Profissão: Professora de História

Entrevista com Selma Zalcman (ORT-RJ)

Para falar sobre os desafios e prazeres dos professores e professoras de História que atuam no Ensino Básico, conversamos com Selma Zalcman, professora desde 1977 na cidade do Rio de Janeiro. Ela conta sobre sua trajetória e suas atividades dentro de sala de aula. Zalcman é professora de História no Instituto de Tecnologia ORT.

Selma Zalcman em viagem de férias a Nova Zelândia. Foto: acervo pessoal da entrevistada.

Bruno Leal: Professora, é um prazer tê-la como entrevistada do Café História. Vamos começar nossa conversa não com a Selma professora de História, mas com a Selma aluna. Existe alguma lembrança especial dos tempos em que você sentava do outro lado da sala de aula? Como eram os seus antigos professores de História?

Selma Zalcman: Tenho lembranças muito boas de alguns professores de História como a Arlete Togashi e Otoni. Estudei no [colégio] Anderson numa época em que havia o curso Clássico. As aulas de História, especialmente, eram de uma novidade enorme e traziam informações muito diferentes de tudo que eu conhecia.

Bruno Leal: Atualmente, os estudantes estão imersos em um mundo de Iphone, Ipod, MP3, internet, enfim, um mundo bastante digitalizado, quer tenham acesso a esses bens de consumo ou não. Falar sobre História em sala de aula tornou-se mais difícil? Como o professor hoje deve discutir o passado em uma realidade tão fascinada com o próprio presente?

Selma Zalcman: As aulas de História hoje são um espaço para informações mais apuradas e de abertura de debates e idéias que podem ser transformadoras. O passado ainda é um assunto que, dependendo muitas vezes do professor, desperta a curiosidade de uma forma maravilhosa. Quando conseguimos trazer o passado para o presente da sala de aula e mostrar como existem relações entre os fatos, todos nós ficamos felizes e mais contemporâneos de nosso tempo.

Bruno Leal: Além dos livros didáticos, você utiliza outros recursos didáticos na sala de aula? Existe alguma experiência especial que a senhora gostaria de contar?

Selma Zalcman: Sempre que possível faço uso da Internet. São informações preciosas que temos disponíveis. Utilizo vídeos, documentos e esse ano muita literatura. Fiz uma experiência com a Biblioteca Virtual Camões (Portugal) com meus alunos de 6º ano. São livros sobre a História das navegações e conquistas portuguesas que podemos ler e também escutar a narração em português de Portugal. Pensei que eles iriam reclamar, mas o resultado foi dos melhores e aí incluo pais e responsáveis que participaram do trabalho em casa.

Bruno Leal: Uma pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontou que quase 60% dos jovens não estão na escola pública porque não veem sentido nesse modelo de escola que aí está. O que um professor deve (e pode) fazer para tentar mudar esse quadro?

Selma Zalcman: Minha experiência mostra que a realidade da escola realmente não combina com a realidade dos alunos que hoje estão na escola pública. Infelizmente ainda não tenho uma resposta para esta questão. O que tento fazer é trazer para o aluno as possibilidades que o estudo pode dar à ele. O que sempre mantenho com os alunos é um diálogo franco, aberto e muito carinhoso. O afeto é o grande trunfo que tenho e que mostra ao aluno a autoridade sem autoritarismo, os limites e contornos que muitas vezes eles só conhecem na escola.

Bruno Leal: Quase todas as correntes pedagógicas falam muito sobre interdisciplinaridade. Você trabalha com esse conceito em suas aulas? Por que ele é assim tão importante?

Selma Zalcman: A interdisciplinaridade torna os assuntos mais interessantes, mais abrangentes e mais completos. E é um grande exercício para o professor que precisa multiplicar sua visão sobre um assunto que ele só conhecia de uma forma. Quem sai ganhando com a interdisciplinaridade é o aluno que aprofunda os conhecimentos e se torna mais capaz de discernir sobre as questões.

Bruno Leal: Voltemos ao universo da História. Você identifica alguma mudança importante no ensino de História nos últimos anos? Quais conteúdos perderam força e quais são mais contemplados pelo currículo escolar da disciplina hoje?

Selma Zalcman: Deixamos de ter nomes e datas como a linha mestra e passamos à reflexão como o ponto crucial. Nem sei que pontos mudaram tanto porque sempre trabalhei de uma forma que achava correta, com muita interpretação de textos e documentos, trabalhos com mapas, plantas e portulanos e tudo que possa aproximar a História da humanidade da História dos meus humanos, os meus alunos.

Bruno Leal: Você leciona em uma escola de origem judaica. Quais são as particularidades deste tipo de instituição? Existe uma outra relação com a História?

Selma Zalcman: Minha experiência com a escola judaica é muito particular. Leciono no Instituto de Tecnologia ORT onde um grande número de alunos não é judeu. Como quase todas as religiões estão presentes em sala de aula, o exercício se torna muito interessante. O foco da História são os judeus e sua passagem pelo mundo; as características e particularidades de um grupo que sobrevive há tanto tempo mantendo sua individualidade, mas sempre em processo de transformação. As relações com a História são mantidas sempre, já que não podemos trabalhar um grupo isolado da sua realidade plena.

Bruno Leal: Desinteresse do aluno, salários baixos, formação lacunar do professor, violência na escola, infra-estrutura comprometida. Essas são algumas das dificuldades enfrentadas por muitos professores. Para a senhora, professora, qual o maior obstáculo, hoje, para o desenvolvimento da educação no país?

Selma Zalcman: Vivemos num mundo onde o ser educado é uma ameaça constante. Alguém que saiba ler, escrever, interpretar e opinar coloca em risco uma sociedade pautada no vazio.

Bruno Leal: Apesar de todos os problemas, escola continua sinônimo de coisa boa. Qual a melhor coisa em ser professora, em especial, professora de História?

Selma Zalcman: É muito bom ser a parte que pode introduzir coisas novas e orientar os alunos em questões que muitas vezes só ocorrem em sala de aula.

Bruno Leal: Chegamos ao fim de nossa entrevista. O espaço é todo seu…

Selma Zalcman: Prazer. Quando o prazer de entrar em sala acaba, quando a curiosidade e o sorriso saem de cena, é hora de procurar outra coisa. Ser professor precisa combinar com ser feliz porque é uma profissão onde o outro existe muito próximo. A sala de aula é como um palco de teatro: a troca de energia existe, precisa ser constante.


Selma Zalcman é formada em História pela UFRJ, docente desde 1977. Já trabalhou na rede municipal de ensino e hoje atua no Instituto de Tecnologia ORT, nas Escolas Eliezer Max e no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ). Zalcman atua especialmente com o sexto ano e com Ensino Médio nas disciplinas de História Geral, do Brasil e Judaica. Seus outros projetos incluem aulas de História Judaica na Congregação Judaica do Brasil, para alunos em processo de conversão.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*