O ensino de História Regional nas escolas brasileiras

Em tempos de reformas educacionais profundas e apressadas no Brasil, como o Novo Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular, a História Regional mantém o seu vigor.

Por Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira

Com as inúmeras mudanças que ocorreram no mundo e no Brasil nos últimos anos, a escola deixou de ser atraente para muitos alunos. Como consequências, por exemplo, vemos o aumento da evasão escolar, da violência e dos índices de reprovação. Vários fatores ajudam a entender este fenômeno. Um deles é o ensino de conteúdos desvinculados do cotidiano dos estudantes. O Ensino de História, neste sentido, não é uma exceção. Muitas vezes, os conteúdos abordados em sala de aula ou nos materiais didáticos privilegiam uma História bastante distante da realidade de boa parte daqueles que estão em sala de aula.

Nos últimos anos, no entanto, esse cenário parece dar sinais de mudança. Embora o processo de globalização tenha contribuído para a valorização da História Global em detrimento da História Regional, alguns teóricos, entre os quais Stuart Hall, têm colaborado para problematizar algumas questões que, se não estavam extintas, encontravam-se adormecidas, como, por exemplo, as identidades regionais e as identidades étnicas. Assim, as Ciências Sociais, entre elas a História, produziram pesquisas com enfoques teóricos e metodológicos com base no elemento local ou regional. [1]

Ensino de História e História Regional
Local, regional, global – categorias que dialogam. Foto: Pixabay

A História Regional, segundo José D´Assunção Barros, constitui-se em uma maneira de abordar a História, de fazer (no sentido de escrever/produzir), que, neste caso, dá especial atenção ao uso das fontes regionais. Sua preocupação se volta para um espaço regional, que não necessariamente esta “associado a um recorte administrativo ou geográfico, podendo se referir a um recorte antropológico, a um recorte cultural ou a qualquer outro recorte proposto pelo historiador de acordo com o problema histórico que irá examinar”. Seu interesse central é observar este espaço regional ou as relações sociais que ocorrem em seu seio. Após esse procedimento adota-se a comparação com “outros espaços similares” ou insere o regional em um “um universo maior (o espaço nacional, uma rede comercial)”. Desta feita, a questão que diferenciaria a História Regional da História Local seria a comparação, uma vez que a História Local teria uma perspectiva de estudar “a realidade microlocalizada por ela mesma”. [2]

Enquanto característica de produção, grosso modo, teríamos historiadores de profissão escrevendo História Regional, enquanto os memorialistas se concentrariam na História Local. Segundo Jurandir Malerba, os primeiros memorialistas, cronistas medievais, teriam surgido na França entre os séculos XIII e XIV. No Brasil, teriam aparecido com mais propriedade na virada do século XIX para o XX, como fruto das transformações socioeconômicas que ocorriam no país por conta do processo de urbanização. Desta feita, nas regiões que sofriam estas mudanças, surgiram intelectuais que começavam a registrar estas alterações em suas localidades. [3]

Maria de Lourdes Janotti destaca algumas características na escrita memorialistas, como por exemplo: a) uma produção mais voltada para textos biográficos, na qual suas experiências pessoais e o senso comum são a fonte de suas narrativas; b) podem fazer uso de arquivos, porém não se preocupam em divulgar a origem de suas informações; c) usam de estilo literário rebuscado, dando especial ênfase aos grandes acontecimentos de suas localidades e dos grandes personagens/heróis locais e; d) a produção é justificada pelo fato de a história local ser digna de se tornar eterna e por isso deve ser escrita e perpetrada pelas gerações futuras. [4]

Vejamos, agora, porque olhar a História pelo viés da História Regional pode ser uma boa oportunidade para os professores de História reconquistarem o interesse dos alunos.

O Ensino de História e os PCN’s

Em 26 de junho de 1998, por meio da Resolução CEB nº 3, o Governo Federal, por meio do Ministério da Educação (MEC), instituiu os chamados Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNs), entre os quais o de Ciências Humanas e suas Tecnologias, no qual a disciplina História estava presente. Quatro anos mais tarde, em 2002, o mesmo ministério lançou o PCN+, seu objetivo geral era complementar as orientações que haviam sido dadas nos PCNs e oferecer novas abordagens metodologias para abordagem dos conteúdos, tendo especial atenção à interdisciplinaridade e a contextualização. Os documentos, que passaram a orientar o Ensino Médio no país, provocou alterações importantes em diversas disciplinas escolares. No campo da História, os PCN recomendavam, entre outras medidas, o uso da perspectiva da História Regional, recomendação esta existente desde a década de 1930, mas que até aquele momento não era aplicada plenamente nas escolas.

No que pese a pouca participação dos professores na elaboração dos dois documentos, o PCN, dentro da disciplina História, destacava que a História Regional não deveria ser tratada nas escolas como um conteúdo isolado e nem tampouco como a fração estanque de uma disciplina. A História Regional, segundo o documento instituído pelo Governo Federal na época, constitui uma ferramenta metodológica importante para compreensão do mundo no qual o aluno está inserido. Os conteúdos de História mais amplos e gerais, sejam da História do Brasil ou da História geral, devem ser trabalhados a partir da realidade dos alunos por meio da História Regional. Tal procedimento permite abordar a multiplicidade de realidades e o “outro”, isto é, permitir que o aluno reconheça os diferentes indivíduos e que reconheça tal diferença como legítima.

A História Regional, sublinha ainda o PCN, deveria ser trabalhada não em oposição à Nacional e geral, mas de forma relacional. Desta forma, ela permitiria construir um discurso menos “totalizante” e que fosse capaz de mostrar as especificidades regionais. A proposta também foi defendida por Márcia Gonçalves. A autora destacou que a História Regional redimensiona a dicotomia centro/periferia e torna possível escrever uma outra História Nacional, que problematiza a construção da unidade denominada “Brasil” em suas dimensões territorial e política. [5]

Possibilidades da História Regional

Como estabelecido em tais documentos, também acredito que o ensino da História Regional deve contribuir para a formação de uma identidade que valorize as experiências vivenciadas pelos alunos e que faça com que estes reconheçam-se como agentes sociais de um mundo que pode ser transformado – tornando-se, portanto, cidadãos. A partir da perspectiva da História Regional é possível introduzir o aluno de modo ativo na sociedade a qual de fato pertencem, levando- a entender o quanto de sua vida é construída e o quanto de elementos externos ele tem dentro de si. É neste campo mais restrito que as relações sociais aparecem com maior nitidez – e no qual podemos distinguir com mais clareza a construção das identidades sociais e dos sentimentos de pertencimento. Ao mesmo tempo, é a partir desta chave que se pode resgatar experiências coletivas e particulares ligadas a um determinado espaço geográfico, seja o regional ou o local. A identidade, afinal, segundo Gonçalves, é construída a partir da História Regional. Mais ainda, a História Regional e a identidade nos auxiliam a dar eco às múltiplas possibilidades da vida cotidiana e sentido aos diversos mundos possíveis. Desta forma, a História Regional deixa de ser um mero conteúdo – ela se transforma em recurso didático.

Diana Briceño enfatiza que o conceito de identidade social compreende os conceitos de identidade cultural e identidade étnica, estando ambas ligadas a um território e a um passado coletivo. A autora destaca que o apego à região passa pela infância e pelo contato do indivíduo com a família e com a sua vizinhança, pela assimilação das tradições, pelas crenças e pelos costumes, entre outros elementos. Desta forma, enfatizar a História Regional permite aos alunos um contato com suas raízes e com o passado da sua comunidade, definida por uma série de fatores acumulados ao longo das gerações. [6]

Esse debate é fundamental para se pensar a revalorização da História Regional no currículo de História, haja vista que a “tradicional” História globalizante, ainda presente nos livros didáticos distribuídos pelo MEC e, ao que parece, ainda presente na recente Base Nacional Comum Curricular (BNCC), não é capaz de atrair os alunos.

A História Regional e os “novos” personagens

Como salienta Francisco Ribeiro da Silva, a valorização da História Regional não se dá apenas no Brasil. O fenômeno ocorre também na Europa, no centro do mundo ocidental, devido a alguns fatores, a saber: a) Estados-nações têm se dado conta de que, num mundo globalizado, o que vai manter sua identidade e individualidade é a cultura e não a economia; b) a permanência dos regionalismos e das regiões, assim como de suas identidades, posto que as nações não são mais justificadas pelo nacionalismo exacerbado do século XIX e; c) o peso do centro está cada vez menor; as periferias estão cada vez mais ativas e reivindicativas, exigindo políticas públicas para o seu desenvolvimento. [7]

Silva também destaca que a História Regional serviria para desenvolver a consciência cívica, a integração e a intervenção na comunidade; valorizar aspectos comuns e diferenças que podem diminuir rivalidades locais; despertar o amor à terra e perceber que a nação é feita de partes que devem ser descobertas e expostas ao todo.

A História Regional, conforme podemos ver, permite trazer “novos atores” para o campo da História. Alguns personagens que, quando muito, eram secundários ou que tradicionalmente eram totalmente “negligenciados” pela História tradicional, podem, a partir do prisma da História Regional, ser incluídos no processo histórico, caso dos ameríndios, das mulheres, das crianças, dos trabalhadores, dos escravos etc. Um avanço nesta direção é a Lei 10.639/2003, que determina o ensino da cultura e da história afro-brasileira e africana no Ensino Básico, lei esta expandida cinco anos depois pela Lei 11.645/2008, que acrescentou a temática indígena. As duas leis permitiram que negros e indígenas se tornassem personagens mais presentes e ativos nas narrativas historiográficas, até então dominada por protagonistas brancos e europeus.

Algumas considerações finais

Algumas perguntas são importantes: como podemos resgatar as experiências regionais na História, já que nem sempre o espaço é determinado por um passado mítico nacional e nem sempre a sua temporalidade se vincula a esta História? Ou ainda: porque determinados eventos da História Regional se convertem em eventos da História Nacional?

Apesar da qualidade dos trabalhos a respeito da História Regional, é difícil responder a tais perguntas. A História Regional no Brasil ainda engatinha. Deste modo, a lição lançada pelo Manifesto publicado na Revista Arrabaldes, em 1988, não foi incorporada à prática docente. [8] Naquela oportunidade, historiadores já consagrados, como Maria Yedda Linhares e Leandro Konder, entre outros, apoiaram propostas como essa, enfatizando que se deveria dar mais atenção aos estudos de História Regional e local. O que nos obriga a voltar a pensar nestas perguntas e em suas respostas dentro de um quadro mais amplo da História Regional no Brasil. Como pensar a história de municípios e/ou de regiões mais distantes espacialmente, temporalmente ou historicamente falando das capitais de seus estados? Como pensar a história destes estados que se apresentam distantes da História nacional, conduzida pelo eixo sul-sudeste?

Acredito, como muitos outros historiadores, que não há uma fórmula pronta, acabada e única que possa ser aplicada pelos historiadores regionais, sobretudo por aqueles professores de História que se predispõem a fazer uso da História Regional em sala de aula. Mas, se há uma coisa que todos podem fazer, é aceitar o desafio de estimularem os alunos a produzirem as suas próprias histórias. Só assim se poderá dar voz aos “novos” personagens da narrativa historiográfica (mulheres, sertanejas, negras, indígenas, orientais, crianças e etc.), fazendo com que não apenas a escola e a história façam sentido, mas também este novo cenário marcado pela globalização, pela redemocratização. Somente assim o aluno será capaz de se identificar com a História ensinada nas aulas.


Notas

[1] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

[2] BARROS, José D´Assunção. O campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2010, p. 132 e ss. Citações pp. 152-153.

[3] MALERBA, Jurandir. “Notas à margem: a crítica historiográfica no Brasil dos anos 1990”. Textos de História, v.10, n.1/2, 2002.

[4] JANOTTI, Maria de Lourdes Monaco. “Historiografia, uma questão Regional? São Paulo no Período Republicano, um exemplo.” In: SILVA, Marcos (coord.). República em Migalhas. História Regional e Local. São Paulo: Editora Marco Zero, 1990. pp. 81- 101.

[5] GONÇALVES. Márcia de Almeida. “História local: o reconhecimento da identidade pelo caminho da insignificância”. In MONTEIRO, A. M. e GASPARELLO, A. M. e MAGALHÃES, M. S. (orgs.). Ensino de história: sujeitos, saberes e práticas. Rio de Janeiro: Mauad, 2007, pp. 175-185.

[6] BRICEÑO, Diana. “Los problemas que plantea la escritura de textos de Historia regional”. In Revista Iberoamericana de Educación, nº 41/2 – 10 de enero de 2007.

[7] RIBEIRO DA SILVA, Francisco. “História local: objetivos, métodos e fontes”. In Acta de Conferência Nacional. Porto: Universidade do Porto: Faculdade de Letras, 1999.

[8] Ver: https://pt.scribd.com/document/96193345/Manifesto-Arrabaldes


Sugestões Bibliográficas

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. Nordestino: uma invenção do falo; uma História do gênero masculino (Nordeste – 1920/1940). Maceió: Editora Catavento, 2003.

BARROS, José D´Assunção. O campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2010.

BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio. Brasília, 1999.

BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCNs+ Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 2002. 144 p

BURKE, P. (org.). A Escrita da história – Novas perspectivas. São Paulo: Edusp, 1992.

COLETIVO EDITORIAL ARRABALDES. “Manifesto Arrabaldes”. In Revista Arrabaldes. Rio de Janeiro: Petrópolis (RJ): ano I, nº 1, maio/agosto 1988, pp. 4-10.

MARTINS FILHO, Amilcar Vianna. Como escrever a história da sua cidade. Belo Horizonte: ICAM,2005.

MOREIRA, Luiz Guilherme S. & AZEVEDO, Maria Catarina da Silva. Atlas Histórico e Geográfico Escolar de São Pedro da Aldeia. São Pedro da Aldeia (RJ): Secretária Municipal de Educação de São Pedro da Aldeia, 2013. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/113279076/Atlas-SPA. Acessado em abril de 2017.

MOREIRA, Luiz Guilherme S. & CARNEIRO, Janderson Bax. Os índios na História da Aldeia de São Pedro de Cabo Frio – séculos XVII-XIX. Rio de Janeiro: Grafline, 2010.


Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira é Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Professor da Universidade Veiga de Almeida (2010-2016); Professor das redes municipais de Armação dos Búzios e de Cabo Frio. Entre os trabalhos em História Regional destaca-se: Cabo Frio: 400 anos de história. Brasília: IBRAM, 2017; e o documentário A Pesca Artesanal em Armação dos Búzios (IPHAN). Menção Honrosa no Concurso de Monografias (Arquivo Geral do Rio de Janeiro, 2010).

6 Comentário

  1. A discussão do local e do nacional ou do geral e específico não é recente nos estudos historiográficos. De certo modo concordo com o autor sobre a necessidade de os profissionais de história criarem mecanismos de sedução que envolva os diferentes níveis de ensino. A historiografia regional pode ser uma possibilidade, mas quero compartilhar com o autor uma questão. Por mais interessante que seja o tratamento dispensado a temas locais, nacionais, transnacionais, se as instituições de ensino não forem contemporâneas do tsunami tecnológico que a todos arrebata, dificilmente o discurso acerca do conhecimento histórico construirá pontos de atração. Esta questão, no meu entendimento é fundante e divido com alguns colegas de área. A questão é que para que a sintonia entre unidade escolar e novas possibilidades tecnológicas seja efetiva, necessita de recursos, o que como todos sabemos em termos de políticas públicas não tem sido há tempos prioridade. E quando se investe, via de regra não há continuidade, isto quando os recursos não são aplicados indevidamente. Se a denominada historiografia regional não estiver presente no smartphone, no tablet e divulgada com vigor em rede, tenho cá minhas dúvidas. De todo modo o autor nos chama para um debate interessante e profícuo.

  2. João, você está corretíssimo! Sem os recursos tecnológicos do século XXI nada, ou quase nada, irá atrair os jovens, cada vez mais antenados e plugados. Mas penso que estes recursos podem ser usados juntamente com a História Regional, não?!

  3. A pesquisa em História Regional tem como característica predominante a vivência do historiador no ambiente pesquisado. Sua experiência de vida cidadã pode garantir legitimidade ao que anuncia, pois além de escritor da história,manifesta-se seu lado de participante do processo histórico. Em todo o texto produzido aparecerá, necessariamente um pouco de sua intervenção nos acontecimentos narrados.Fato que diferencia a História Local e Regional da Geral. Há um maior envolvimento, quando em sala de aula, do professor e do aluno. Cria-se, consequentemente uma identidade com o ambiente estudado. As tecnologias atuais são essenciais para esse êxito.

  4. A proposta da História Contemporânea é ensinar História como produto da inteligência humana e não como um retrato imparcial do passado, através de análises pontuais, recortadas no espaço e no tempo, seja essa abordagem feita pela história regional, local, micro-história, nova história cultural, ou em qualquer outra abordagem historiográfica que se pretenda fazer. A ideia de uma macro história sequencial, baseada em estruturas, como por exemplo o modelo de historiografia que perdurou do iluminismo até a segunda metade do século XX, mais precisamente até 1970 com a crise dos paradigmas estruturalistas, já foi superada. Hoje em dia não se faz mais história assim, e é a falta de divulgação disso que permite que a historiografia seja usada como ferramenta de controle social. Todo discurso histórico, por mais fundamentado que seja, deve ser apresentado como um produto da inteligência humana subjetivo ao autor, passível de ser questionado e sem qualquer pretensão de ser uma verdade absoluta.

  5. Entendo que a História atual vem fazendo esforços para repensar a sua função social na sociedade. A História Regional enquanto pesquisa, possibilita a visibilidade de pessoas que jamais seriam notadas no seu próprio contexto regional. Nesse sentido, eleger pressupostos teóricos talvez seja a parte menos importante para a História Regional.

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