Da Águia à Estrela Vermelha: O General Brusilov e a Revolução Russa

A curiosa trajetória de Alexei Alexeievich Brusilov, um dos mais importantes generais da cavalaria russa. Em uma época de revolução na Rússia, Brasilov manteve-se sempre fiel – ao nacionalismo.

Por Fernando Loureiro

Numa manhã de março de 1926 os habitantes de Moscou, capital da recém-criada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), acordaram para assistir a um espetáculo no mínimo inusitado. Nas ruas do centro da cidade, bandeiras vermelhas com a foice e o martelo dividiam espaço com os ícones coloridos dos santos da Igreja Ortodoxa. Em palanques, chefes bolcheviques e Generais do Exército Vermelho estavam postados lado a lado com membros do clero ortodoxo, suas vestes douradas em contraste com as roupas austeras dos líderes político-militares do novo regime. Dias antes, de cidades e vilas de toda a Rússia, milhares de veteranos da Primeira Guerra saíram em direção à capital. Íam para Moscou assistir ao funeral de uma das figuras mais enigmáticas e emblemáticas da Revolução Russa: Alexei Alexeievich Brusilov.

Alexej-Brussilow
Alexei Alexeievich Brusilov em serviço pela Rússia. Imagem: picture alliance / Everett Colle

A história do homem sendo sepultado em Moscou começou muito longe dali, em Tiblisi, capital da Geórgia, então parte do Império Russo, em 1853. Nasceu numa típica família aristocrática da Rússia Imperial. Seu pai, russo, era General do Exército Imperial e seu avô havia combatido Napoleão em 1812. Sua mãe, de uma família da nobreza polonesa. Seu pai morreu em 1853, de tuberculose, e pouco depois sua esposa também faleceu. O jovem Alexei seria criado por parentes na cidade georgiana de Kutaisi.

Seguindo o que era esperado de um jovem de sua classe, foi enviado para São Petersburgo, capital do Império, para estudar no Corpo Imperial de Pajens, a instituição destinada a preparar os jovens das elites para o serviço do Estado. Ali se tornou oficial do Exército Imperial e jurou defender a Sagrada Rússia e a Dinastia dos Romanov até a última gota de seu sangue, como afirmava o juramento que todos os soldados e oficiais faziam ao entrar para o exército.

Em 1874, foi declarado Segundo Tenente de Cavalaria. Ao invés de servir nos prestigiados Regimentos da Guarda Imperial, que eram formados pelos filhos das famílias mais importantes do Império e que se dedicavam mais às festas e às mulheres do que às suas obrigações profissionais, Brusilov foi servir no Regimento de Dragões, cavalaria leve, de Tver, na sua Geórgia natal. Menos de quatro anos depois, estava em combate contra os turcos, na guerra Turco-Russa de 1877-1878.  Depois de se destacar no conflito e receber várias condecorações, o jovem oficial retornou para São Petersburgo e se matriculou na Academia de Oficiais de Cavalaria do Exército Imperial onde se tornou um estudioso do emprego da cavalaria em combate e ocupou vários cargos até se tornar, em 1902, já como General, seu Comandante. Foi nesse período dedicado à Academia que esse jovem oficial se casou, em 1884, e teve seu único filho, nascido três anos depois.

Até o momento, nada parecia indicar o caminho que Brusilov trilharia durante e depois dos dramáticos eventos de 1917. Ele era um nacionalista russo. Sua visão acerca da Rússia estava baseada na dominação cultural, política, econômica e religiosa que os Russos deveriam exercer sobre ucranianos, bielo-russos, poloneses e outras minorias. Era um ortodoxo fervoroso, de uma fé mística, que, segundo ele próprio, era o que o mantinha calmo mesmo nos momentos de crise. Era também um disciplinador duro com seus soldados e um chefe da família patriarcal, embora fosse descrito por seus contemporâneos como um homem educado e de convívio fácil. Depois de 1917, deixaria impressionados seus colegas oficiais ao cumprimentar, com apertos de mão, simples soldados de origem camponesa. Seu relacionamento com a monarquia, no entanto, seria complexo. Como todo homem de sua origem, começou sua vida como um monarquista convicto. No entanto, nos anos antes de 1917, Brusilov, mesmo que aos poucos, passou a ver, como outros oficiais da sua geração, os privilégios e interesses da corte e da burocracia do Estado Imperial como empecilhos à modernização do exército e à uma eficiente defesa dos interesses nacionais russos, sobretudo após a derrota para os japoneses na guerra Russo Japonesa de 1904-1905. Em 1909, quando foi nomeado comandante da região militar de Varsóvia, na Polônia russa, ficou horrorizado com o caos organizacional e material do Exército Imperial naquela região de fronteira tão vital para a segurança do Império.

Uma Europa em guerra

Quando a Europa mergulhou na guerra em agosto de 1914 Brusilov foi nomeado comandante do Oitavo Exército Russo que operava na Galícia, nas regiões fronteiriças com o Império Austro-Húngaro. Logo no início do conflito, enquanto as tropas russas eram derrotadas pelos alemães no norte da Europa, Brusilov passou à ofensiva e atacou, com sucesso, o Império dos Habsburgos.

Ele era um nacionalista russo, sua visão acerca da Rússia estava baseada na dominação cultural, política, econômico e religiosa que os Russos deveriam exercer sobre ucranianos, bielo-russos, poloneses e outras minorias; era um ortodoxo fervoroso, de uma fé mística, que segundo ele próprio era o que o mantinha calmo mesmo nos momentos de crise.

Em 1915, o Imperador Nicolau II o promoveu a General-Ajudante, título que no Exército Imperial equivalia ao de General de quatro estrelas, um dos mais altos postos que um oficial poderia atingir em um exército europeu. Brusilov acreditava que tinha sido promovido pelo sucesso das suas operações na Galícia, mas logo depois o Imperador o disse, pessoalmente, que o promovera por que o achou muito agradável quando almoçaram juntos no Quartel General do Exército Imperial. Era, para Brusilov, apenas mais um exemplo de como os valores da corte e da burocracia imperial ainda eram mais valiosos para o Estado Imperial do que profissionalismo e habilidades militares. Se ressentia, sobretudo, da péssima logística do Exército Imperial, da incompetência dos oficias de elite e da cúpula militar, cuja pouca preocupação com a modernização do exército colocava toda a Rússia em perigo. Teve também oportunidade de ter maior contato com os soldados de origem camponesa e ver de perto a miséria e ignorância em que viviam a vasta maioria dos russos. A maioria dos seus soldados, por exemplo, nem sabia que a Alemanha existia, como registrou o General nas páginas do seu diário.

Em 1916, Brusilov planejou e executou a maior ofensiva russa da Primeira Guerra Mundial, que ficaria conhecida como a Ofensiva Brusilov. Agora promovido à comandante da frente sudoeste, avançou, empregando táticas inovadoras, por uma frente extensa e atingiu os Cárpatos, já na atual Romênia. Capturou quatrocentos mil soldados do exército austríaco e se tornou um herói nacional na Rússia. Os alemães foram obrigados a retirar tropas da França para enviar para o leste, em apoio aos seus aliados austríacos.

No entanto, apesar das vitórias de Brusilov, a situação da Rússia no final de 1916 era tensa. No início de 1917 a revolta eclodiu em São Petersburgo e as forças governamentais não conseguiram retomar o controle. Em março de 1917, com a situação fora de controle, o Presidente da Duma – o parlamento do Império, criado em 1905 – exigiu que o Imperador abdicasse. Nicolau II pediu a opinião de seus Generais. Todos aconselharam a abdicação, inclusive Brusilov, que em 1916 já teria declarado que se tivesse que escolher entre a Rússia e o Czar, ele escolheria a Rússia. Em março de 1917, Brusilov escolheu a Rússia. O Czar abdicou e a Rússia tinha agora um governo provisório que em pouco tempo declarou uma República. Brusilov, como outros generais, apoiou o movimento. Para ele, a continuação da guerra sob um novo regime era a única maneira de trazer alguma estabilidade para o país, fazendo renascer o patriotismo do povo e salvando a Rússia da ruína total. Em maio de 1917, assumiu o Comando Supremo do Exército da República da Rússia, nomeado pelo então Ministro da Guerra, Aleksander Kerensky.

Chegando ao Quartel-General do Exército em maio de 1917, Brusilov encontrou oficiais apáticos e soldados que simplesmente não queriam mais lutar. Os soldados de origem camponesa desejavam, sobretudo, voltar para suas casas e famílias e cada vez mais repetiam os slogans dos bolcheviques, que a essa altura já faziam ferrenha oposição ao governo provisório da Rússia, comandado por liberais e socialistas moderados. O Governo Provisório, querendo manter a aliança com a França e a Inglaterra e ganhar prestígio e legitimidade interna, ordenou que o exército passasse à ofensiva contra os alemães e austríacos. Brusilov duvidava da possibilidade de sucesso de uma ofensiva tão cedo depois de uma revolução, mas seus protestos não foram ouvidos. Ele e os outros generais tiveram que obedecer à vontade férrea de Kerensky e o ataque começou em junho de 1917. Foi um desastre. As tropas desertaram ou foram massacradas pelos austríacos e alemães. A coalizão de governo liderada pelo político liberal Príncipe Lvov caiu e Kerensky formou um novo governo como Primeiro Ministro. Os bolcheviques se preparavam para o confronto final com o Governo Provisório. O exército a que Brusilov dedicara sua vida estava em colapso total; a Rússia parecia ir pelo o mesmo caminho. Em julho de 1917, Brusilov foi retirado do Comando Supremo do Exército e substituído pelo General Kornilov, um militar de extrema direita que era visto pelos generais mais reacionários como um possível ditador militar e salvador da Rússia. Brusilov deixou o Exército e se aposentou, estabelecendo-se com sua esposa em Moscou.

A ascensão bolchevique

O Governo Provisório agonizou até outubro, quando os bolcheviques tomaram o poder e logo iniciaram negociações com os alemães para retirar a Rússia da guerra. Em janeiro de 1918, assinaram o tratado de Brest-Litovski e entregaram boa parte da Rússia europeia para o Império Alemão. Os generais de origem aristocrática ficaram horrorizados. A maioria deles, fugiu para o norte ou sul da Rússia e formaram o chamado Movimento Branco – na verdade um exército formado por oficiais que tinham como único objetivo comum depor os bolcheviques. Brusilov também ficou horrorizado com o tratado, no entanto, não se juntou aos Brancos. Considerava que o povo russo havia feito uma escolha e essa escolha era pela paz e pelos bolcheviques. Convidado a assumir o comando do Movimento Branco, recusou. Seu dever era, segundo afirmou nas suas memórias, seguir com a Rússia e seu povo. Para Brusilov, os Brancos eram homens bem-intencionados e honrados, mas a guerra contra os bolcheviques não seria mais que um inútil derramamento de sangue de jovens russos. Os bolcheviques não estavam convencidos das ideias de Brusilov e ele chegou a ser preso, mas, posteriormente, foi solto pela Cheka, órgão de segurança do novo regime, por suspeita de envolvimento com os Brancos.

Em 1919, Trotsky, Comissário da Guerra, convocou os ex-oficiais czaristas que ainda estavam na Rússia para servirem como especialistas militares e auxiliar na profissionalização do Exército Vermelho. Para Brusilov, servir ao Exército Vermelho era continuar servindo à Rússia e aos governantes que, apesar de tudo, tinham o apoio do povo russo, ao mesmo tempo que garantia a sobrevivência dele e de sua esposa. Depois de 1917, Brusilov não tinha mais pensão de oficial e ele e a esposa viviam em Moscou num apartamento pequeno e sobreviviam muitas vezes com a comida que veteranos de guerra doavam para o casal. Em 1919, o velho General aceitou uma função burocrática, trabalhando na organização dos arquivos do Exército Vermelho.

Em 1920, depois de uma malfadada invasão russa, os poloneses contra-atacaram. Com apoio de nacionalistas ucranianos, as forças polonesas comandadas pelo General Pilsudski tomaram Kiev, a capital ucraniana. No sul da Ucrânia, os Brancos lançaram um ataque, coordenado com os poloneses, contra o Exército Vermelho. Brusilov ficou chocado e horrorizado com esses fatos. Os católicos poloneses estavam conquistando a Ucrânia, um dos berços da Rússia Ortodoxa, enquanto no Sul, os seus antigos colegas atacavam a Rússia, em aliança com inimigos históricos da pátria. Para o velho General era, nesse momento, inconcebível admitir que aqueles homens colocassem seus interesses de classe acima dos interesses maiores da Rússia. Brusilov se apresentou como voluntário para linha de frente. Queria combater e defender a Rússia contra uma invasão estrangeira, mesmo que isso significasse lutar sob a bandeira vermelha da Rússia socialista. Para o velho General, que nunca nem chegou perto de se tornar socialista, homens como ele teriam a função de tornar os bolcheviques mais brancos e menos vermelhos e os guiar na defesa dos verdadeiros interesses da Rússia.

O governo bolchevique percebeu a oportunidade da adesão de Brusilov e publicou no Pravda, jornal oficial do Partido, um manifesto do General conclamando todos os antigos oficiais do Exército Imperial a se apresentarem para lutar no Exército Vermelho. Inúmeros ex-subordinados de Brusilov atenderam ao chamado e, inegavelmente, contribuíram para a derrota das forças poloneses e brancas.

Brusilov não foi empregado como um comandante de linha de frente, mas sim como consultor especial para elaborar planos para a formação de um exército profissional permanente para a Rússia revolucionária. Também foi Inspetor General de Cavalaria do Exército Vermelho e serviu até pouco antes de morrer como membro do Comitê Militar Revolucionário. Antes de falecer, ainda teria um último motivo de tristeza. Os bolcheviques convenceram Brusilov a escrever um documento, no final da guerra civil contra os Brancos, prometendo que os oficiais Brancos que se rendessem teriam as suas vidas poupadas pelos bolcheviques. Quando muitos homens se entregaram confiando na palavra do velho General, foram executados pelos bolcheviques.


Referências bibliográficas

FIGES, Orlando. A People’s Tragedy: The Russian Revoltion. 1891-1924. New York, 1997.
STONE, Norman. The Eastern Front 1914-1917. London, 1978

Fernando Guimarães de Souza Fernandes Loureiro é mestre em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2011). Graduado em História pela Universidade Gama Filho (2006), Especialista em História Militar Brasileira pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2008). Tem experiência na área de História Política e Militar, com ênfase em História Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: História Militar, História Militar Naval, Pensamento Político-Militar Brasileiro e História das Relações Internacionais. Em seu mestrado, escreveu a dissertação O General Góes Monteiro e o Pensamento Político-Militar no Estado Novo, com orientação de Francisco Carlos Palomanes Martinho. Currículo Lattes.

5 Comentário

  1. Um texto bem construído, fez uma boa relação entre o personagem e o contexto histórico. Acredito que a História deve seguir esse pensamento, um relação entre pessoa e contexto, valorizando sujeitos de diversos níveis, lançando olhares novos sobre períodos que podem com o tempo ficarem taxados com singulares olhares.

    • Salve, Michel. Muito obrigado pela visita e pelo comentário.
      Também gostamos bastante dessa abordagem do professor Fernando Loureiro.
      Grande abraço!

  2. Obrigado Michel! A Revolução Russa e a Guerra Civil Russa são temas que sempre me interessaram, bem como as biografias e a atuação profissional e política de militares. Tentei fazer uma síntese breve dessas preocupações no texto. Fico feliz que tenha gostado.

    Forte abraço!

  3. Excelente texto. Interessante o relato sobre Brusilov. Demonstra como o homem é um ser do seu tempo, com todas suas peculiaridade. Para ele pouco importava as ideias progressistas ou conservadoras. Seu verdadeiro desejo era que sua Rússia fosse um lugar melhor.

    A criação do sentimento nacionalista é muito interessante. Tão interessante que a sociedade de hoje acredita ser algo natural, que sempre existiu.

    O forte sentimento nacionalista em Brusilov,já no início do século XX, demonstra o quão certo (PARA QUEM?) deu esta ideia.

    • Oi, Lucas! Obrigado pelo comentário. O nacionalismo é realmente um fenômeno realmente muito complexo. Hobsbawm dizia que se uma raça alienígena viesse estudar nossa civilização após o seu desaparecimento, seria impossível compreender os últimos dois séculos sem compreender antes conceitos como “nação” e “nacionalismo”.

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