Os monumentos confederados nos Estados Unidos: memória e política

Os significados dos monumentos confederados e as implicações de suas remoções no debate norte-americano contemporâneo.

Por Vitor Izecksohn

Nos últimos meses, uma série de monumentos confederados foi removida dos seus pedestais. O movimento ganhou visibilidade no Brasil e no mundo após os protestos de supremacistas brancos, que resultaram na morte de uma mulher em Charlottesville, cidade sede de uma das primeiras universidades laicas dos Estados Unidos. Os confrontos, acompanhados de declarações desastradas do presidente Donald Trump, aguçaram a curiosidade geral sobre o tema. De fato, trata-se de uma situação paradoxal.

Movimentos de remoção de monumentos históricos estiveram frequentemente relacionados com a queda de regimes: do ataque à estátua do Rei George III em Manhattan, em 1776, aos vários movimentos de deposição de regimes políticos durante a revolução francesa, da queda do muro de Berlin ao debate sobre a mudança nos nomes de logradouros ligados às ditaduras militares em vários países da América Latina. Tais transformações visam a uma reconfiguração do espaço urbano, no qual diferentes níveis dos poderes públicos pretenderam depositar a memória cívica de suas respectivas populações. Muitas vezes essas tentativas de atualização fracassaram, caso do nome da antiga capital sul-vietnamita, Saigon, cujo substituto, “Cidade Ho Chi Minh”, de fato, nunca caiu no uso da população local. Em outras, não, tal como comprovado pela mudança de nome de vários estados africanos no pós-independência e também pelo processo de desnazificação de logradouros públicos na Alemanha do pós-Segunda Guerra. Mas o fato concreto é que não há uma mudança de regime em curso nos Estados Unidos. Pelo contrário, os norte-americanos elegeram recentemente uma administração nacional que apela para uma noção de grandeza muito arraigada a temas do passado da nação.

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Remoção da estátua do confederado Robert E. Lee, 17 de maio de 2017. Foto: Abdazizar, Wikipedia.

A situação norte-americana teve início após o massacre na Igreja Metodista-Episcopal Emanuel, em Charleston, na Carolina do Sul em 2015. Naquela ocasião, nove pessoas, incluindo o pastor, foram mortas por um supremacista branco. O atentado repercutiu em vários sentidos: por se tratar de uma ação no interior de uma igreja; por envolver a morte de um senador estadual, Clementa C. Pinckney, e pelo fato da igreja ser uma das mais antigas instituições ligadas aos direitos civis na cidade. A partir de então, estátuas de líderes confederados passaram a ser objeto de um “acerto de contas” com a história da discriminação nos Estados Unidos.

Mas o que estas estátuas realmente representam?

A experiência separatista proporcionada pelos Estados Confederados da América visava ao estabelecimento de uma república escravista com potencial expansionista. Os líderes desta experiência não tiveram tempo de construir monumentos, exceto pelas lápides funerárias, uma vez que foram derrotados definitivamente em abril de 1865. Os confederados perderam inapelavelmente no campo de batalha e viram a principal razão de ser de sua causa ser transformada através da abolição da escravidão e do subsequente período da Reconstrução, quando os ex-escravos obtiveram o acesso ao conjunto de direitos civis e políticos, exercendo o voto a ponto de eleger os primeiros representantes negros no congresso federal e nas casas estaduais – embora o acesso pleno aos direitos civis só tenha sido conquistado em definitivo pelos negros nos EUA na segunda metade do século XX (com todos os obstáculos que ainda persistem).

A despeito da ruína militar, o nacionalismo confederado foi capaz de persistir, muitas vezes expurgando os aspectos mais nefastos da existência física dos Estados Confederados da América da memória popular e simultaneamente criando uma versão idealizada de seu próprio passado, tal como expresso nos filmes “O Nascimento de uma Nação” e “E o Vento Levou”. Por volta de 1890 essa memória já estava bem cristalizada. E a vitória dos derrotados no campo de batalha se consolidou através do exercício da violência contra os ex-escravos, expurgando os poucos resquícios de direitos que lhes restou.

É a partir desse momento que, comandada por administrações estaduais democratas, as lideranças sulistas começaram a erigir os monumentos aos líderes confederados. O processo foi bastante intenso durante os 50 anos seguintes. Ele se mesclou com o ressurgimento do Partido Democrata no Sul e gerou um predomínio político que duraria até o final da década de 1960: um capítulo da história do partido que suas lideranças atuais gostariam de esquecer. Portanto, essas estátuas foram erguidas após a derrota confederada. Mais do que comemorar uma experiência política desbaratada, elas restauram aspectos daquilo que lhe deu sentido, uma vez que a nação escravista se baseava no conceito da desigualdade natural entre as supostas raças. Elas fazem parte do processo de discriminação conhecido como Jim Crow, que estabeleceu a segregação dos negros em quase todas as áreas da vida social. Portanto as estátuas e parques em homenagem aos confederados expressam uma nostalgia que apela às aspirações por desigualdade racial, muito mais que a uma defesa do separatismo, já que este último foi depurado do debate político nacional. Assim, a luta atual, tal como se assiste em várias cidades sulistas é apenas parcialmente relacionada ao significado da Guerra Civil e às desventuras dos homens envergando uniformes cinzas que lutaram e eventualmente morreram pela independência dos estados revoltosos. Essas estátuas foram erguidas por outras razões e talvez a reflexão principal se relacione a por que essas estátuas foram colocadas em locais públicos de grande visibilidade e, principalmente, por que elas têm estado nesses lugares por tanto tempo – a despeito dos movimentos dos direitos civis, que avançaram a luta por integração e às enormes mudanças demográficas sofridas pelos Estados Unidos ao longo das últimas cinco décadas.

Mas por que os monumentos não são retirados?

O poeta Mario Quintana observou certa vez que “as estátuas equestres seriam muito belas se constassem apenas dos cavalos”. Atualmente, são mais de 700 monumentos comemorando a Confederação em espaços públicos dos Estados Unidos, predominantemente em espaços sulistas. Somente uma fração pequena destes foi removida até agora. Muitos deles estão colocados em frente às cortes de justiça, como uma tenebrosa reafirmação do ódio materializados nos episódios de linchamentos de negros, um capítulo terrível da história das relações étnicas nos Estados Unidos. Aqueles a favor da remoção ou mesmo da realocação dos símbolos confederados dizem que esses emblemas representam a opressão racial e a escravidão, elementos da história que deveriam pertencer a um museu, não a um pedestal. No entanto, num passado não tão remoto, alguns estados lutaram a favor da preservação desses mesmos monumentos, argumentando que a sua manutenção seria parte da herança sulista, refletindo sua história – seja esta boa ou ruim.

Quando neonazistas com tochas marcharam em volta das estátuas, eles chamaram a atenção exatamente para aquilo que os construtores desses monumentos gostariam de esconder

É bom lembrar que até a semana passada vários estados como a Carolina do Sul, a Georgia e a Carolina do Norte, possuíam atos de proteção do patrimônio (heritage protection acts), os quais restringem a remoção de qualquer monumento localizado num logradouro público. Também é bom lembrar que muitos desses monumentos representam figuras históricas como os generais Lee e Stonewall Jackson, figuras que, apesar do protagonismo na causa sulista, podem ser apresentadas como “racistas moderados” – portanto mais palatáveis para uma parte considerável da opinião pública conservadora. Obviamente esses “moderados” contrastam com os monumentos a N.B. Forrest, traficante de escravos e primeiro grão-mestre da Klu Klux Klan. A Forrest é atribuída a seguinte frase durante a guerra civil: “Se não estamos lutando pela escravidão, por que diabos estaríamos lutando então”? A Forrest são dedicados mais de 40 memoriais em estados como Alabama, Arkansas, Florida, Georgia, Mississippi, Tennessee e Texas (leia mais aqui).

De certa forma, as estátuas têm estado em seus lugares por tanto tempo porque assim como outros elementos do cotidiano elas se tornaram tão familiares que são raramente percebidas pelo seu sentido. Da mesma forma como o texto constitucional apresenta pelo menos três referências à escravidão, sem que se mencione seu nome. Algumas pessoas poderiam dizer o mesmo sobre o racismo: difuso, familiar e, pelo menos para muitos brancos, invisível. Ou seja, esses monumentos estão cobertos por uma espécie de “véu da ignorância” que é comum na relação de muitas sociedades com seus símbolos.

Curiosamente, a defesa que os supremacistas brancos fizeram dos monumentos confederados têm o potencial de acelerar o processo de remoção. Quando neonazistas com tochas marcharam em volta das estátuas, eles chamaram a atenção exatamente para aquilo que os construtores desses monumentos gostariam de esconder. Subitamente, as estátuas deixaram de ser invisíveis. Assim, nacionalistas menos extremistas também se sentiram incomodados com as demonstrações de ódio, que desnudaram o sentido que os construtores dessas mesmas estátuas gostariam de ter ocultado. A súbita visibilidade fragilizou os monumentos. Sua permanência serve a uma pauta de violência. Resta saber se sua retirada também não reforçará uma pauta de ódio racial, provendo uma plataforma para os militantes de um nacionalismo mais xenófobo.


Dicas Bibliográficas

SAVAGE, Kirk. Standing Soldiers, Kneeling Slaves: Race, War, and Monument in Nineteenth-Century America. Princeton: Princeton University Press, 1997.

FAUST, Drew Gilpin. The Creation of Confederate Nationalism: Ideology and Identity in the Civil War South. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1988.

McCARDELL, John. The Idea of a Southern Nation: Southern Nationalists and Southern Nationalism, 1830-1860. Nova York: W. W. Norton, 1979.

RUBIN, Sarah Anne. A Shattered Nation: The Rise and Fall of the Confederacy, 1861-1868. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2005.

McCURRY, Stephanie. Confederate Reckoning: Power and Politics in the Civil War South. Cambridge (MA): Harvard University Press, 2010.


Vitor Izecksohn – é professor do Instituto de História e do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor em História pela Universidade de New Hampshire. Fez pós-doutorado no Departamento de História da Brown University, atuando como professor visitante da mesma instituição em 2011. Foi bolsista do Gilder Lehrman Institute of American History (2005), da Comissão Fulbright (2011), do Gilder Lehrman Center for the study of Slavery, Resistance, and Abolition/Yale University (2015) e da John Carter Brown Library (2017). Seus interesses de pesquisa incluem os estudos comparativos sobre militares e sobre a administração pública no Brasil e nos Estados Unidos durante o século XIX, com ênfase na História do Recrutamento militar, nas comparações a respeito do impacto das guerras externas sobre os processos de formação dos Estados nacionais e no pensamento político no Brasil e nas Américas. Seu mais recente livro é “Slavery and War in the Americas: Race, Citizenship and State Building in the United States and Brazil, 1861-1870”, publicado pela University of Virginia Press, localizada na cidade de Charlottesville. O livro foi laureado com a menção honrosa da Brazil Section da Latin American Studies Association em 2015.

Leia também do mesmo autor, “Uma estranha efeméride”, sobre a Guerra do Paraguai.


Como citar esse artigo

IZECKSOHN, Vitor. Os Monumentos Confederados nos Estados Unidos: memória e política (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: http://www.cafehistoria.com.br/monumentos-confederados/. Publicado em: 11 Set 2017. Acesso: [informar data].

2 Comentário

  1. Boa explicação e analise do assunto. Em maio eu, tentei fazer uma comparação entre os monumentos confederados e os monumentos aos bandeirantes em São Paulo (em inglês)…uma versão expandida vai sair em uma coletânea, mais o original segue embaixo. Depois de Charlottesville, outros observadores brasileiros já começaram a fazer comparações parecidas: https://activisthistory.com/2017/05/26/monuments-and-power-in-urban-spaces-looking-at-new-orleans-louisiana-from-sao-paulo-brazil/

  2. Muito pertinente o artigo, posto que reflete uma situação atual bastante interessante, de como os neonazistas quando marcharam com tochas ” chamaram atenção exatamente para aquilo que os construtores desses monumentos gostariam de esconder” . Me faz recordar Jacques Le Goff quando disse ” O monumento resulta de uma produção/montagem, consciente ou inconsciente da história por uma determinada época ou sociedade que o produziu, mas também residem em outras épocas que sucedem a sua produção. Documento é uma coisa que fica. É monumento. É resultado de um esforço voluntário ou involuntário das sociedades históricas em impor as sociedades futuras uma imagem de si próprias, e cabe aos historiadores não fazer papel de ingênuo diante de tal produção, afinal, o monumento é uma roupagem, uma montagem , uma aparência enganadora.É preciso demolir essa montagem, problematizar os documentos a partir de uma reflexão crítica, analisando as condições de produção dos documentos/monumentos.”
    A partir daí gostaria de convidá-los a uma reflexão, de que vivemos no atual momento um movimento social de contração e descontração, ou seja estão aflorando até aqui mesmo no Brasil, posições que julgávamos até pouco tempo atrás extintas como o nazismo e movimentos de supremacia e discriminação explícitas. Pois bem nos EUA neste caso o que resultou foi a retirada de várias estátuas, não quero aqui fazer juízo de valor sobre destruição de qualquer coisa, mas é um fato que gerações posteriores não conviverão com tais indivíduos perpetuados nessas estátuas. Atualmente no Brasil tenho visto muita gente que estava acomodada, começar a se pronunciar contra movimentos discriminatórios e extremistas, o que a meu ver é bom, pois clarifica uma posição e uma atitude antes não declarada o que impele ao desenvolvimento de posturas tão necessárias e consagradas como a paz, respeito, não discriminação, etc, posturas estas que já acumulam há tanto tempo vastas e históricas provas científicas de sua razão.É preciso pontuar com muito cuidado nesta situação, pois a linha que separa uma coisa da outra não é de fácil reconhecimento e de forma alguma estimular o erro. Mas é melhor mais um pela paz do que mais um omisso e negligente. O que de importante pode se concluir com isso é que da mesma forma as estátuas confederadas hoje são em menor número nos EUA, também aqui e em outros lugares o extremismo mesmo que adormecido, mas latente que aqui estava, talvez hoje e amanhã esteja diminuindo, ou seja estão surgindo para que identificados, se dissolvam, o que de outra maneira não aconteceria. Se seguirmos essa linha de raciocínio (sem deixarmos de ser atentos, vigilantes e não omissos) mas numa postura de compreensão, poderemos caminhar mais firmemente para e com a paz social mesmo em meio a esse ambiente tão conturbado.

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