notícia

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Livro de História Antiga para download gratuito (notícia). In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/historia-antiga-livro-gratuito/. Publicado em: 5 set. 2019.

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Estado de exceção: dez obras para entender o tema https://www.cafehistoria.com.br/estado-de-excecao-bibliografia-comentada/ https://www.cafehistoria.com.br/estado-de-excecao-bibliografia-comentada/#comments Mon, 02 Sep 2019 03:01:00 +0000 https://www.cafehistoria.com.br/?p=8455 "Vários pesquisadores, no Brasil e no mundo, têm se dedicado ao estudo do estado de exceção, sobretudo nas ciências jurídicas. Mas sua abordagem não é e não pode se resumir unicamente a uma noção técnica jurídica de avaliação das normas, carecendo de pesquisas que reflitam mais e melhor sobre sua adoção, sua justificação e sua estruturação, bem como revelando seus usos e seus abusos (um Estado democrático pode se tornar um Estado autoritário se recorrer frequentemente e sem justificativa plausível ao estado de exceção)."

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O estado de exceção é um fenômeno político e histórico que tem sido estudado por historiadores, cientistas políticas, legisladores, filósofos e especialistas de diversas outras áreas das humanidades. Se você tem interesse em estudar o tema, confira nossa bibliografia comentada.

Por Antonio Gasparetto Júnior

O “estado de exceção” é uma medida prevista em lei em muitos países, inclusive em países democráticos. Um Estado pode decretar um “estado de exceção” quando entender, por exemplo, que a sua soberania ou a ordem pública estão sob ameaça. Isso significa que determinadas leis e direitos fundamentais podem ser suspensos, passando o Estado a concentrar ainda mais poderes. Esse estado das coisas, porém, deve ser temporário – uma medida utilizada apenas em situações de emergência.

São inúmeras as experiências históricas de exceção no mundo, inclusive na Antiguidade: a formulação da noção de exceção costuma ser atribuída aos romanos. Sua aplicação, contudo, transformou-se bastante ao longo tempo, incorporando situações mais recentes, tais como declarações de estado de emergência, de guerra, de sítio, lei marcial e intervenções federais. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 não fala de “estado de exceção”, mas os os artigos 136 e 137 tratam do problema usando outra expressão mais ou menos equivalente, “estado de defesa”:

Estado de Exceção
Polícia Holandesa em ação. Foto: Ben Koorengevel, Unplash.

“Art. 136. O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, decretar estado de defesa para preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza. Art. 137. O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para decretar o estado de sítio […]”.

Vários pesquisadores, no Brasil e no mundo, têm se dedicado ao estudo do estado de exceção, sobretudo nas ciências jurídicas. Mas sua abordagem não é e não pode se resumir unicamente a uma noção técnica jurídica de avaliação das normas, carecendo de pesquisas que reflitam mais e melhor sobre sua adoção, sua justificação e sua estruturação, bem como revelando seus usos e seus abusos (um Estado democrático pode se tornar um Estado autoritário se recorrer frequentemente e sem justificativa plausível ao estado de exceção).

Em função da recorrência de casos de abusos desse expediente jurídico na história da América do Sul, vários de nossos vizinhos sul-americanos já se encontram bastante avançados em pesquisas que envolvem aspectos políticos, sociais e culturais da exceção. O Brasil, muito embora tenha recorrido largamente às práticas de exceção em sua história, ainda conhece muito pouco sobre os crimes cometidos, por exemplo, em períodos democráticos resguardados por um estado de exceção. De tal maneira, esta bibliografia comentada visa apresentar obras fundamentais para se compreender a extensão da temática e alertar para um urgente campo de pesquisa ainda pouco explorado sob aspectos mais amplos nas Ciências Humanas e Sociais no Brasil.

AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo, 2007.

Além de ser um dos filósofos mais instigantes da atualidade, Giorgio Agamben é uma referência obrigatória acerca da temática estado de exceção. Agamben classifica o estado de exceção como “a forma legal daquilo que não pode ter forma legal” ao analisar a contradição dos momentos extraordinários para suprimir as legalidades. Para isso, o filósofo italiano destrincha o pensamento do alemão Carl Schmitt1 e de seus estudos sobre ditaduras e noções de direito que teriam levado à instituição do estado de exceção como paradigma. Como obra fundamental para se entender o Estado e a política contemporânea, Agamben faz uma exposição das áreas mais obscuras do direito e da democracia, legitimando a violência e a arbitrariedade.

Ao ampliar o leque da exceção incluindo elementos como toques de recolher, pacotes econômicos, decretos e medidas provisórias e guerras preventivas, por exemplo, Agamben argumenta que o poder de regulamentação e controle não é mais excepcional, mas o padrão dos Estados nacionais modernos. A repercussão de sua obra o estabeleceu como fundamental referência contemporânea, mas também recuperou autores e análises de décadas e séculos anteriores para se entender melhor sobre a extensão do assunto.

SAINT-BONNET, François. L’État d’Exception. Paris: PUF, 2001.

Antes de Giorgio Agamben, todavia, o jurista francês François Saint-Bonnet já havia escrito uma obra extensa e necessária acerca do estado de exceção. Seu ponto de partida era compreender porque a questão do estado de exceção é repleta de problemas conceituais e políticos desde a Revolução Francesa, uma vez que era admitido sem dificuldades na época da República Romana. Por meio de um estudo histórico e teórico, Saint-Bonnet tenta dissipar as sombras do abuso de poder em torno do direito público da crise. Ainda sem tradução para o português, o jurista recupera as implicações da noção de exceção em Roma, na Idade Média e na Era Moderna, culminando na Revolução Francesa, quando o estado de exceção aparece nos domínios do Direito Constitucional, do Direito Administrativo e da Legislação de Exceção.

LAZAR, Nomi Claire. States of Emergency in Liberal Democracies. New York: Cambridge University Press, 2009.

Professora da Yale-NUS College, Nomi Lazar estimula o leitor a discutir e avaliar as emergências e o uso dos poderes emergenciais nos momentos anterior e posterior ao fato gerador. Isso porque esses poderes emergenciais estão presentes nas democracias liberais, ainda que sua natureza e justificativa sejam pobremente conhecidas. Sua obra procura mostrar como se pode evitar os perigos e as confusões inerentes à dualidade norma/exceção que domina o debate histórico e contemporâneo. Lazar sustenta que os valores liberais não precisam ser suspensos, mesmo em momentos de crise. O livro, também sem tradução para o português, é importante por destacar que o estado de exceção está presente nas democracias liberais, a espera de sua utilização.

GREENE, Alan. Permanent States of Emergency and the Rule of Law: constitutions in an age of crisis. Oxford: Hart, 2018.

Com uma das obras mais recentes desta lista, Alan Greene explora o impacto da noção de estado de emergência permanente na validade e na efetividade das normas constitucionais. O autor desafia a ideia de que muitas ordens constitucionais estão encarando estados de emergência permanentes por conta da natureza objetiva de ameaça aos Estados atuais, argumentando que a ameaça depende da subjetividade dos tomadores de decisão. De tal maneira, Greene busca refutar o desafio constitucional posto por Carl Schmitt de que todo o poder do Estado não pode ser coagido pela lei. A curiosa capa do livro é uma referência ao que denomina de “Buracos Negros Legais” (Legal Black Holes) e sua relação com os possíveis estados de exceção.

GARCÍA, Helena Alviar & FRANKENBERG, Günter. Authoritarian Constitutionalism: comparative analysis and critique. Northampton: Edward Elgar, 2019.

A única coletânea da lista é uma contribuição para a análise e crítica do constitucionalismo autoritário como um importante fenômeno não afastado do constitucionalismo liberal. O livro reúne 14 estudos que cobrem uma variedade de regimes autoritários passando por Hungria, África do Sul, China, Venezuela, Síria e Argentina, por exemplo, além de discutir o renascimento de agendas e movimentos autoritários, como o populismo, o trumpismo, o nacionalismo e a xenofobia. Partindo de diferentes perspectivas teóricas e com autores que também figuram nesta relação bibliográfica, a obra busca elucidar como o poder autoritário é constituído, exercido e transferido nas diferentes configurações da participação popular, nos imperativos econômicos e nas comunidades imaginárias.

LOVEMAN, Brian. The Constitution of Tyranny: regimen of exception in Spanish America. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1993.

Autor da mais antiga obra desta relação, Brian Loveman, Professor emérito da San Diego University State, produziu um importante estudo sobre os regimes de exceção na América Espanhola traçando as origens e a função desse mecanismo institucional de legitimação da repressão política. Loveman argumenta que há uma fundamentação legal para a ditadura na América Latina e que ignorar essa infiltrada tradição seria ingenuidade sobre esse enraizado constrangimento da democracia que facilitaria a participação militar e a limitação das liberdades civis e dos direitos humanos.

Estado de Exceção - ordem publica
Estado de Exceção pode ser utilizado para manter a ordem. Foto: Dawn Armfield, Unplash.

Sem abolir ou limitar severamente os regimes de exceção, conforme o autor, não se alcançará a democracia ou uma ordem constitucional. Para se chegar às ditaduras da segunda metade do século XX na América do Sul, o autor traça as formas legais pelas quais o autoritarismo se estabeleceu na região desde a formação de suas Repúblicas.

JÁCOME, Jorge González. Estados de Excepción y Democracia Liberal en América del Sur: Argentina, Chile y Colombia (1930-1990). Bogotá: Pontifícia Universidad Javeriana, 2015.

Aprofundando em casos específicos da América do Sul, Jorge González Jácome aborda a maneira como as críticas ao liberalismo e à democracia impactaram as ideias teórico-constitucionais sobre os estados de exceção na Argentina, no Chile e na Colômbia entre 1930 e 1990. O livro convida a compreender a história jurídica dos respectivos países a partir da conexão da política com o direito e da construção global e local do direito. De tal modo que os argumentos sobre o estado de exceção se conectaram de diversas formas com as distintas ideologias políticas da região e o pensamento constitucional criou linguagens genéricas globais ao mesmo tempo em que permitiram aos juristas e intelectuais interpretações locais. O livro é uma interpretação específica de como o Direito Constitucional construiu o seu próprio espaço político.

TAVARES, Marcelo Leonardo. Estado de Emergência: o controle do poder em situações de crise. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008.

Finalmente inserindo um estudo brasileiro na relação, a obra em questão, como ocorre na maioria dos casos, é fruto das ciências jurídicas. Originalmente elaborado como tese de doutoramento, Marcelo Tavares produziu um importante estudo sobre os limites jurídicos das medidas de exceção adotadas pelo Estado de Direito. O autor buscou estabelecer posições de barragem ao arbítrio com base em parâmetros democrático-liberais para a ação executiva de emergência. Ou seja, Tavares não desconsidera permitir ao Estado oportunidades de defesa contra ameaças que coloquem em risco a sua existência. A relevância de sua obra reside na releitura histórica das Constituições brasileiras apontando a evolução das suas respectivas normas para as situações de emergência. É um livro tecnicamente importante e muito bem articulado com fundamentações históricas e filosóficas.

MARQUES, Raphael Peixoto de Paula. Repressão Política e Usos da Constituição no Governo Vargas (1934-1937). Curitiba: Prismas, 2016.

Por fim, o livro de Raphael Marques é uma singular e valiosa contribuição acerca da prática do estado de exceção em um regime democrático no Brasil. Marques, que também possui formação nas ciências jurídicas, se debruçou sobre o conturbado governo de Getúlio Vargas entre 1934 e 1937 para avaliar as complexas relações entre direito e política no período. Com base nos pressupostos constitucionais, Vargas teria se beneficiado das normas para a repressão de seus adversários e para preparar o terreno para a sua escalada para o Estado Novo, recorrendo ao estado de sítio e ao estado de guerra como aplicabilidades do estado de exceção. Trabalhos como esse são urgentes no Brasil, avaliando os usos da exceção e sua extensão na vida política e social brasileira.

GASPARETTO JÚNIOR, Antonio. Atmósfera de Plomo: las declaraciones de estado de sitio en la Primera República brasileña. Valência: Tirant lo Blanch, 2019.

Encerrando com uma notória ousadia, o livro em questão é fruto de uma tese de doutoramento em História que retoma a questão do estado de exceção no decorrer da Primeira República brasileira. Período marcado pela recorrência da utilização do instituto do estado de sítio mais do que em qualquer outro momento da República no Brasil, o assunto ainda não havia recebido qualquer atenção específica acerca de suas implicações políticas e sociais. A obra em questão revela, então, os usos e os abusos da referida norma constitucional que viabilizou o arbítrio na repressão das oposições políticas e de grupos sociais indesejados no Brasil do período. O trabalho conquistou o segundo lugar no Premio de Investigación Doctoral en Historia del Derecho en América Latina.

Notas

[1] Nas décadas de 1920 e de 1930 Carl Schmitt foi um dos mais proeminentes juristas da Alemanha, quando formulou suas teorias a respeito do estado de exceção, das formas da ditadura, da dualidade amigo/inimigo e do papel do soberano. Sua noção de estado de exceção aparece espalhada em várias obras das referidas décadas, sendo uma referência crucial para se entender a questão no período. Schmitt seria vinculado, inclusive, à elaboração de um arcabouço teórico-jurídico de sustentação para a Alemanha nazista.

Antonio Gasparetto Júnior é professor substituto no Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste MG – Campus Juiz de Fora), professor formador na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor efetivo de Educação Básica no estado de Minas Gerais (SEE/MG). Doutor (2018), Mestre (2014), Bacharel e Licenciado em História (2010) e Bacharel em Administração Pública (2017) pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com estágio de doutoramento (Chercheur Invité) na École Doctorale d’Histoire Moderne et Contemporaine da Université Paris IV – Sorbonne (2015-2016). Pesquisador integrado ao Laboratório de História Política e Social (LAHPS) e do Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade (LEPCON). Membro da Associação Nacional de História (ANPUH), da Association des Jeunes Chercheurs en Histoire (AJCH) e da Association Française des Jeunes Historiens du Droit (AFJHD). É secretário geral da rede internacional de pesquisa “Direitas, História e Memória” (https://direitashistoria.net/) e coordenador do respectivo Grupo de Trabalho (GT/ANPUH) nacional. Conquistou o segundo lugar do Premio de Investigación Doctoral en Historia del Derecho en América Latina (Valência/ESP, 2019). É autor de Atmósfera de Plomo (Tirant lo Blanch, 2019), História Constitucional Brasileira: usos e abusos das normas (Multifoco, 2017) e Direitos Sociais em Perspectiva (Fino Traço, 2014). Desenvolve pesquisas sobre história do direito, estado de exceção, autoritarismo e administração pública no Brasil República. Contato: antonio.gasparetto@gmail.com.

Como citar esta bibliografia comentada

GASPARETO JÚNIOR, Antonio. Estado de exceção: dez obras para entender o tema. (Bibliografia Comentada). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/estado-de-excecao-bibliografia-comentada/. Publicado em: 02 set. 2019.

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Escravidão e memória: as transformações recentes no espaço público espanhol https://www.cafehistoria.com.br/antonio-lopez-memoria-do-colonialismo/ https://www.cafehistoria.com.br/antonio-lopez-memoria-do-colonialismo/#comments Mon, 26 Aug 2019 14:28:57 +0000 https://www.cafehistoria.com.br/?p=8405 A cidade de Barcelona possui uma memória social que extrapola o 11 de setembro de 1714, a Guerra Civil e os crimes do franquismo. Entenda como a retirada da estátua de António López y López, traficante de escravos espanhol, ampliou debate sobre o lugar de certos passados sensíveis no espaço público.

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A cidade de Barcelona possui uma memória social que extrapola o 11 de setembro de 1714, a Guerra Civil e os crimes do franquismo. Entenda como a retirada da estátua de António López y López, traficante de escravos espanhol, ampliou debate sobre o lugar de certos passados sensíveis no espaço público.

Por Caroline Silveira Bauer

Especial “Passados presentes da Espanha”

Se algum dia você estiver em Barcelona e caminhar pela área central da cidade, poderá encontrar vestígios da ocupação de seu território durante o Império Romano, passando por igrejas românicas e góticas, caraterísticas do medievo, atravessando a Barcelona pré-industrial do século XVIII, até chegar aos prédios modernistas do final do XIX ou à cidade planejada pelo urbanista Idelfons Cerdà, dividida em “ilhas” – quadras octavadas com praças em seu interior.

Nessa possível caminhada por Barcelona, você poderá também encontrar refúgios antiaéreos construídos para abrigar a população civil dos bombardeios durante a Guerra Civil (1936-1939); a prisão conhecida como Modelo, um dos principais presídios políticos, localizado no centro da cidade; o parapeito em frente ao mar, onde os republicanos foram fuzilados ao longo da ditadura franquista; ou a fossa comum existente em Montjuic, para onde seus corpos eram levados.

Estátua de Antonio López, em Barcelona. Wikipedia Commons.
Estátua de Antonio López, em Barcelona. Wikipedia Commons.

Por outro lado, você não verá mais a estátua de Francisco Franco e outros símbolos franquistas que foram retirados das ruas e dos prédios públicos. E, desde o início de março de 2018, nenhum caminhante verá a estátua do traficante de escravos Antonio López y López, para quem os cidadãos também disseram “adeus” recentemente, em um enfrentamento à memória do colonialismo e do tráfico de africanos escravizados.

Caminhar por Barcelona nos permite reconhecer e problematizar lugares de memória enquanto patrimônios culturais da sociedade espanhola, aproximar-se dos conflitos por seus significados, das “batalhas de memória”. Preservar para quê, para quem? Esquecer com qual objetivo? Lembrar sempre. Mas lembrar o quê? Estas são as questões que orientam este artigo.

Façamos festa. Façamos história. Retiremos a estátua de López y López.

Na manhã de domingo do dia 4 de março de 2018, aproximadamente 200 pessoas participaram da “festa de despedida” da estátua de Antonio López y López. Toda a festividade foi comandada por Tamara Ndong, apresentadora guineense residente em Barcelona. Diversas pessoas lembraram o que é o racismo e o que significa viver sob a condição de racializados.

Oficinas para confeccionar cartazes, embaladas por percursionistas e pelas músicas do grupo senegalês Djilandiang e do coletivo catalão de atores e músicos de fanfarra Always Drinking Marching Band, precederam a retirada da estátua. A companhia Els Comediants realizou uma performance, infiltrando-se entre os funcionários que içavam a figura de López e preparavam seu transporte, conferindo comicidade ao ato. Quando o caminhão em que foi depositada preparava-se para partir, ao som de uma versão reggae da ópera “Carmina Burana”, confetes foram lançados pelos presentes e fogos de artifício encerraram a despedida de Antonio López y López.

Diversas pessoas envolvidas com a discussão sobre a memória foram responsáveis pela idealização do ato de retirada da estátua, que interrompeu o tráfego de uma das avenidas de maior circulação de Barcelona, atendendo a uma demanda histórica de diferentes organizações da sociedade civil. A retirada da estátua de Antonio López y López pode ser entendida, desta forma, como um ato de reparação, de reconhecimento e de celebração – em um sentido de subverter certos sentidos do passado. 

Em 2010, López já havia deixado de ser nome de rua. Agora, chegara a vez da estátua. A retirada da homenagem foi realizada pelo Comissionat de Programes de Memòria do Ajuntament de Barcelona [Secretaria de Programas de Memória da Prefeitura de Barcelona]. Pelo Twitter, a cobertura da “despedida” de Antonio López y López foi acompanhada da hashtag #AdeuAntonio.

Os familiares do homenageado solicitaram que o Ajuntament lhes entregasse a estátua para que pudessem colocá-la em Comillas, sua cidade natal. Entretanto, seu destino acabou sendo o depósito do Museu d’Història de Barcelona [Museu de História de Barcelona], sem acesso ao público. Está ao lado da estátua equestre de Francisco Franco, ex-ditador espanhol, retirada do Castelo de Montjuic, e da alegoria Vitória, que simbolizava a vitória de Franco, retirada de uma praça do centro da cidade.

Quem foi Antonio López y López e por que foi homenageado?

Antonio López y López nasceu na cidade de Comillas, na Cantabria, em 1817, em uma família de escassos recursos financeiros. Em uma tentativa de melhorar sua condição econômica, migrou para o México e, depois, para Cuba, onde, juntamente com outros sócios, tornou-se cafeicultor e canavieiro. Contudo, sua riqueza foi feita pelo tráfico e contrabando de pessoas oriundas da África. López recebia os africanos escravizados, que desembarcavam ilegalmente em Cuba na costa leste da ilha, e vendia-os em diversas cidades.

É importante lembrar que o comércio de africanos escravizados foi uma das atividades mais lucrativas nos séculos XVIII e XIX. Ainda que o tráfico estivesse proibido no Atlântico Norte pela Inglaterra desde 1807, e na Espanha desde 1837, o contrabando foi uma realidade, ainda mais porque a escravidão permaneceu uma prática legal em Cuba até 1879. Esse crime, que alimentava todo um esquema de corrupção, dificilmente era punido.

Anúncio no Twitter da retirada da estátua de Antonio López. Fonte: Twitter.
Anúncio no Twitter da retirada da estátua de Antonio López. Fonte: Twitter.

Em 1856, López retornou à Barcelona, e passou a se dedicar ao comércio exterior, negociando com colônias, e ao ramo financeiro, fundando um banco. Sua fortuna possibilitou, também, atividades de mecenato, ou seja, patrocínio de arte e cultura. Antonio Gaudí, famoso arquiteto catalão e figura de ponta do Modernismo catalão, foi um dos seus beneficiados.

Por sua trajetória, o rei Alfonso XII, seu amigo pessoal, conferiu-lhe o título de Marquês de Comillas, em 1878, e de Grande de España, em 1881. O clérigo Jacint Verdager escreveu e lhe dedicou o poema épico L’Atlàntida, escrito em 1877.

López morreu em 16 de janeiro de 1883, em Barcelona, deixando um grande patrimônio para seus descendentes. Após sua morte, uma comissão de notáveis se organizou para renomear a Plaza de San Sebastián para “Plaça Antonio López”, e colocar uma estátua, que foi feita por Venanci Vallmitjana. Foi inaugurada em 13 de setembro de 1884, sendo os custos bancados por admiradores de López a partir de um financiamento coletivo. A iniciativa foi idealizada por seu filho Claudi López, e apoiada pelo Ajuntament (uma espécie de câmara municipal) de Barcelona, que desenvolvia, à época, uma política de “embelezamento” do espaço público, incorporando os personagens contemporâneos às nomenclaturas de ruas e praças. O local escolhido situa-se próximo ao porto, fazendo alusão às empresas comerciais e de viagem marítimas de propriedade de López.

A estátua retirada da praça não é a original de bronze. Com a Guerra Civil de 1936, a original foi fundida e transformada em material bélico, como rechaço à homenagem à López. Posteriormente, em 1944, o regime franquista financiou uma réplica, colocando-a no local original.

Colonizadores, colonizados e a memória sobre o colonialismo

Como costuma acontecer em iniciativas relacionadas à memória, não houve unanimidade em relação ao processo da “deshomenagem” à López. A Associación Catalana de Capitanes de la Marina Mercante (ACCMM) lamentou a iniciativa, negando que López fosse um “negreiro”, como afirma a narrativa do Ajuntament. O Partido Popular (PP) em Cantabria também manifestou seu repúdio à decisão de retirada da estátua, afirmando que demandaria ao Ajuntament que a mantivesse em seu local original, pois seria uma ofensa àquela região espanhola.

A alcaldesa [prefeita] de Comillas justificou a permanência da homenagem afirmando que o tráfico de escravizados no século XIX não era uma prática ilegal. E aqui está a diferença entre a ilegalidade e a imoralidade, e quais os valores éticos e morais pelos quais se seguem homenageando determinadas pessoas na democracia.

O que significa para sociedades colonizadoras ou colonizadas e escravocratas manter em seus espaços públicos homenagens ao colonialismo e à escravidão? A retirada da estátua de Antonio López y López se insere em um conjunto de iniciativas do Ajuntament de Barcelona em refletir sobre a transmissão de memórias sobre o colonialismo, principalmente em sua expressão através de símbolos presentes em espaços públicos.

A prefeitura da cidade tem desenvolvido iniciativas para que outras memórias, que não as dos escravistas, possam ocupar o espaço público, incitando discussões sobre as consequências e o legado dessas práticas, sobre quem são os beneficiários e como se beneficiaram. A partir desses debates, problematiza-se o que deve ser transmitido como história e memória às novas gerações e, da mesma forma, evidencia-se as dimensões políticas que circunscrevem os atos de lembrar e de esquecer a partir da instrumentalização e dos usos do passado.

Retirada da escultura de Antonio López, primeiro Marquês de Comillas. Foto: Twitter / Ayuntamiento de Barcelona.
Retirada da escultura de Antonio López, primeiro Marquês de Comillas. Foto: Twitter / Ayuntamiento de Barcelona.

Os relatos alternativos em relação ao passado colonial espanhol estimulam práticas de resistência para a reestruturação das narrativas. Esse movimento é acompanhado por demandas que vêm sendo colocadas por movimentos identitários, questionando uma escrita da história e uma transmissão da memória cultural hegemonicamente brancas.

A ideia de “deshomenagear” López a partir de uma “festa de despedida” não possui uma conotação de melancolia ou tristeza, que costumam caracterizar esses eventos, mas sim de alegria, porque a ciudadanía não o queria mais ali. Retirar Antonio López y López do espaço público, retirar a homenagem que lhe foi outorgada, e guardá-lo em um depósito, sem acesso ao público, é um ato de combate e de reescrita da história a partir de um outro presente mais preocupado com a diversidade étnica e cultural.

O ato de retirar a estátua do espaço público possui uma forte carga simbólica, pois significa retirar a função pedagógica de exemplaridade que as estátuas e os monumentos possuem enquanto homenagens. Entretanto, o pedestal em que estava a estátua foi deixado na praça, e nele podemos ler a frase elogiosa a López escrita pelo rei Alfonso XII em telegrama enviado à família por ocasião de sua morte em 1883: “España ha perdido uno de los hombres que más grandes servicios le han prestado” [A Espanha perdeu um dos homens que mais e melhores serviços lhe prestaram]. A permanência melancólica de um pedestal sem estátua, com essa avaliação moral de López, serve para que se lembre que, em determinadas conjunturas históricas, certas instituições homenagearam traficantes de escravizados.

A próxima ação do Ajuntament em relação ao tema é realizar uma consulta para que os cidadãos decidam o novo nome da praça. Isso atende a uma demanda apresentada através de um abaixo-assinado com 17.840 assinaturas, sugerindo que a praça passe a se chamar Idrissa Diallo, em homenagem a um imigrante guineense que morreu no Centro de Internamiento de Extranjeros (CIE) em 2012, esperando para ser deportado para a Guinea.

Outros países da Europa, como Bélgica e Inglaterra, também têm desenvolvido iniciativas em relação ao seu passado colonial. Inserem-se nas chamadas “políticas de memória”, conjunto de ações elaboradas pelos Estados como políticas públicas para garantir processos individuais e coletivos de reparação, reconhecendo determinados fatos e permitindo que distintas memórias sobre passados traumáticos ganhem espaço público e legitimidade.

Barcelona segue com seus debates sobre sua história e memória coloniais e enfrentará, nos próximos anos, um grande desafio, localizado no final das famosas Las Ramblas, que um caminhante em direção à praia ainda encontra, sobre uma coluna de 57 metros, apontando, dedo em riste, para o Mediterrâneo, a África e a América: Cristóvão Colombo.

Referências bibliográficas

JELIN, Elizabeth (comp.). Las conmemoraciones: las disputas en las fechas “infelices”. Madrid: Siglo XXI, 2002.

LAVABRE, Marie-Claire. La memoria fragmentada ¿Se puede influenciar la memoria? Antropol. sociol., n. 11, p. 20, jan-dez 2009.

RODRIGO, Martín, CHAVIANO, Lizbeth (orgs). Negregos y esclavos: Barcelona y la esclavitud atlântica (XVI-XIX). Barcelona: Icaria, 2017.

Caroline Silveira Bauer é professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora visitante da Universitat de Barcelona (2018-2019). Integra o Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (Luppa). É pesquisadora do CNPq.

Como citar este artigo

BAUER, Caroline Silveira. Escravidão e memória: as transformações recentes no espaço público espanhol (Artigo). In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/antonio-lopez-memoria-do-colonialismo/. Publicado em: 26 ago. 2019. Acesso: [informar data].

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O revisionismo histórico húngaro e o fantasma do Holocausto https://www.cafehistoria.com.br/revisionismo-hungria-monumento/ https://www.cafehistoria.com.br/revisionismo-hungria-monumento/#comments Mon, 19 Aug 2019 16:39:16 +0000 https://www.cafehistoria.com.br/?p=8412 Atual governo húngaro do Primeiro Ministro Viktor Orbán investe em interpretações do passado que minimizam judeus e alianças com nazistas. Monumento governista foi contestado com contramonumento.

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Atual governo húngaro do Primeiro Ministro Viktor Orbán investe em interpretações do passado que minimizam judeus e alianças com nazistas. Monumento governista foi contestado com contramonumento.

Por Alexandre de Sá Avelar

A Hungria é um país da Europa Central ainda pouco estudado no Brasil. Pertenceu ao bloco soviético durante a Guerra Fria, faz fronteira com sete outras nações (Romênia, Eslováquia, Áustria, Sérvia, Croácia, Ucrânia e Eslovênia) e é governada desde 2010 pelo Primeiro Ministro Viktor Orbán, do partido Fidesz, abertamente conservador e direitista.

Desde sua chegada ao poder, Orbán vem se esforçando para promover uma profunda transformação cultural no pais. Esta “nova era”, como muitos a chamam, tem como um dos seus pilares um amplo revisionismo histórico que toca em temas sensíveis do passado húngaro. Neste artigo, o primeiro de uma série especial de três artigos intitulada “Revisionismos Históricos na Hungria Contemporânea”, meu objetivo é discutir a criação de um monumento, no ano de 2014, em homenagem às vítimas da ocupação alemã ocorrida em 1944 e as reações provocadas por essa iniciativa.

O monumento

No último dia de 2013, o governo Orbán assinou um decreto para a construção de um monumento em memória dos 70 anos da ocupação da Hungria pelas tropas alemãs, durante a Segunda Guerra Mundial. A obra deveria ser concluída até março do ano seguinte e tamanha rapidez demonstrava a importância que o regime conferia à efeméride que se aproximava. Houve dispensa de licitação para a escolha da empresa construtora e a documentação do projeto ficou pronta em meados de janeiro.

Monumento às vítimas da ocupação do território húngaro pelas tropas alemãs. Foto de Ágnes Erőss
Monumento às vítimas da ocupação do território húngaro pelas tropas alemãs. Foto de Ágnes Erőss

Assim que os planos do governo Orbán se tornaram públicos, grupos políticos, artistas, ONGs, historiadores, e especialmente a comunidade judaica de Budapeste, se levantaram contra esse lugar de memória que pretendia homenagear “todas as vítimas” da ocupação alemã. A força das críticas levou Orbán a suspender a construção do monumento até 31 de março de 2014 e a se comprometer a dialogar com a comunidade judaica.

Entretanto, dois dias após a vitória do Fidesz nas eleições legislativas de 8 de abril, a obra foi retomada sem aviso e as últimas partes foram colocadas na noite de 20 de julho. Não houve inauguração oficial e nenhuma cerimônia pública foi realizada, o que não esfriou a resistência da oposição, que culminou na constituição de um monumento alternativo – ou contramonumento – à construção tão desejada por Orbán.

Mas quais as razões de tantas controvérsias? Por que um monumento que homenageia “todas as vítimas” da ocupação nazista da Hungria foi considerado um problema? Não seria um monumento como este algo positivo para os húgaros? Quais foram as críticas que mobilizaram tantos grupos da sociedade húngara contra o monumento e como ele se inscreve no revisionismo histórico em curso desde 2010 no país?

A Hungria de Orbán: vítima e e guerreira

Orban ocupou o cago de Primeiro Ministro da Hungria pela primeira vez no período 1998-2002. Em 2010, ele foi eleito pela segunda vez. Seu regime tem procurado se apresentar aos seus cidadãos como o representante legítimo da luta por um país soberano e independente. Se essa luta tem, nos dias de hoje, a União Europeia e o liberalismo ocidental como alvos a serem combatidos, ao longo da história outras foram as fontes de opressão sobre a nação húngara, como as ocupações nazista e soviética.

Este é um dos pontos mais importantes do revisionismo histórico do regime de Orbán: nele, a nação húngara é historicamente vítima de agentes externos, especialmente turcos, alemães e russos, que infligiram incontáveis sofrimentos ao seu povo – e toda vítima, como sabemos, é aquela pessoa (ou coletividade) que apenas sofre.  

A história húngara é, sob essa perspectiva, uma história dos males causados por outros impérios e nações. Mas não é só isso. Atacado por agente externos, o passado húngaro tem além de vítimas, inúmeros “guerreiros da liberdade” que lutaram pela libertação dos húngaros dos muitos grilhões que os aprisionavam. Como bem definiu a historiadora Andrea Pető, a identidade nacional é apresentada pelo Fidesz como “uma comunidade de sofrimento e uma compreensão anti-pluralista da coletividade”.

Do passado recente, a ocupação alemã é o evento que mais tem mobilizado o revisionismo de Orbán. O país foi ocupado em 1944 e a presença dos nazistas no território húngaro marcou o fim da soberania nacional, além de marcar uma escalada de opressão que se acentuou durante a vigência do regime comunista, a partir de 1945. Apenas em 1990 os húngaros recuperariam sua liberdade com a eleição dos primeiros representantes do Parlamento após o fim do socialismo no país. Essa interpretação do passado se tornou oficial, estando inscrita em um preâmbulo da Constituição ultraconservadora de 2011.

Reabilitação do Almirante Miklós Horthy

Uma outra faceta do revisionismo histórico na Hungria contemporânea é a reabilitação do regime do Almirante Miklós Horthy. Militar de carreira, Horthy assumiu o poder na Hungria em 1920, após um golpe contra o breve governo socialista de Béla Kun, e logo assumiu posturas cada vez mais autoritárias, com perseguições a socialistas, liberais e judeus, no que ficou conhecido como “Terror Branco”.

Sob a liderança de Horthy, a Hungria assinou alianças com a Itália fascista e a Alemanha nazista em 1927 e 1939, respectivamente. Partes perdidas do território húngaro foram recuperadas, e o regime e o seu regente passaram a ser exaltados nos círculos mais autoritários e nacionalistas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, mesmo aliado ao Eixo, tentou negociar um acordo de paz com os Aliados, o que provocou a invasão das tropas alemãs em 1944 e a ocupação do território húngaro, acelerando o processo de deportação de judeus.

No mesmo ano de 1944, Horthy é derrubado pelos nazistas e, com a derrota de Hitler e o fim da guerra, a Hungria entrou definitivamente na órbita soviética dentro da geopolítica da Guerra Fria. Interrompia-se, na ótica revisionista, o breve período em que a soberania húngara havia sido reconquistada e iniciava-se mais um longo período de opressão externa.

Orbán tem tentado nos últimos anos reabilitar o Almirante Horthy, transformando o seu governo em um dos marcos da luta dos húngaros pela soberania, após a queda do Império Otomano e as perdas territoriais resultantes do Tratado de Trianon.1

Nessa releitura do passado, Orbán pode se posicionar como o continuador da eterna batalha pela total independência da Hungria, sempre em risco em função dos inimigos externos. Nessa reconexão entre passado e presente, Horthy é designado pelo regime de Orbán como o governante que restabeleceu a unidade nacional no período pós-Primeira Guerra em meio à desintegração territorial e à cobiça internacional.

O revisionismo histórico desloca o governo de Horthy do contexto da Segunda Guerra e o insere em uma sequência de acontecimentos que formam o sentido mais profundo da nação húngara. Em um discurso de 2017, após apresentar as décadas de 20 e 30 como uma “pedra fundamental” da história húngara e Horthy como um “excepcional estadista”, Orbán minimizou a política do Estado húngaro durante a Segunda Guerra, pois a “história não nos enterrou sob o peso da guerra perdida” – declaração que implica a desconsideração de sua aliança com o Eixo antes da ocupação alemã e, sobretudo, da sua eventual responsabilidade pela deportação dos judeus (a Hungria possuía leis antissemitas desde 1938).

O monumento instalado em 2014 é, deste modo, uma parte integrante e fundamental desse processo revisionista de reabilitação do governo de Horthy. A construção mostra uma gigantesca águia se lançando contra o indefeso anjo Gabriel. Não é difícil perceber que essa imagem simboliza o ataque alemão sobre a Hungria, vítima de uma nação militarmente mais forte. A narrativa aí exposta se conecta plenamente com a interpretação do passado húngaro como um acervo de derrotas e espoliações.

Ao homenagear “todas as vítimas” da ocupação pelas tropas nazistas, Orbán promove dois potentes movimentos revisionistas: de um lado, assinala que a invasão alemã marca o fim trágico do bravo governo nacionalista de Horthy que, por mais de duas décadas, esforçou-se em restaurar as fronteiras húngaras dilaceradas pelo Tratado de Trianon; por outro, iguala nazismo e comunismo como duas ideologias estrangeiras opressoras que foram as responsáveis, no século XX, pela perda da soberania húngara.

O contramonumento

O monumento provocou reações bastante ásperas contra o governo de Orbán. Do ponto de vista dos historiadores, a construção é vista como uma grosseira tentativa de transformar todos os habitantes da Hungria em vítimas da opressão nazista, ignorando a parte da população que colaborou com os alemães ou que se beneficiou desta ocupação.

De modo enfático, Krisztián Ungváry, afirma, em uma entrevista ao jornal francês Libération, que “99% das vítimas eram judeus deportados por autoridades húngaras entusiastas que procuravam, antes de embarcá-los, se assegurarem de que as contas de eletricidade e de luz estavam quitadas”. E sobre a população que se apropriou dos bens dos judeus deportados, diz Ungváry, “é pouco razoável que ela tenha se sentido oprimida”.

O ponto central das críticas ao monumento reside, portanto, na relativização ou mesmo negação da responsabilidade do Estado e da sociedade civil húngara na deportação dos judeus – mais de 500 mil judeus húngaros foram mortos durante a guerra nas mãos de nazistas e húngaros, o que faz com que a homenagem de Orbán a “todas as vítimas da ocupação” seja vista como uma manobra política a fim de diluir ou minimizar o papel da Hungria e dos húngaros no Holocausto.

Uma carta aberta assinada por diversos intelectuais, situados dentro e fora da Hungria, apresenta o monumento como portador de uma visão falsificada da história, pois anula a diferença, na figura do anjo Gabriel, entre as vítimas e seus algozes internos. Os seus signatários ainda afirmam que os usos do passado pelo governo de Orbán poderão não deixar espaço para pesquisas independentes e “sem entraves” sobre o Holocausto.

A Federação das Comunidades Judaicas da Hungria emitiu declarações na mesma direção e, mais, recusou-se a participar de qualquer solenidade pública promovida pelo governo sobre os 70 anos da ocupação da Hungria pelas tropas alemãs.

A resposta de Orbán foi, como era de se esperar, evasiva. O monumento, segundo o primeiro-ministro, não era dedicado ao Holocausto, mas tão somente à lembrança do sofrimento causado a todos os húngaros, judeus ou não, e à perda da soberania do país. Orbán nunca afirmou que não houve colaboração das elites húngaras com a deportação dos judeus, mas, por outro lado, enfatizou que a perda de tantas vidas não teria ocorrido sem a ocupação alemã.

Monumento e Contramonumento

Essas reações contra o revisionismo contido no monumento foram acompanhadas de uma outra, de maior visibilidade e que persiste até os dias de hoje. Trata-se da edificação de um contramonumento exatamente em frente à construção erguida de modo quase invisível pelo regime de Orbán. Mas o que seria um “contramonumento”?

Um contramonumento é um lugar de memória que confronta a narrativa memorial oficial a partir de formas estéticas distintas dos tradicionais monumentos nacionais, convidando os visitantes a usarem os seus sentidos para descobrirem novos significados e a construir suas próprias interpretações dos eventos e dos sujeitos comemorados. É uma reação que exprime novas representações e expressões acerca do passado.

No caso do contramonumento construído em frente ao monumento de Orbán, sua origem pode ser remontada a um protesto convocado por ativistas, em março de 2014, através das redes sociais, no qual as pessoas eram convidadas a trazer objetos que pudessem se contrapor à narrativa oficial. Centenas de pessoas atenderam à convocação e depositaram pertences variados em frente ao monumento ainda não inaugurado.

Negacionismo Histórico - Revisionismo
O “Memorial Vivo”. Foto: grupo Eleven Emlékmű. Facebook.

A iniciativa ganhou repercussão e cresceu, sobretudo a partir de julho, quando o contramonumento já era denominado de “Monumento Vivo”. Seu acervo é composto por sapatos, fotografias, bolsas, pedras com os nomes de judeus mortos e a data do desaparecimento, e mesmo com recortes com manchetes de jornais húngaros do ano de 1944. Em um deles, pode-se ler: “Os judeus se mudaram. Não precisamos nos lamentar por eles. Centenas de milhares de nossos irmãos húngaros vivem em condições piores”.

Duas cadeiras são dispostas como um convite a todos que desejem conhecer o Monumento Vivo ou debater sobre a história da deportação dos judeus húngaros. Sobreviventes do Holocausto e historiadores palestram no local e oferecem uma versão da ocupação alemã distinta daquela contada pelo monumento oficial. Eis o passado em disputa, em praça pública, envolvendo duas narrativas opostas e situadas a pouquíssimos metros uma da outra.

O monumento alternativo desafia o oficial com suas mensagens, conteúdo e estética. Deslocando o foco para as memórias familiares e individuais do passado, há a produção de uma narrativa viva e movente, na medida em que qualquer cidadão pode acrescentar um objeto novo ao acervo aberto do contramonumento. Em contraste, o monumento oficial permanece congelado, do outro lado, e impossível de ser tocado. O embate sobre o revisionismo está firmemente estabelecido: contra o passado imobilizado numa eterna proeminência da nação como vítima inocente, ergue-se um monumento vivo, intenso e que não esgota a experiência em conceitos rígidos e tradições forjadas.

O revisionismo na Hungria contemporânea é indicativo do peso do passado e da necessidade do governo Orbán de se inserir em uma tradição, ainda que inventada. O monumento em homenagem à ocupação alemã pretendeu unificar todo o país sob uma noção frágil de vítima e as disputas em torno desse passado reatualizam questões delicadas da história húngara do século XX.

Estabelecer uma continuidade entre passado e presente tem sido um constante esforço de legitimação da política nacionalista de Orbán, apresentada, pela direita do Fidesz, como herdeira das lutas soberanistas de outros tempos. Em um contexto de evidente recuo das instituições democrático-liberais da Hungria, as experiências dos homens de outros tempos podem ser vitais para a ascensão do autoritarismo ou para a sobrevivência de formas justas e civilizadas de vida coletiva.

Notas

[1] O Tratado de Trianon foi assinado no ano de 1920 e visava definir a situação territorial da Hungria após a derrota na Primeira Guerra e a dissolução do Império Austro-Húngaro. Três quartos do território e dois terços da população húngara passaram a pertencer aos novos Estados da Tchecoslováquia, Romênia e Iugoslávia. Sucessivas gerações de grupos políticos nacionalistas identificam o Tratado como um dos grandes traumas húngaros, e essa visão é também compartilhada pelo revisionismo histórico de Orbán.

Referências bibliográficas

BALOGH, Eva. Viktor Orbán pontificates on 1944. Hungariam Spectrum. Disponível em https://hungarianspectrum.org/tag/german-occupation-memorial/. Acesso em 10 de agosto de 2019.

EROSS, Ágnes. “In memory of victims”: Monument and conter-monument in Liberty Square, Budapest. Hungarian Geographical Bulletin, v.65, n.3, pp. 237-254, 2016.

TOOMEY, Michael. History, nationalism and democracy: myth and narrative in Viktor Orbán´s iliberal Hungary. New Perspectives, v.26, n.1, pp.87-108, 2018.

Alexandre de Sá Avelar é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (2006) e realizou estágio pós-doutoral na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) em Paris (2017). É professor da Universidade Federal de Uberlândia e Pesquisador (Bolsista Produtividade) do CNPq.

Como citar este artigo

AVELAR, Alexandre de Sá. O revisionismo histórico húngaro e o fantasma do Holo-causto (Artigo). In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/revisionismo-hungria-monumento. Publicado em: 19 ago. 2019.


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Consuming history: genealogy, public history, and other engagements with the past https://www.cafehistoria.com.br/public-history-consuming-history/ https://www.cafehistoria.com.br/public-history-consuming-history/#respond Mon, 12 Aug 2019 20:06:13 +0000 https://www.cafehistoria.com.br/?p=8398 Jerome de Groot, Professor at University of Manchester, talks about the ways we consume the past, either through a History lesson, or through a sold DNA test. Groot is a reference in the field of Public History.

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Jerome de Groot, Professor at University of Manchester, talks about the ways we consume the past, either through a History lesson, or through a sold DNA test. Groot is a reference in the field of Public History.

André Lemos Freixo interviews Jerome de Groot

The “consumption of history” is the subject of Jerome de Groot, Professor of Literature and Culture at the University of Manchester (UK). “We are surrounded by versions of the past. We use them, read them, engage with them. Most of all, at the moment, we consume them – we buy them, watch them, read them. They connect us to a global phenomenon of pastness, as well as reminding us of our local particularity”, says Groot, who is one of the leaders of the “Double Helix History” program, and author of the book “Consuming History: Historians and Heritage in Contemporary Popular Culture”, widely read by those who study and make Public History.

In this interview to historian André de Lemos Freixo, Lecturer at the History Department of the Federal University of Ouro Preto (UFOP), Groot gives his definition of Public History, talks about his involvement with the non-academic public, genealogy practices connecting people to different backgrounds, and discuss some aspects of the “consumption of history.”

Why did you choose to work with Public History? How do you define Public History?

The two questions are linked for me. I’m not an (professional) historian. I trained as a literary scholar, and so I’m not concerned about ‘history’ as a subject. When I started working on this material I didn’t know that such a discipline existed, really, I just had a sense that ‘history’ was happening in public and that we needed to look at it. I could see that there was a huge interest in the past but that the majority of ways that this past was being presented to people was not understood by academics. I began to get interested in television and film versions of the past, and to worry that historians seemed not to be too engaged with the type of history that was happening outside of particular contexts. I started to think about how we ‘consume’ the past, that is, how we use it in our lives and the ways in which we pay for it and use it. The more I looked, the more I saw – from museum gift shops to advertising, from political argument to Hollywood film. History is consumed, read, interrogated, used, thought about and debated in millions of places. The work I did initially made me think carefully about terminology. What is ‘history’, after all? Who owns it, writes it, makes it, uses it? These are key questions. Indeed, as has been very clear in the past 5 years, the role of history in public life is increasingly troubling, and we need to participate in a critique of this in order to offer an alternative.

Public-History-e-Historia-Publica
Jerome de Groot, Professor at Manchester University.

There are multiple definitions of the idea of ‘public history’. For me ‘public history’ is the study of the way that history works and is understood in culture and how it is used by communities. My version of it is also interested in the link between this approach and social history, identity history, and the history of the everyday. I have also, over the time I’ve been working in this area, changed my outlook considerably in terms of the international scope of my investigation. I began working very much on material that was produced in the UK or USA. I’m now very much of the opinion that we need to think internationally and transnationally, to consider history as something working both locally and globally. I’ve also got more politically engaged, with discussions of race, ethnicity, indigeneity, nationhood, cultural value and identity becoming more central to my discussions.

In 2009 you published a book called Consuming History, could you tell us a little more about the phenomenon of consuming history in contemporary times?

We are surrounded by versions of the past. We use them, read them, engage with them. Most of all, at the moment, we consume them – we buy them, watch them, read them. They connect us to a global phenomenon of pastness, as well as reminding us of our local particularity.

My argument is twofold, really. Firstly, we need as citizens and scholars to see this, and to be aware of the impact of popular history on the historical imagination. This is profound, I think. The way that a citizen is enabled to imagine the past, and their relationship to it, is hugely important. The tools they are given to do that are not neutral and not random. The way we are ‘taught’ to think about the past is key, whether this is by a teacher or by a game.

The second, linked, aspect of the argument is about popular historiography. I think that popular texts, of all kinds, allow us to think about history. They teach us, yes, and give us ‘content’ for envisaging what nineteenth-century China looks like, for instance, or what happened in France in 1789. Yet popular texts also provide an alternative way of understanding the past to be constructed. They allow us insight into the ways that the past is made, written, imposed; and they give us tools of critique of this structure. So ‘popular historiography’ is enfranchising, as historical texts of all kinds allow a user/ reader/ player to challenge normative historical thinking and to recognise that the ‘past’ is interpreted and made for us in multiple ways, whether by film-makers or historians themselves.

The Double Helix History project thematizes how DNA research has impacted the understanding of certain historical imaginaries in contemporary times. In Brazil, it is not very common to see historians working with this kind of object. Could you tell us a bit more about your research and experience?

I am interested in how people ‘get’ their past, and I’ve become interested in the past couple of years in the way that we are beginning to understand the past through the prism of genetics. An easy example is personal genetic testing for ancestry and ethnicity. This is very common – around 20 million people worldwide have done this. People are therefore ‘linked’ to their past through their genetic make-up, being told that they have connections to countries and people because of the genetic code. They are encouraged to connect with others and to write their own narratives accordingly. Incidentally it is a good example of ‘consuming’ history, as these 20 million people have paid for their access to their genetic past, and the companies that sell this service have grown hugely.

So the personal genetic genealogy is a great way of showing how we ‘know’ ourselves in relation to the past differently in a post-genomic age. Clearly we understand the ‘human’ differently, both now (we can ‘read’ ourselves anew) or in the past (ancient DNA means we can understand homo sapiens differently). It follows logically then that, if the ‘human’ is different, then their relation to the past might be understood differently. What kinds of past might we write with this new genetic understanding? How might this change the ways that we think of ourselves? A good example here is the X-Men film Days of Future Past, which dramatizes anxiety about genetics whilst also telling an historical story about post-Vietnam America, at the same time positing a possible challenge to linearity and temporal order. If that sounds elaborate what I mean is that the film is allowed to play around with time and our experience of history because our understanding of the human has – through new genomic science – been placed into a state of flux.

My research and experience suggests that a) we don’t know anything at all about genetics (ie. where we are now is the tip of the iceberg), b) scientists love metaphors and we should be wary of them when they describe things, and c) the science is moving fast but there are already aspects of genomic science that are being shut down politically and economically and we need to be wary of this.

You are accustomed to speaking to large audiences of non-experts. How do you feel speaking in front of those audiences?

I love speaking to non-experts. This is where the real work is done, right? If I’m interested in history happening outside the academy then the point is to speak with these audiences. It can be very hard, particularly pitching things. You have to recognise that everyone in the group has something to say, and that you yourself are not there to simply ‘tell’ people things but to facilitate and introduce. I’ve never seen the point of simply unloading things to people, I’d rather make a series of suggestions and see where we get to with them. This has been very easy with the material on genetics as I definitely don’t know enough to be an expert on this material, I’m not a scientist, so I open up ideas and discussion, particularly about bioethics and privacy, and we get a good discussion going.

What ethical challenges would you say historians face when the past and history comes to the public?

These are getting more acute. In fact I think that ethics is the biggest issue and challenge for anyone in the field of history right now. There is first the political challenge – for anyone working in history or on history, we now recognise that we are not in a vacuum and our work has political consequence. In the USA, UK, Brazil, India, Australia, Japan – anywhere you turn, history is being misused and wrongly purposed in order to pursue certain agendas that I disagree with. History is never neutral, and the ways in which it works can never be ‘normal’. So we have a responsibility to watch it carefully. I was reminded of this when I first went to Russia. My work to that point, which I had thought was just nice discussion of TV and film, was interpreted by my Russian colleagues as being useful to them in their challenge to powerful political voices. Their point was that in scrutinising the use and effect of history we began to question who it was made for, and why. It is part of my own luck and privilege as a Western scholar that I had not seen it this way, and I try to remind myself of this.

There is an ethics and a duty to approach the world and the work correctly, but also to recognise our own political and ethical biases. I have a great deal of privilege, both in terms of my gender and my socio-cultural background, and I am acutely aware of this and try to recognise this and mitigate it as much as possible. We have to be so aware that ‘history’ itself is an ideological, rational, western, colonial construct, and the ways that this discourse frames our thinking is highly problematic. We need to recognise that ‘history’ has been a deeply problematic discourse, and to recognise the biases and problems within the institutional contexts in which we work.

I think we also have to think carefully about politicised history that we find distasteful. In the UK and the USA, for instance, history has been used by the far right to make political interventions. I think we have to recognise how this works and how to counter it.

Jerome de Groot is Professor of Literature and Culture at the University of Manchester (UK). He is also Public Historian with the “Double Helix History” Project on DNA, Genealogy, Ancestry and History. He is the author of Consuming History: Historians and Heritage in Contemporary Popular Culture (2008/second edition 2016); Remaking History: the past in contemporary historical fictions (2014); and The Historical Novel (2009).

André de Lemos Freixo is Lecturer at the History Department of the Federal University of Ouro Preto (UFOP)

Editing and revision: Bruno Leal e Ana Paula Tavares.

How to cite this interview

GROOT, Jerome. Consuming History: Consuming history: genealogy, public history, and other engagements with the past (Interview). Interview given to André de Lemos Freixo. In: Cafe Historia – History made with clicks. Available at: https://www.cafehistoria.com.br/public-history-consuming-history/. Posted on Aug 12 2019.

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