Escravidão fotografada

Instituto Moreira Salles apresenta uma série de fotografias que retratam os últimos anos da escravidão no Brasil. O material é comentado pela antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz

Por Bruno Leal

O Instituto Moreira Salles (IMS), com sede no Rio de Janeiro, acaba de publicar em seu site um material visual praticamente inédito e que certamente despertará o interesse dos pesquisadores da História da escravidão no país. Trata-se de um conjunto de imagens que retratam o negro na sociedade brasileira do século XIX. São imagens que revelam a cosmologia da sociedade brasileira da época: escravidão, assimilação cultural, religiosidade, trabalho, trocas culturais e muitos outros aspectos históricos imanentes deste tipo de registro.

O blog do IMS convidou a historiadora Lilia Schwarcz para comentar as fotografias, pertencentes ao próprio acervo do Instituto. Em ótimo estado de conservação, as imagens são reveladoras de diversos aspectos sociais do século XIX brasileiro. No entanto, não é apenas a realidade enquadrada que chama a atenção. O olhar do fotógrafo também reflete uma intenção. Segundo o site do IMS, as fotos revelam as “contradições de um período em que o Brasil teve fotógrafos de objetivos distintos, que vão da criação de uma imagem apaziguadora da escravidão ao levantamento amplo das diferentes funções dos escravos até a Abolição”.

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Uma das fotos comentadas pela historiadora. Fonte: IMS | Divulgação

Diferente das fotos borradas e com problemas no tempo de exposição que estamos acostumados a ver, estas, no entanto, estão nítidas e em alta resolução. O volume está dividido em quatro blocos temáticos. No primeiro bloco, “Deuses e mucamas”, Schwarcz sublinha as semelhanças e disparidades nas imagens capturadas ao ar livre ou em ateliê. O que está em jogo ali é a montagem da cena: o enquadramento, os gestos, o vestuário, o penteado, as poses. Nada é fortuito. Os registros obedeciam a um ou mais objetivos. Muitos são conhecidos, outros nunca o serão. Já no segundo bloco, “O eito e a casa grande”, estão presentes fotos de Augusto Stahl, G. Gaensly e R. Lindemann, Georges Leuzinger, Henschel & Benque. Schwarcz discute as diferenças entre os retratos da mulher e do homem escravos. Os homens aparecem mais vinculados ao trabalho, enquanto as mulheres encontram representação mais variada por causa da domesticidade. As vestes são determinantes da relação com o senhor branco. Nos retratos de tipos exóticos, vê-se que são apartados da casa grande; nos de negros domesticados, que são incluídos.

No bloco 3, “Tipologia e encenação”, um dos mais interessantes, há uma série de fotos do famoso fotógrafo Marc Ferrez. Conforme explica Schwarcz, esses negros são retratados não apenas como trabalhadores da lavoura, mas como parte de um universo mais particularista. É possível observar nestas fotos uma grande falta de naturalidade. Por fim, é notável a apresentação do bloco 4, “o negro pitoresco”. Nesse último bloco, a historiadora examina imagens Victor Frond, dos anos de 1858 e 1859. São três imagens que procuram mostrar ao estrangeiro a imagem de uma escravidão amena – como se, embora ainda perdurasse no Brasil, a escravidão não fosse negativa.

Clique aqui para conferir as imagens comentadas por Lilia Schwarcz.


Bruno Leal Pastor de Carvalho é Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Pesquisa os seguintes temas: criminosos nazistas, mídias sociais e divulgação de História. É fundador e editor do Café História. Atualmente, é pós-doutorando em História Social pela UFRJ.

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