Uma breve história dos negros no Oscar

A edição de 2017 do Oscar é recordista em indicação de profissionais negros. Mas o que isso significa? Como chegamos até aqui? A História pode nos ajudar a responder tais perguntas e a problematizar a questão racial na maior indústria cinematográfica do planeta.

Por Celso Fernando Claro de Oliveira

O ano de 2017 já entrou para a História do Prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, popularmente conhecido como Oscar. Após duas edições que geraram polêmica devido à ausência de profissionais negros nas categorias de atuação, a Academia selecionou um número recorde de indicados afrodescendentes – seis nomes ao todo, incluindo o feito inédito de três concorrentes à estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante. [1] Três filmes protagonizados por negros disputam o prêmio principal da noite, – todos ambientados na segunda metade do século XX e lidam com questões contemporâneas que ainda hoje são vivenciadas pelos afro-americanos. [2] Além disso, também merece destaque o número de pessoas negras indicadas por seus trabalhos atrás das câmeras, incluindo produção de longas-metragens de ficção direção, direção de fotografia, roteiro, edição, além da produção de documentários. [3]

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Cena do filme “Fences”. O longa-metragem concorre às categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Denzel Wahington), Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis) e Melhor Roteiro Adaptado. Foto: Divulgação.

Para muitos, essa “mudança” está relacionada às medidas inclusivas adotadas pela Academia após a hashtag #OscarSoWhite (#OscarMuitoBranco) dominar os debates em torno das premiações de 2014 e 2015, levantando uma série de questionamentos sobre o não reconhecimento dos profissionais afrodescendentes por parte da instituição. A executiva Sheryl Boone Isaacs – primeira negra a ocupar a presidência da Academia – foi uma das figuras centrais nesse processo. O contexto político atual também deve ser aqui considerado. Em 2016, as discussões sobre visibilidade negra na mídia se intensificaram, graças, em grande medida, aos casos de violência policial contra a população afro-americana e a eleição do republicano Donald Trump para a presidência, vista como um retrocesso por muitos movimentos sociais estadunidenses.

Mas o que essas mudanças significam exatamente? Seriam essas mudanças definitivas? Como chegamos aqui? Neste sentido, a história do cinema e do Oscar nos Estados Unidos pode nos ajudar bastante.

Uma breve história dos negros na cerimônia do Oscar

A relação dos profissionais negros com o Oscar foi construída ao longo de décadas e perpassa por questões políticas, econômicas e sociais. Criada em 1927, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas visava, entre outras atribuições, fomentar o desenvolvimento do cinema enquanto indústria e valorizá-lo como uma forma de arte respeitável. Uma das medidas criadas para atingir tal objetivo foi o estabelecimento de uma premiação anual para homenagear os filmes e os profissionais de maior destaque. Essa honraria não demorou a atrair a atenção do público e se tornou um dos principais espetáculos do mundo do cinema ainda no início da década de 1930.

Quais eram as perspectivas de trabalho para um ator ou uma atriz afrodescendentes naquele período? Bastante reduzidas. Em um estudo de grande relevância, Donald Bogle identificou cinco estereótipos que dominaram a representação do negro em Hollywood desde o início do século XX. São esses: o tom, uma figura masculina bondosa e submissa sempre disposta a servir seus superiores brancos; a mammy, contraparte feminina do tom; o coon, personagem tolo e preguiçoso criado para finalidades ‘cômicas’; a tragic mulatto, jovem negra de pele clara comumente punida por representar o “pecado” da miscigenação; e o perigoso black buck, homem traiçoeiro que deseja subverter as relações raciais existentes e que apresenta uma descontrolada inclinação para violentar jovens brancas. Além dos papéis estereotipados, os profissionais negros enfrentavam outros obstáculos. As convenções sociais da época influenciavam as relações de trabalho em Hollywood e impediam, por exemplo, que um ator negro aparecesse em cena ao lado de uma atriz branca sem que houvesse a presença de outros homens brancos no mesmo enquadramento. Assim, muitos personagens de ascendência africana eram interpretados por homens e mulheres que recorriam ao blackface, isto é, ao ato de colorir o rosto com tinta escura. Tal prática perdeu forças à medida que os processos de produção cinematográfica foram se refinando. Contudo, as barreiras existentes permaneceram.

O código de censura oficial adotado por Hollywood em 1930 veio reforçar a segregação ao incluir a representação de relacionamentos inter-raciais entre suas proibições, além de reforçar a imagem de submissão do negro por meio de outras prerrogativas. Assim, Hollywood se desenvolveu e consolidou como uma indústria cinematográfica predominantemente branca e voltada para um público branco. Alguns filmes procuraram romper com a visão dominante, porém, correspondem a um número restrito da produção hollywoodiana predominante à época, já que eram tidos como projetos arriscados do ponto de vista financeiro. Um dos primeiros títulos de destaque nesse sentido foi “Aleluia” (1929), produzido pela MGM, um dos mais importantes estúdios da época.

Dirigido por King Vidor, um dos mais renomados cineastas daquele período, “Aleluia” contou com um elenco predominantemente negro, composto em sua maioria por amadores. Apesar dos receios por parte do estúdio, o projeto se tornou um sucesso de público e crítica, de modo que chamou a atenção da Academia. Os atores e atrizes negros, contudo, foram ignorados: a produção recebeu uma única indicação ao Oscar, na categoria de Melhor Diretor – Vidor era um homem branco de ascendência europeia. O movimento em prol dos direitos dos afro-americanos fez críticas bastante duras ao cineasta, argumentando que o filme reforçava as representações estereotipadas então existentes – a trama, por exemplo, gira em torno de um agricultor humilde cuja vida é arruinada por uma jovem sedutora e ambiciosa.

Cerimônia de 1940: a primeira atriz negra indicada ao Oscar

As ofertas de trabalho para os profissionais negros permaneceram, em grande medida, restrita a papéis secundários em obras protagonizadas por personagens brancos. Mas foi a partir dessas oportunidades que a atriz Hattie McDaniel alcançou proeminência e foi convidada para participar da superprodução “…E o vento levou” (1939). Em cena, ela interpretou Mammy, a escrava fiel que acompanha a trajetória de Scarlet O’Hara – e, apesar de o nome da personagem remeter ao estereótipo da negra submissa, a crítica especializada saudou as nuances do trabalho da atriz. Grande sucesso do ano, o filme obteve dez indicações ao Oscar, incluindo para McDaniel na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Assim, ela se tornou a primeira profissional negra a disputar a tão cobiçada estatueta.

A pesquisadora Jill Watts considera que a cerimônia de 1940 teve um sabor agridoce para a atriz. McDaniel e seu companheiro foram instalados em uma mesa para dois localizada no fundo do salão de festas onde aconteceu a cerimônia e recebeu pouca atenção dos fotógrafos e jornalistas. Ao ser anunciada vencedora, fez um discurso emocionado, lembrando de suas raízes – os pais da atriz haviam sido escravos – e deixou o palco com os olhos cheios de lágrimas. A vitória também não abriu oportunidades de trabalho como protagonista para a atriz, que continuou a ser escalada para interpretar serventes e foi acusada pelo movimento negro de ajudar a propagar estereótipos ao aceitar tais papéis. Embora também fosse uma ativista engajada, McDaniel era consciente de que não seria capaz de mudar a realidade de Hollywood sozinha e confrontava seus detratores. “Prefiro interpretar uma criada a trabalhar como criada”, disse certa vez, evidenciando as semelhanças nas relações de trabalho existentes dentro e fora de Hollywood.

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McDaniel com Vivien Leigh como Scarlett O’Hara em cena de 1939 de “E o vento levou”. Foto: Hollywwod Reporter

O reconhecimento de artistas negros no Oscar manteve-se diretamente relacionado às ofertas de trabalho oferecidas a esses profissionais e ao destaque de seus personagens em cada filme. Tal dinâmica por vezes resultou em situações curiosas. James Baskett, por exemplo, foi preterido das indicações oficiais, mas recebeu um Oscar honorário por seu papel como um bondoso contador de histórias em “A canção do sul” (1946). Novamente a militância criticou a representação do negro, pois o personagem guardava muitas semelhanças com o estereótipo do escravo submisso. Já em 1950, Ethel Waters foi indicada na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante por interpretar a sofrida avó de uma jovem de pele clara que se passa por branca em “O que a carne herda” (1949). Ironicamente, o papel da protagonista – que ao longo da trama, se engaja em uma luta contra a comunidade racista em que a avó vive – foi entregue a Jeanne Crain, uma jovem sem ascendência africana que figurou entre as cinco finalistas ao prêmio de Melhor Atriz.

O número de indicados negros ao Oscar cresceu nos anos 1950. Porém, os papéis destacados pela Academia continuavam atrelados às representações negativas. Dorothy Dandridge, por exemplo, tornou-se a primeira negra indicada à estatueta de Melhor Atriz por interpretar uma mulher sedutora e ambiciosa que se envolve em um romance trágico com um homem comprometido em‘Carmen Jones’ (1954). A exceção à regra foi Sidney Poitier, que alcançou grande prestígio junto à crítica e passou a receber ofertas de trabalho variadas para grandes estúdios. Ele recebeu sua primeira indicação à estatueta de Melhor Ator pelo drama “Acorrentados” (1958), no qual interpretou um prisioneiro em fuga, algemado a um criminoso branco.

A “Revolução Cultural” e o cinema

Na década seguinte, eclodiu nos ditos “países de primeiro mundo” um processo de significativas mudanças sociais, o qual Eric Hobsbawm denominou “Revolução Cultural”. A ascensão de diferentes movimentos sociais suscitou uma série de questionamentos sobre o status quo nos Estados Unidos, incluindo o antigo sistema Jim Crow que – por meio do injusto pressuposto “separados, porém iguais” – ainda dividia negros e brancos no sul do país. Além disso, o movimento negro se engajou na garantia da plena participação política, acesso aos direitos trabalhistas e no rompimento da segregação em diversos espaços. A proeminência alcançada por diferentes figuras do ativismo político e do show business estadunidenses levou tais debates à Hollywood, fomentando discussões sobre novas formas de representação do negro nas telas dos cinemas.

Foi nesse período que Poitier se tornou o principal astro negro de Hollywood, estrelando uma série de sucessos. Sua ascensão, entretanto, gerou uma nova forma de estereótipo: o do afro-americano idealizado que serve como modelo moral e comportamental aos seus pares em uma sociedade estadunidense dominada por brancos. Segundo Mark Harris, embora a repetição de papéis incomodasse Poitier, ele considerava mais adequado aceitá-los a fim de oferecer uma imagem positiva do negro nas telas de cinema.

Foi justamente com o papel que lhe garantiu sua segunda indicação e eventual vitória do Oscar de Melhor Ator que essa imagem se colou à figura de Poitier: em “Uma voz nas trevas” (1963), ele interpretou um faz-tudo que auxilia um grupo de freiras refugiadas do bloco comunista no interior dos Estados Unidos. A partir de então, seguiram-se outras notáveis atuações que ajudaram a consolidar o estereótipo: um funcionário de escritório que faz amizade com uma mulher branca e cega em “Quando só o coração vê” (1965), um policial com forte senso de justiça que investiga um caso de assassinato no sul do país em “No calor da noite” (1967) e um médico respeitado em um relacionamento com uma jovem branca em “Adivinhe quem vem para jantar” (1967). Curiosamente, Poitier não recebeu outras indicações ao Oscar ao longo de sua carreira.

As transformações da Revolução Cultural continuaram se desdobrando ao longo dos anos 1970. Nesse período, as indicações para profissionais negros nas categorias de atuação foram esporádicas. Contudo, é possível observar uma mudança significativa: todas estiveram associadas a adaptações de romances e peças teatrais de sucesso que traziam personagens afro-americanos nos papéis de protagonistas – notadamente, “A grande esperança branca” (1970) e “Sounder – Lágrimas de Esperança” (1972).

Além disso, os papéis femininos lembrados pela Academia ganharam maior diversidade. Diana Ross, por exemplo, recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “O ocaso de uma estrela” (1972), cinebiografia da cantora Billie Holliday. Adaptações de livros e peças de teatro continuaram a render o maior número de indicações a atores negros na década de 1980, como foi o caso das produções “Retratos de uma vida” (1983), “A história de um soldado” (1984), “A cor púrpura” (1985) e “Conduzindo Miss Daisy” (1989).

Década de 1990: mais indicações e novas vitórias

É somente a partir dos anos 1990 que as indicações e vitórias de profissionais negros nas categorias de atuação não apenas se tornam mais recorrentes, como também estabelecem duas tendências distintas que se consolidaram nas décadas seguintes. Entre os homens, tornaram-se comuns as nomeações e prêmios por papéis de figuras históricas – como Malcolm X, Ray Charles e Nelson Mandela – e papéis coadjuvantes com grande importância para o desenvolvimento da trama – Jamie Foxx, por exemplo, foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante por “Colateral” (2004), muito embora seu personagem seja o real protagonista do filme.

Com relação às atrizes, a diversificação de papéis foi mais restrita. Embora Whoopi Goldberg tenha recebido o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por interpretar uma personagem de grande importância no desenvolvimento da trama de “Ghost – Do outro lado da Vida” (1990) e Marianne Jean-Baptiste tenha sido indicada na mesma categoria por sua atuação como uma mulher bem-sucedida profissionalmente que busca conhecer a mãe biológica em “Segredos e Mentiras” (1996), muitas continuaram a ser reconhecidas por suas interpretações como escravas ou serventes. Dois casos recentes se destacam: as vitórias de Octavia Spencer em “Vidas Cruzadas” (2011) e Lupita Nyong’o em “12 anos de escravidão” (2013). Há ainda uma tendência por parte da Academia em reconhecer papéis de mães sofredoras ou abusivas, como as personagens de Halle Berry em “A última ceia” (2001), Ruby Dee em “Gangster Americano” (2007), e Mo’Nique em “Preciosa – Uma história de esperança” (2009). Recentemente, uma postagem que viralizou no Facebook questionou a recorrência desses papéis [4].

A situação dos profissionais que trabalham atrás das câmeras foi, ao longo da História, semelhante àquela enfrentada por atores e atrizes. Mesmo que cineastas afro-americanos tenham se destacado como pioneiros da dita “sétima arte”, produzindo filmes desde as primeiras décadas do século XX, a maioria foi mantida à margem do sistema hollywoodiano e, por consequência, do grande público. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Oscar Micheaux, que ainda à época do cinema silencioso criticou o racismo entranhado na sociedade estadunidense por meio de suas obras.

O primeiro negro indicado na categoria de Melhor Diretor foi John Singleton, por “Os donos da rua” (1991), mais de 60 anos após a criação do Oscar! Desde então, apenas outros três cineastas repetiram o feito: Lee Daniels, Steve McQueen e Barry Jenkins. É interessante observar que, até os dias atuais, todos os afro-descendentes finalistas e vencedores nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Roteiro Original foram reconhecidos pela Academia por seus trabalhos em filmes protagonizados por personagens negros. A mesma situação era nítida na corrida de Melhor Filme até este ano, quando Kimberley Steward foi indicada por “Manchester à beira-mar” (2016).

Escassez ainda é realidade nos prêmios técnicos

A escassez de indicações e vitórias nos chamados “prêmios técnicos” também é notável. Hugh A. Robertson recebeu uma indicação à estatueta de Melhor Edição por seu trabalho em “Perdidos na noite” (1969). Porém, somente este ano uma pessoa negra foi indicada pela segunda vez à mesma categoria – Joi McMillon, por “Moonlight – À luz do luar” (2016). No caso do prêmio de Mixagem de Som, Willie D. Burton e Russell Williams receberam dois Oscars cada um [5], mas continuam sendo os únicos profissionais negros reconhecidos pela Academia nessa área. Em muitas categorias como Melhor Fotografia e Melhor Figurino, as indicações só começaram a surgir a partir dos anos 1990, ainda sem nenhum vencedor. Já entre os finalistas de Melhor Direção de Arte e Melhor Cabelo e Maquiagem, nunca houve um profissional negro indicado à estatueta.

As principais exceções são as categorias ligadas à música: Melhor Trilha Sonora [6] e Melhor Canção Original. É interessante observar que muitos dos profissionais negros indicados e vencedores desses Oscars eram nomes de grande prestígio na indústria fonográfica estadunidense e haviam emplacados sucessos nas paradas musicais daquele país. Entre os principais nomes, podemos destacar Duke Ellington, Quincy Jones (que se tornou um dos mais prestigiados compositores de trilhas sonoras cinematográficas hollywoodianas), Isaac Hayes, Irene Cara, Prince, Steve Wonder, Lionel Richie, Janet Jackson, Pharrell Williams, Common e John Legend. A lista de indicados inclui ainda o brasileiro Carlinhos Brown pela canção “Real in Rio”, da animação “Rio” (2011).

Tempo de mudanças definitivas?

Estamos diante de uma mudança definitiva na postura da Academia? Apenas o tempo irá responder essas questões. No entanto, refletir sobre os cenários futuros exige cuidado. Basta lembrar que as vitórias de Halle Berry e Denzel Washington na cerimônia 2002 foram vistas à época como “divisores de águas” na relação dos atores negros com o Oscar, mas que revelaram ter pouco resultado prático. Não podemos esquecer que muitos dos profissionais negros indicados ou vencedores do Oscar dificilmente conseguem repetir o feito, bem como, é possível observar que a carreira de muitos desses nomes se estagnou logo após o reconhecimento por parte da Academia. Assim, apesar de algumas transformações significativas, algumas barreiras permanecem.

Outro elemento significativo no jogo político do Oscar é a questão das campanhas publicitárias empreendidas pelos estúdios a fim de promover certos filmes e conquistar o gosto da Academia. Há algumas predileções notáveis por parte da instituição, como filmes sobre a Segunda Guerra Mundial e dramas familiares, que costumam aparecer entre os finalistas em diversas categorias ano após ano. Assim, as indicações aos afrodescendentes passam ainda pela análise que os grandes estúdios fazem durante a temporada para verificar quais filmes ou profissionais têm maior chance de vencer uma determinada categoria.

Nesse sentido, a análise da relação entre o Oscar e os profissionais negros da indústria cinematográfica não diz respeito apenas a questões de representatividade. É necessário levar em consideração a luta histórica do movimento negro dentro e fora de Hollywood, pois as mudanças sociais que advém dessa luta influenciam as relações de trabalho, os processos criativos e a forma como a indústria cinematográfica enxerga seus diferentes públicos. Como bem frisou a atriz Viola Davis, em seu discurso após receber o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática: “você não pode receber um prêmio por papéis que não existem”. Portanto, embora ainda não seja possível averiguar o impacto da cerimônia do Oscar de 2016 na carreira dos profissionais negros de Hollywood a longo prazo, esperamos que a premiação ajude, de alguma forma, na consolidação de um futuro marcado por maiores oportunidades e reconhecimento.


Notas

[1] São eles: Denzel Washington (como Melhor Ator), Ruth Negga (Melhor Atriz), Mahersala Ali (Melhor Ator Coadjuvante), Viola Davis, Naomie Harris e Octavia Spencer (Melhor Atriz Coadjuvante).

[2] São eles: “Um limite entre nós”, “Estrelas além do tempo” e “Moonlight – Sob a luz do luar”.

[3] Os profissionais indicados são: Denzel Washington, Pharrell Williams e Kimberley Steward (como produtores na categoria de Melhor Filme), Barry Jenkins (Melhor Diretor), August Wilson, Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney (Melhor Roteiro Adaptado), Bradford Young (Melhor Fotografia), Joi McMillon (Edição), Ava DuVernay, Roger Ross Williams, Raoul Peck, Hébert Peck e Ezra Edelman (Melhor Documentário – Longa-Metragem)

[4] É importante destacar que os papéis de mães sofredores ou abusivas também garantiram diversas indicações e vitórias a atrizes brancas, como bem ressaltou o sociólogo Emmanuel Levy em um estudo clássico sobre o Oscar.

[5] Burton recebeu seus prêmios por “Bird” (1988) e “Dreamgirls – Em busca de um sonho” (2006), além de outras cinco indicações na mesma categoria. Russell, por sua vez, recebeu a honraria por dois anos consecutivos pelos filmes “Tempo de glória” (1989) e “Dança com lobos” (1990). Ambos dividiram a vitória com outros profissionais envolvidos nos respectivos filmes.

[6] A categoria atualmente conhecida por Melhor Trilha Sonora Original teve diversos nomes e subdivisões ao longo da história do Oscar.


Referências Bibliográficas

BOGLE, Donald. Toms, Coons, Mulattoes, Mammies and Bucks: An Interpretative History of Blacks in American Film. Nova Iorque / Londres: Continuum, 2002.

HARRIS, Mark. Cenas de uma revolução: O nascimento da Nova Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 2001.

HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: O breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

LEVY, Emanuel. All about Oscar: The History and Politics of the Academy Awards. Nova Iorque: Continuum, 2003.

WATTS, Jill. Hattie McDaniel: Black Ambition, White Hollywood. Nova Iorque: HarperCollins, 2005.

WILEY, Mason; BONA, Damien. Inside Oscar: The unofficial history of the Academy Awards. Londres: Columbus Books, 1986.


Celso Fernando Claro de Olieira é historiador e jornalista, desenvolve pesquisas sobre a Relação Cinema-História desde a graduação. Entre seus principais interesses, está a recepção de filmes hollywoodianos no Brasil, o papel da crítica cinematográfica e a concepção do filme como uma produção social. Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina com a tese “A Sra. Miniver vai ao Brasil: A recepção dos ‘Filmes de Home Front’ na imprensa do Rio de Janeiro (1942-1945)”. Foi bolsista do Programa de Doutoramento Sanduíche no Exterior, junto ao Film and Media Studies Program da Yale University. Atualmente, é professor temporário na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR – Campus Curitiba).

6 Comentário

  1. Óptimo texto! Concordo plenamente com Viola Davis. As pessoas não podem ser premiadas por papéis que não existem. Já é tempo dar a mesma importância personagens negros contemporâneos na concorrência, ou não seja por isso, criar personagens negros contemporâneos que também sejam dignos de uma indicação.

    • Helena, muito obrigado pelo seu comentário! O movimento está engajado em pressionar os estúdios hollywoodianos por novas formas de representação. Esperamos que essa movimentação renda mais frutos no futuro e a diversidade dos papéis cresça!

  2. Me perdoem por discordar em certos aspectos.mas suponho que decidiram atuar desta forma, devido aos grandes questionamentos dos negros afros americanos e da opinião pública. Em minha opinião esse sistema de exclusão racial,já mas se findara…

    • Mirian, é realmente difícil apontar um fim para um sistema de exclusão tão antigo e entranhado em uma sociedade, mas os questionamentos e os esforços para mudar a realidade são muito importantes!

  3. Desde que surgiu o questionamento sobre um Oscar muito branco a própria sociedade foi abrindo os olhos e mudando o discurso sobre o assunto, o que mostra que sim é importante questionar o comodismo da Academia Hollywoodiana, levando esse tema mais adiante, como citado no texto não apenas para atores e atrizes negros mas para quem trabalha fora da visão do público.

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