A tragédia de Édipo e a invenção da psicanálise

Da tragédia cotidiana à miséria banal: como a metáfora de Édipo Rei, uma das mais famosas peças do antigo teatro grego, pode nos ajudar a melhor compreender a psicanálise.

Por Eliane Zimelson Schermann

Em Escritores Criativos e devaneio, publicado em 1908, Sigmund Freud escreve: “Os escritores, como os antigos poetas épicos e trágicos utilizam temas preexistentes à própria criação. O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca: cria um mundo de fantasia. (…) a obra literária, como o devaneio, é uma condição ou um substituto do que foi o brincar infantil”. [1]

Em seu estudo, Freud pretende que a psicanálise acolha a “tragédia cotidiana de vida” de um sujeito para, com seu método terapêutico, transformá-la em uma “miséria banal”. O Édipo é o eixo fundamental da psicanálise. O trágico destino de Édipo Rei, escrito por Sófocles por volta do ano 427 a. C., relata a travessia de uma vida em busca da revelação de sua origem e, repetindo a trágica saga dos Labdácias, se questiona sobre quem seria o assassino de seu pai Laio. Édipo não sabia, mas é surpreendido ao descobrir sendo ele mesmo o assassino que procurava encontrar.

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“The blind Oedipus commending his children to the Gods”, 1784. Fonte: Wikipedia

A psicanálise se efetiva baseada em uma operação de verdade. As verdades recônditas, apagadas da memória só aparecem veladas pelos equívocos da linguagem e da fala. A verdade apenas se desvela ao irromper como meio-dizer. Essas verdades esquecidas, capítulo censurado de nossa história de desejo, remetem-nos ao conceito de inconsciente, que, por sua vez, reverte nossa relação com o saber. A descoberta do Édipo traduz esta subversão: há um saber inconsciente que nos leva a invocar verdades negligenciadas que, como ocorre com Édipo, podem desvelar o âmago do ser e então mudar radicalmente a orientação de uma vida.

O Édipo e a invenção da psicanálise

O Édipo é uma descoberta e um conceito estreitamente ligado à invenção da psicanálise. A reflexão sobre o inconsciente depende do Édipo em seus três aspectos: o mito, o complexo e o conceito. O mito é o que dá estrutura lógica ao que advém da realidade psíquica. As psicoterapias (sugestão e hipnose), que Freud utilizou e abandonou por causa de seus limites, tentaram reduzir o Édipo a um instrumento de adaptação ao socius, a uma doutrina de conformidades. Contudo, Freud recorreu ao Édipo do grego Sófocles utilizando-o como metáfora do inconsciente que fala de desejos e proibições. Como consequência, o complexo de Édipo evoca a formação de sintomas como substituições do proibido e do esquecido, do recalcado.

O sintoma tem uma causa e uma economia libidinal. Logo, há uma organização lógica na constituição e na decifração dos sintomas. A psicanálise os trata mudando sua economia libidinal. Por considerar o sintoma uma patologia que afeta o sujeito – pathos, as psicoterapias visariam a supressão de sintomas para obter a restauração de um estado anterior, “normal”. Para a psicanálise, o sintoma não é apenas uma “doença”. Embora cause sofrimento, ele aí está para dizer algo sobre um sujeito.

Adotado como conceito, o Édipo traz um destaque especial. O que é um conceito? “É o tempo da Coisa”, nos ensina Heidegger. [2] O tempo da Coisa é outra forma de se referir àquilo que causa o dizer de um sujeito e que está sempre em defasagem com o que ele quer dizer. Há uma defasagem entre o enunciado e a enunciação, entre o dito e o dizer. Podemos até afirmar que o sujeito padece da linguagem, pois é comum surpreender-se com os equívocos da linguagem.

Então é preciso o tempo para não banalizar o Édipo. Lacan nos ensina que há três tempos para que se dê a apreensão da realidade inconsciente, da realidade psíquica: o instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir. [3] Esses três tempos são exigidos para acompanhar o futuro anterior que predomina em uma descoberta do inconsciente e que expressa o âmago da constituição do sujeito.

Para a psicanálise, um sintoma, por mais paradoxal que seja a satisfação que um sujeito encontra nele – sofrimento, mas também prazer -, é ali que está a sua verdade mais íntima. O sintoma para a psicanálise é um meio de revelação de uma subjetividade e de uma singularidade. A psicanálise trata o sintoma transformando, alterando essa economia libidinal através da palavra e do ato que retornam ao sujeito fazendo-o falar mais.

A psicanálise se propõe a despertar no sujeito o desejo de saber sobre o que significam seus sintomas e esclarecer as causas de seu mal-estar. Ela visa esclarecer a que esses sintomas se atêm, para que servem e como substituí-los. No descaminho do nosso gozo, da nossa satisfação pulsional paradoxal, mesmo que seja no pior, só há a linguagem e seus mal-entendidos para situá-los.

A tragédia antiga e a psicanálise

A tragédia antiga expõe a “céu aberto” o que o inconsciente reluta em dizer. Para além de sua origem mítica, a essência da tragédia consiste na até, na fatalidade. Até é um termo grego de difícil tradução. Denota, ao mesmo tempo, uma espécie de “iluminação” violenta assim como é a expressão do inexorável.

Apesar da progressiva humanização da tragédia grega, o homem nunca deixou de se haver com a fatalidade, com a até. A até trágica desvela, assim, a ultrapassagem de uma fronteira. O herói trágico avança em seu destino até que, em um instante inesperado, ele próprio é surpreendido por algo que faz e a partir daí não mais será o mesmo que era antes. Nesse instante fugaz, o herói “padece” de uma reviravolta.

No limiar de uma decisão pela qual é forçado a se responsabilizar, o herói trágico se constata ultrapassado por algo imprevisível e até então desconhecido. Sua decisão, sua escolha é um desafio ao futuro, ao destino e a si mesmo. É o que nos ensina o transcurso da tragédia de Édipo Rei ao Édipo em Colona, de Sófocles. Não sendo pleno senhor e agente de seus atos e de suas decisões, o herói corre o risco de cair na armadilha de suas próprias escolhas, esperando que os deuses e o oráculo (de Delfos) estejam ao seu favor. Onde estará a responsabilidade por seus atos? Em que podemos aproximar o ato trágico àquilo que a psicanálise trabalha em relação à ética? Lembrando que a ética é a casa onde habita o homem.

Freud nos ensina que o artista antecipa o psicanalista. Optamos por recorrer à tragédia grega por ser uma criação literária que melhor exemplifica a encenação, a colocação em ato daquilo que impulsiona um sujeito a agir e que, com Lacan, nomeamos de insistência em buscar satisfação pulsional, o que também pode se apresentar como satisfação tanto no prazer como no desprazer, ou no gozo paradoxal. Constatamos então que os heróis, sem terror nem piedade, são movidos por algo distinto da angústia neurótica. Esta antecipa signos para prevenir o “herói do cotidiano” de um perigo que se aproxima e o ameaça. Enquanto o neurótico é precavido ou posterga seu ato, os heróis, seja o antigo ou o herói moderno, destemido, mergulha nos seus ditames, sejam respectivamente os dos oráculos ou os do seu próprio desejo!

Considerando-a efeito da divisão subjetiva, a angústia é um índice da “amarração” do sujeito desejante a um objeto que é ansiado para satisfazer a um desejo. Paradoxalmente, é um “nada” que antecipa um “futuro anterior”. Dizemos que esse “nada” funciona em função da causa do desejo. Seu estado é de “ex-sistência”, termo usado para abordar a “existência” imaterial e sua insistência – cifra de uma constância – na busca de satisfação que se dá tanto no interior e, ao mesmo tempo, no exterior do aparelho psíquico. Melhor dizendo, trata-se de um objeto, que segundo Freud, foi miticamente perdido e que todo sujeito “sonha” re-encontrá-lo! Contudo, como ele é inefável, só podemos experimentar a manifestação de sua insistência. Essa, sim, é o que causa o curso do desejo.

O mito do Édipo nos ensina que o sujeito deve simbolizar o que miticamente se desvelou como perda de satisfação e de gozo, acreditando poder recuperá-los em objetos substitutivos. Se o gozo é o que o sujeito perde ao falar – o sujeito padece do significante que vela e desvela esta busca insistente – é porque do gozo está separado e por ele dividido.

A lógica e a estrutura que regem a insistência do desejo e sua “ex-sistência” são organizadas como e pela linguagem: com suas metáforas, metonímias, parábolas, interrupções, exclamações etc. Para escapar ao esquecimento e ao recalque peculiares à linguagem inconsciente, o teatro grego expõe a olhos nus, através de seus heróis trágicos, a imagem das “paixões do ser” – ódio, amor e ignorância. Essas paixões margeiam o profano e o sublime da fatalidade estrangeira ao sujeito. Estas também dividem o sujeito do desejo, ou seja, deixam-no ser permeado por uma zona de ignorância sobre o que causa e determina o destino da sua realidade psíquica. É com essa realidade que a psicanálise trabalha. Assim é que podemos equiparar um sujeito qualquer do cotidiano a um herói moderno que não cede de seu desejo, levando-o às ultimas consequências. Ambos são responsáveis pelos seus atos governados pelos desígnios de seu desejo inconsciente!


Notas

[1] FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneio. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

[2] HEIDEGGER, Martin. Qu’est-ce qu’une chose? – Cet écrit livre le texte d ‘une cours qui a été tenu sous le titre Question fondamentales de metaphysiques à l´Université de Fribourg-en-Brisgau pendant le semester d´hiver 1935-1936. Traduit de l´allemand par Jean Reboul et Jacques Taminaux. Editions Gallimard, 1971.

[3] LACAN, Jacques. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada – Escritos – tradução Vera Ribeiro . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.


Eliane Zimelson Schermann é psicanalista, Doutora em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da UFRJ. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano.

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